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Faz sentido?

7 de Maio, 2012por Jaime Nogueira Pinto
Sexta-feira a meio da tarde recebi um SMS a dizer que Raimundo Pereira e Carlos Gomes Jr. estavam a partir do Aeroporto de Bissau em direcção a Abidjan num avião da CEDAO.

Era um motivo para alegria. Duas semanas antes, os golpistas tinham tomado conta da capital, atacado a casa do primeiro-ministro, e ocupado as rádios, os partidos políticos, as sedes e os símbolos do Estado.

Teriam feito tudo isto, segundo os próprios, por causa de um pacto secreto entre o Governo da Guiné e o Governo de Angola. Mas a verdade é que tinham sido manipulados por Kumba Ialá, que induzira os militares a tomarem o poder, para não serem afastados da cena política.

Justificação patética a ‘conspiração’ angolana, cuja ‘prova’ nunca apareceu. O motivo real foi a manipulação dos militares, inquietos perante a reforma das Forças Armadas.

Uma missão militar angolana estava a colaborar nesta reforma. O Governo de Carlos Gomes Jr. tinha pela primeira vez saneado as finanças do país e estava a pagar a tempo e horas os salários dos funcionários. E Gomes Jr. batia o adversário por uma larga maioria, 49% versus 23% Kumba Ialá.

O Governo português – e os outros governos da CPLP – actuaram com rapidez e fizeram a coisa certa: denunciaram o golpe e a sua origem; garantiram a vida de Carlos Gomes Jr. e de Raimundo Pereira, responsabilizando os seus captores; trataram de obter uma condenação unânime, dos africanos e da comunidade internacional, e garantir o regresso ao status quo ante.

Sem qualquer apoio popular e divididos entre si, os golpistas e a rede civil do golpe entraram em crise e passaram da arrogância extrema para as concessões parcelares.

Mas, bruscamente, a organização regional CEDAO aparece em cena: os golpistas recebem a sua missão, aceitam parte das imposições, libertam o Presidente interino e o primeiro-ministro. Agora, surge em cima da mesa um pacto esquisito: em vez do regresso à situação legal e legítima anterior ao golpe, há uma espécie de acordo em que a CEDAO assume a arbitragem da questão, as vítimas são restituídas à liberdade e vai haver um período de interregno de um ano, em que golpistas e governantes legítimos partilharão o poder.

É como se depois de um assalto a um banco a Polícia sentasse a uma mesa ladrões e gestores e os pusesse em gestão conjunta dos bens partilhando os ladrões e a polícia a segurança do estabelecimento.

Faz sentido?




1 Comentário
JorgePaz
08.05.2012 - 19:43
Concordo na generalidade consigo e com este seu oportuno e certeiro texto.

Só duas notas:
(1) Amigos guineenses não confirmam que Kumba Ialá tenha sido o "inspirador-mor" do golpe, inclinando-se mais para a hipótese dos militares, encabeçados pelo seu CEMFA, terem pressentido que íam perder poder e influência, mormente junto dos narcotraficantes e daí o golpe;
(2) "Cadogo" (Carlos Gomes Jr.) não é nenhuma "flor que se cheire" (está envolvido em demasiados negócios e deve ser o homem mais rico da G.B.), pese embora ter sido um razoável PM e na verdade o líder do PAIGC (partido maioritário).

Não obstante, sem dúvida que se deve respeitar a Constituição da G.B. e os anteriormente e eleitos devem reocupar os seus lugares (caso do referido Cadogo e do PR interino) e realizar a 2ª volta das eleições presidenciais.

Foi isso que a CPLP - e bem - acentuou em 5 de Maio e daí não se deve sair.

Mas a solução na G.B. passa pelo desarme dos militares e pela formação de umas Forças Armadas Republicanas, efetivamente subordinadas ao pode civil democraticamente eleito, e não pelas ainda designadas "Forças Armadas revolucionárias".


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