António José Seguro saiu fortalecido do tumulto interno no PS, com o discurso que fez no encerramento das Jornadas Parlamentares do seu partido em Bragança.
Talvez inesperadamente, Seguro terá conseguido ultrapassar a situação pantanosa em que se encontrava o PS, enredado na aprovação do recente Tratado europeu ao lado da maioria governamental.
Foi um discurso claro, vigoroso, com propostas alternativas concretas à política do Governo. Nomeadamente, em sectores cruciais como a energia, onde se anuncia uma nova vaga de aumentos de preços enquanto se mantêm as rendas excessivas e as remunerações milionárias do capital até 13,5 por cento. Oportunos e incisivos foram também os alertas para a desertificação do interior e as desigualdades cada vez mais insustentáveis na repartição das medidas de austeridade.
O contraste tornou-se mais evidente no momento em que o primeiro-ministro e o ministro das Finanças dão sinais crescentes de descontrolo político e incapacidade de responder às expectativas sobre a regeneração económica do país.
As nuvens negras não param de crescer, com a queda das receitas fiscais e a fuga dos certificados de aforro e do Tesouro, complicando ainda mais o financiamento do Estado. Ao mesmo tempo, soube-se que as verbas disponíveis, através do QREN, para estímulo à economia, vão ficar abaixo dos dois mil milhões de euros anunciados.
Tudo isto e o mais que se conhece – ou ainda não… – coincide com um novo agravamento da conjuntura europeia e a entrada da Espanha numa zona de alto risco. Mas, numa entrevista à revista brasileira Veja, Passos Coelho persiste numa perigosa cegueira e num exercício sadomasoquista, ao afirmar que a situação portuguesa não tem nada a ver com a Europa e se deve apenas a «más decisões internas».
Será que a vocação de ‘melhor aluno europeu’ se confunde já com um impulso irreprimível de dar tiros nos pés? As «más decisões internas» foram altamente responsáveis pelas nossas aflições presentes, mas Portugal não é uma ilha isolada no mapa da crise europeia. E esse culto culpabilizante da insularidade só serve para tornar-nos ainda mais frágeis e subservientes.
Valha-nos, pelo menos, a lucidez e a combatividade que António José Seguro veio agora introduzir no debate político, revigorando o papel do principal partido da oposição. Sejam quais forem as nossas opiniões políticas, só por incurável sectarismo se poderão recusar as vantagens que isso traz à democracia.