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Fernando Lopes e o que conheço do céu

15 de Maio, 2012por Luís Osório
Na sala de refeições do Nicola bebi quase uma garrafa de Famous Grouse com Fernando Lopes. Nesse pós-almoço, numa campanha eleitoral em que ambos apoiámos a candidatura de Jorge Sampaio à Presidência da República, entrou pela minha cabeça e de lá nunca mais saiu.

«Luís, o importante não é filmar a superfície. Isso é o fácil, o fast food diário de vidas, o decisivo é se conseguires pensar para lá disso, filmar o movimento interior», disse-me com a voz e os seus olhos nos meus. Trocámos telefones. E nasceu uma série televisiva a quem um colega, o jornalista João Paulo Vieira, baptizou de Portugalmente, programa começado nessa primeira mesa.

Depois, contei-o já, fomos vizinhos no mesmo prédio. Saímos umas poucas vezes para almoçar numa cervejaria na Avenida de Roma, sentávamo-nos sempre ao balcão. Ali soube, na Alga, do estado a que chegara quando, durante uns largos meses, os médicos o obrigaram a parar de beber; ali soube de algumas desilusões e da sua paixão ao cinema ou, se preferirem, à vida. O nosso amigo comum, João Lopes, que lhe escreveu o argumento de dois filmes, garantiu-me num qualquer dia que só existia uma forma de perceber se gostava ou não de cinema – só o saberia quando não me conseguisse lembrar do fim dos filmes. Tinha razão o João, o cinema é mesmo uma espécie de fluído da vida, uma correnteza que não sabemos onde desagua. E o Fernando, o meu Fernando Lopes, era o cinema em mim, uma corrente que ainda não sei onde desaguará… passei a nunca mais me lembrar do final dos filmes. É verdade, João.

Sabem como era o Fernando a falar de cinema? Eram palavras ditas por grandes e medíocres personagens, planos que dispensavam mais explicações, equívocos e interrogações. Pegava no copo, (mesmo quando ficou condenado a beber Coca-Cola) como um actor prisioneiro dos clássicos e fumava como apenas Bogart e mais um ou outro conseguiram. No Gambrinus sentava-se no balcão, gostava de ficar sozinho dentro dos filmes que apenas viviam na sua cabeça. Chorava muitas vezes dos olhos – estavam permanentemente cansados – porque em si existiam sempre imagens a correr, projecções, planos perfeitos, respostas que guardava para si.

Quando me contaram da sua morte, parei num jardim onde crianças brincavam. Acredito na eternidade, apesar de não saber onde fica o céu… eis o mistério dos mistérios, temo-lo na ponta da língua sempre pronto a saltar à primeira interrogação, ao primeiro medo. Deus e os seus segredos; que nos estão vedados até ao dia em que já não formos estes aqui – creio nisso apesar de evidências em sinal contrário. Por isso, sentei-me ali. Para naquele momento não me esquecer de acreditar. Porque as crianças que brincam continuam a ser o que fui no lugar delas: passageiros de um mundo onde não existe agenda, onde os minutos fluem e nunca se esgotam, onde tudo parece fazer sentido agora e não num qualquer tempo longínquo. É o que conheço do céu.

E o que conheci do Fernando Lopes está também nos seus filmes. No Belarmino, no Fio do Horizonte, no Nós por Cá Todos Bem, no Delfim. Engraçado paradoxo. Ele era um homem de rotinas, de movimentos sempre iguais, dos mesmos restaurantes, da mesma marca de whisky, do tabaco fumado assim e não de outra maneira. Mas um homem que no seu pensamento desafiava, desarmava, inquietava, colocava em causa, surpreendia. Não era como os outros, como a maioria. As suas rotinas eram da superfície, uma espécie de garantia para não correr o risco de se perder para sempre numa bobina, numa ideia, num livro. Sacrificou a superfície para melhor caminhar na sua essência. Uma vez falei-lhe disso, das rotinas e dos seus paradoxos. Queremos a ela sobreviver por sabermos que se não o fizermos estamos condenados à solidão de nós próprios. E queremos ferozmente mantê-la porque só em nós sentimos conforto. Em cada momento, desejamos uma coisa e a outra. Destruir o sofá e sentarmo-nos nele. A rotina protege-nos. E mata-nos. Exclamei-lhe este lugar-comum e o Fernando respondeu que o essencial é utilizar as rotinas para nos proteger de nós próprios.

Fiquei pouco no velório. Fico sempre pouco. No abraço a Maria João Seixas, o amor da sua vida, despedi-me sem acrescentar palavras de circunstância. E tive a estranha sensação de que ali, no meio de tanta gente, estava sozinho. Caminhei longos minutos à procura de imagens e de respostas. O sentimento de que estamos acompanhados, por vezes na absoluta distância, faz-nos correr para os dias sem precisar de grandes artifícios. Muitas vezes nem precisamos que nos achem, muitas vezes apenas desejamos que nos procurem, que não se esqueçam, que de nós não desistam. Um jogo de cabra-cega… Há dias em que precisamos de uma presença ausente, apenas isso.

Presenças na ausência também com os que vão partindo. Com o Fernando, esse cineasta maior que aos dez anos veio para Lisboa e serviu de paquete – enganou o destino e fez-se cinema, fundou e dirigiu a RTP 2, deixou a sua marca no mundo e nos que com ele se cruzaram. Deixou a sua marca em mim.

Talvez um dia consiga subverter as rotinas e colocá-las como criadas de servir, mas infelizmente o sofá ainda é para mim apenas um sofá. E essa é uma diferença substancial. Um abismo. l




2 Comentários
MPortugal
17.05.2012 - 23:11
Também gosto sempre de ler Luís Osório, não só por escrever bem, mas por escrever com os olhos generosos do afecto, com a sensibilidade de um homem bom.
MOVC
16.05.2012 - 21:04
Luis Osório, obrigada por esta bela visão de Fernando Lopes e, permita-me, de si próprio. Gosto sempre de ler o que escreve, e ouvir o que raramente diz. Porque não aparece v. mais nestes media tão pobres, de ideia e de emoção,onde a banalidade e o boçal precisam urgentemente de resgate?


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