Nos jornais e nas televisões vemos notícias que são repetidas quase diariamente.
Em crónica anterior, já falei de um caso desses.
Quantas vezes já não vimos repetida a afirmação de que Portugal «não precisa de mais tempo nem de mais dinheiro»?
Perdi-lhes a conta.
Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar e Miguel Relvas já repetiram esta frase à exaustão.
Mas depois vem uma agência financeira dizer o contrário – e lá vão perguntar ao primeiro-ministro, ao ministro das Finanças, ao ministro dos Assuntos Parlamentares se confirmam ou desmentem, e eles lá repetem o que disseram.
Depois vem um estrangeiro mais ou menos desconhecido dizer o contrário – e o filme repete-se.
Depois vem Vítor Constâncio dar mais um palpite – e sucede o mesmo.
E assim sucessivamente.
OUTRA repetição recorrente diz respeito ao 13.º e ao 14.º meses.
Outra ao regresso de Portugal aos mercados em 2013.
Outra ainda ao início da retoma, ou seja, à inversão do ciclo económico.
Um dia Pedro Passos Coelho diz que calcula que no fim deste ano, princípios do próximo, o ciclo poderá inverter-se.
Mas depois há um jornalista que lhe pergunta:
– Pode jurar que isso irá acontecer?
Passos Coelho responde que jurar não pode.
E lá se publica mais uma mão-cheia de notícias a dizer que, se o primeiro-ministro não pode jurar, é porque há uma forte probabilidade de as coisas correrem mal.
E quando não há coincidência entre o que dizem dois governantes, então é o delírio completo.
Organizam-se logo debates nos vários canais para discutir o assunto.
VIVEMOS tempos demenciais.
No meio da vertigem, não percebemos que essas discussões são perfeitas inutilidades.
Porquê?
Porque tudo o que agora se diga sobre o 13.º e o 14.º meses, sobre a necessidade ou não de mais tempo ou de mais dinheiro, ou sobre o início da retoma, não interessa nada.
Ou interessa muito pouco.
São previsões, são cálculos, por natureza muitíssimo falíveis.
Nenhuma pessoa responsável pode ‘jurar’ o que vai ou não vai acontecer em Portugal daqui a um ano, quanto mais a dois ou a três.
Basta ver as correcções que estão constantemente a sofrer as previsões das entidades mais idóneas.
A EVOLUÇÃO da economia e das finanças portuguesas depende de múltiplos factores que nem o Governo nem ninguém controla.
Ninguém sabe como vai evoluir a economia europeia (e a espanhola, em particular), da qual depende boa parte das nossas exportações; ninguém sabe como se vai comportar o investimento privado, do qual dependem o crescimento e o emprego; ninguém sabe como vai evoluir a situação da banca, de cujo crédito depende boa parte do tecido económico; e por aí fora.
Ninguém domina todos estes factores.
Um Governo pode criar condições para isto ou aquilo acontecer – mas a concretização não depende dele, depende de circunstâncias internas e externas, relacionadas com a situação internacional, com os mercados, com os financiadores, com os investidores privados, etc.
A austeridade pode ser decretada pelo Governo – aumentando os impostos, cortando regalias aos funcionários públicos ou fechando organismos e mandando gente para a rua.
Mas o crescimento não pode ser decretado pelo Governo.
O Governo pode fazer a cama onde os privados se vão deitar – mas não pode substituir-se a eles debaixo dos lençóis.
PORTANTO, caro leitor, não estranhe se vir notícias sobre o mesmo assunto dizendo exactamente o oposto.
Podem ser ambas legítimas.
E às vezes duas notícias aparentemente antagónicas são apenas as duas faces da mesma notícia.
Se Vítor Gaspar disser: «Não haverá mais medidas de austeridade este ano se nada de anormal ocorrer», um jornal pode titular: Gaspar afirma que não haverá mais austeridade, enquanto outro pode escrever: Gaspar admite novas medidas de austeridade se a evolução não for positiva.
É a eterna questão de como vemos o copo: se meio cheio, se meio vazio.
MAS, para lá do optimismo e do pessimismo, para lá das opções ideológicas, a questão é que ninguém sabe como isto vai evoluir.
Assim, resta-nos ir cumprindo o memorando da troika.
Pelo menos sabemos que, se o cumprirmos, melhoraremos a nossa imagem lá fora – e teremos a ajuda dos outros países europeus se as coisas não correrem bem.
Se não cumprirmos o memorando, sucederá o contrário: alimentaremos a fama de que somos um povo indisciplinado e pouco fiável, e não teremos amanhã ninguém que nos ajude.
P.S. – A questão das reformas antecipadas é diferente. Secretismo à parte, essas reformas (que muitas vezes são usadas como expedientes e tendem a aumentar) constituem um encargo insustentável para o sistema e uma sobrecarga injusta para os que estão no activo.