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Procuro um livro de Instruções para a vida

9 de Abril, 2012por Luís Osório
Escrevo num domingo. A casa está vazia, silenciosa. Pela enésima vez sinto forte o que tenho feito por falhar – há instantes em que pareço fazer questão de deixar passar comboios, oportunidades, pessoas.

Por dentro, nas minhas gavetas privativas, começa a não existir espaço para as palavras que não disse por as julgar pouco ou nada urgentes.

Penso em António Tabucchi. Um italiano que mudou a sua vida quando, na Gare de Lyon, numa Paris embriagada de liberdade, leu no final da década de 60 o Tabacaria de Álvaro de Campos – «Serei sempre o que não nasceu para isso/ Serei sempre só o que tinha qualidades/ Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta…». Leu estas e outras linhas de Pessoa e, por este acaso, por este encontro com o seu livro de instruções para a vida, perdeu-se na nossa língua para melhor se encontrar – por aqui encontrou Maria José, mãe dos seus dois filhos, Miguel e Teresa; a partir daqui, mais do que da sua Itália, pensou empenhadamente numa ideia de liberdade que pudesse perseguir e alcançar.

António morreu. Talvez tenha partido da sua casa na Lapa, sítio de luz em que, com ele e António Mega Ferreira, trocámos conversa sobre a falta de empenho dos cidadãos na procura de causas que pudessem servir para si próprios de bandeira e motivação. Sim, certamente terá partido da sua casa na Rua do Monte Olivete, numa rua inclinada para o Tejo e um chão de madeira que respondia aos passos com um ranger que nos colocava, que me colocou, em sentido. Partiu Tabucchi, enorme escritor a quem o acaso não virou costas. Nos Prazeres, como bem afirmou Mega Ferreira no elogio fúnebre, as cinzas foram depositadas numa terra que tornou sua: «Foi, com as suas histórias, um desassossegador de leituras, um catálogo de coincidências, um descobridor de acasos. E foi tudo isso muito perto de nós, quase um secreto murmúrio com a nossa língua, quase em secreto casamento com a nossa alma».

Parece que os estou a ouvir. Era um fim de tarde talvez de domingo, a casa estava em silêncio. Sensação reforçada com o que os dois um ao outro disseram; há momentos, raros mas inesquecíveis, em que o silêncio nos surge pela força das palavras e convicções. Anos mais tarde, pelo poder quase mágico desse quase domingo, voltei a telefonar-lhe para o inquietar com uma ideia que só poderia ser feita por si, um projecto para os dois realizarmos. Tabucchi estava em Itália, empenhado na queda de Berlusconi… Combinámos para depois, mas depois foi mais uma vez um futuro distante.

Estava desejoso de lhe dizer que, ao contrário dele, ainda não encontrara um livro de instruções para a vida. Na verdade, continuo a perder tudo. As pequenas coisas escapam-se pelas frinchas dos dedos, as grandes evaporam-se ou deixam de ser o que eram aos meus olhos. Contam-me segredos e mezinhas para encontrar o que tenho perdido; laços amarrados às pernas de uma cadeira e outras coisas que tais, mas nada. O livro não aparece como aquela Tabacaria lhe surgiu num alfarrabista de Paris.

Era isso o que lhe ia propor. Uma viagem por lugares da sua Europa, do seu roteiro de alma, onde o objectivo passava simplesmente por encontrar a liberdade perdida. ‘Onde está a liberdade’, eis o apelo que lhe lançaria se, porventura, não fosse o que deixa passar comboios, oportunidades, pessoas.

Talvez começássemos em Vecchiano, nos arredores da sua infância, e logo seguiríamos para Roma, Atenas, Sarajevo, Berlim, Paris e numa Lisboa perto do Tejo e de Pessoa. Não sei se seria assim ou se, hipótese real, optaria por desligar do assunto para procurar outro que mais lhe interessasse. Ou quisesse procurar na sua Lisboa a verdade nos olhos dos que passam mal. Nos novos envergonhados, nos homens e mulheres que pela primeira vez estenderam a mão. Muitos. Muitas. Nos que emigraram ou o desejam. Muitos. Na raiva. Muita. Nas opiniões sem nexo. Também, muitas. Na gente pronta a distribuir culpas. Sim, muita. Na gente perdida de sonhos, de objectivos… No nosso país, no meu e no dele, neste Portugal que é um caos calmo, de revolta calada, de gente pacífica em guerra para dentro. Silenciosos à espera de um berro vindo da multidão. Um pouco salazaristas. Sim. Mas um país de Pessoa também. De poetas. De farras mascaradas de negócios ao almoço. De gargalhadas e vinho tinto. De grandes grandezas e actos de bravura. De esquecimento e esquecidos.

Por isso se compreende que não tenha estado nenhum poder presidencial, governativo ou autárquico no teu funeral. Não fizeram por mal, António. Simplesmente outras coisas se colocaram à tua frente, outras prioridades, desígnios, compromissos que condenam os homens e mulheres de grandes agendas a tornarem-se o contrário do que defendem quando não estão no poder.

Das ideias absolutas, as que os de bem deviam perseguir até ao último dia, vamo-nos afastando. Lembro-me do António Mega Ferreira, não sei se daquela vez em tua casa ou noutro sítio qualquer, a escolher a felicidade como tema. «Não há um sentido na vida, não há uma meta, a vida vai-se fazendo. A felicidade não se alcança… É como a linha do horizonte, quanto mais próximo estamos mais longe ela vai ficando. A felicidade não existe, são momentos de infinito prazer ou de serenidade».

Recordo-o bem. E chego aqui como se te tivesse conhecido bem. Como se tivesses aceite o meu desafio e todas as viagens que não fizemos, como se tivéssemos descoberto onde ela está. A liberdade. Que coisa engraçada esta. Pertenço à cidade quase por inteiro. Sou da poluição, do trânsito, dos prédios com vizinhos que não o são, dos néons da noite e da competição. Mas há uma memória que não consigo enquadrar aqui. Uma memória de infância em que corro pelos montes à procura de um ponto em que o céu estaria ao alcance da minha mão. Nunca lhe consegui tocar, mas continuo a procura. Dou voltas e voltas e um dia talvez possa partir de onde pertenço. Procuro a minha Tabacaria. Encontramo-nos depois, António. Vou melhorar a ideia e depois falamos. Talvez daí me possas ajudar.




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