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Uma vida boa

7 de Maio, 2012por Carla Hilário Quevedo
Fiquei triste com a morte do eurodeputado Miguel Portas. Não pertencia ao seu círculo de amigos, não partilhava das suas ideias políticas, mas seria absurdo dizer que estávamos nos antípodas ideológicos.

Cruzei-me uma única vez com Miguel Portas. Estaríamos em 2005, tinha começado a colaborar com o Expresso, e um dos meus passatempos preferidos na crónica era ridicularizar o Bloco de Esquerda. Numa noite cheia de gente no Frágil, aparece à minha frente um homem de sorriso franco e atitude cálida que me cumprimenta com genuíno entusiasmo. Trocámos breves palavras risonhas e francas. Fiquei a pensar que o Bloco de Esquerda não sabia o valor que tinha naquela pessoa que, por sua vez, só se podia ter enganado de partido. Nos últimos dias, assisti à confirmação da impressão que me ficara dele: respeitador das diferenças, íntegro nas convicções e leal na discussão. Foi bom ver tanta gente a valorizar publicamente o que merece ser preservado. Foi bonito ver tanta gente a querer prestar-lhe a sua homenagem.

Autonomia emocional

Vi há dias na RTP Memória a repetição da entrevista a Miguel Esteves Cardoso por Rui Ramos, em 2006. Lembrei-me dos planos de promoção da leitura em Portugal baseados na ideia de que é preciso ler os clássicos, senão está tudo perdido. Sabemos que não é esse o problema. A questão essencial foi brilhantemente descrita por Miguel Esteves Cardoso: a leitura tem a função principal de nos livrar de sarilhos. Uma pessoa que desenvolveu um gosto por ler não está à procura de nada nem de ninguém para preencher um vazio na sua existência. Tem mais que fazer; tem um interesse na vida; um livro para ler, seja ele qual for. E se for ávido de Henry Miller? Paciência. Não terá um gosto apurado, mas ao menos tem a capacidade de estar sozinho com o Plexus, o Nexus e o Sexus e não se desgasta em relações inúteis. Há muitas pessoas, de todas as idades, que não sabem estar sozinhas. Vêem os outros como uma oportunidade de terem a companhia que não aprenderam a fazer a si próprias. Não lêem, logo são dependentes.

Educação e moral

Na semana passada, falei aqui um pouco sobre a ausência intrínseca de progresso na humanidade. A natureza humana é a mesma; por isso, no meu entender, é a relevância que damos ao que existe que constitui aquilo a que ilusoriamente chamam ‘mudança’. Como exemplo, dei a má educação, punida pela sociedade em tempos não muito anteriores ao nosso, mas que hoje em dia é entendida como um traço distintivo de ‘uma personalidade forte’. É ainda demasiadas vezes confundida com ‘sinceridade’, um valor fundamental para relacionamentos necessariamente verdadeiros. Devo sublinhar que a má educação de que falo não se resume à falta de cordialidade, também ela importante, mas à ausência de princípios e de competência moral e humana, que tem consequências directas no modo como nos relacionamos. Sejamos decentes uns com os outros no desacordo quotidiano, no conflito de ideias, no confronto ideológico. E deixemos toda a nossa brutalidade e impertinência para a literatura e para o humor.

A nossa bolha

Uma decisão invulgar de um juiz de Portalegre está a despertar o debate na sociedade portuguesa sobre a realidade dramática da entrega da casa ao banco por impossibilidade de pagamento da mensalidade dos empréstimos. O juiz decidiu que a dívida estaria saldada com a entrega da casa ao banco. O problema é tão complexo, que merecia ser tratado mais exaustivamente por parte da comunicação social. Como leiga na matéria, fiquei satisfeita com a decisão do juiz. Parece justa, tendo em conta que quem avalia a casa é o banco, tanto quando concede o empréstimo, como na altura em que compra a casa de volta. O banco avalia acima do pedido inicial de empréstimo, a fim de conceder mais crédito, mas na hora de comprar o imóvel, avalia por baixo e exige o pagamento da diferença entre o empréstimo concedido e o valor da nova avaliação. É certo que as casas de hoje não valem o mesmo, mas valeriam assim tanto no passado? Não foi isto que aconteceu com a bolha imobiliária fatal nos Estados Unidos da América?

É a opinião dele

Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos, aproveitou a sua primeira entrevista para expor o seguinte problema: há muitos casos de agressão dos utentes do SNS a profissionais de saúde que não passam pela Justiça porque as vítimas sentem que não vale a pena reclamar. O assunto é sério. A solução dada por Jorge Roque da Cunha é que me parece no mínimo extravagante. O secretário-geral recomenda que o paciente agressor não seja tratado pelo SNS, porque o Estado não pode pactuar com a violência. A queixa é extensível ao Ministério da Saúde por não intervir nestes casos. Está tudo mal com esta ideia. Nem o Ministério da Saúde se substitui à Polícia e aos tribunais, nem os agressores têm de ser julgados por médicos ou enfermeiros e hospitais. Ainda menos, a pena deve ser imoral e tosca como negar cuidados de saúde a uma pessoa. É uma solução que não passa sequer pela cabeça daqueles que anseiam por uma Justiça mais firme no País. Haja limites para o disparate.

 




2 Comentários
JorgeDuque
12.05.2012 - 11:49
Esta análise não tem qualquer referência à quixotesca luta dos direitos da mulher no mundo livre ou critica à maneira de ser masculina.
Parabéns pela evolução.
Cirrus
07.05.2012 - 23:04
Quanto ao primeiro "capítulo" deste artigo, penso que a análise feita não só é inacreditável, como só pode vir de alguém que, dando-se o improvável caso de não ser um mentecapto total, estava, no mínimo, num dia daqueles em que era melhor ficar em casa. E quem diz dia, diz ano. Ou melhor, década.


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