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Como se faz

21 de Maio, 2012por Carla Hilário Quevedo
Não gostei de ouvir o primeiro-ministro a usar as palavras ‘desemprego’ e ‘oportunidade’ na mesma declaração. A oportunidade de mudar de vida não é bem a mesma para todos.

Os que a têm não precisam de ouvir do Governo como devem agir. Ainda menos gostei que no dia seguinte tivesse insistido no mesmo tema. A explicação não atenuou o erro; pelo contrário, só o sublinhou. A única atitude a ter face à calamidade do desemprego no país, que é má para todos, também porque tem efeitos irrecuperáveis – esteve muito bem Vítor Gaspar sobre o mesmo assunto – na vida de cada indivíduo na comunidade, é de compreensão e solidariedade. É como alguém dizer que está triste e ter outra a dizer que deve estar alegre, em vez de lhe mostrar que percebe a sua tristeza. Entender não é chorar em conjunto: é demonstrar a quem sofre que não está desamparado. Acima de tudo não é dizer que estar triste é uma oportunidade de estar alegre. Os governantes não são eleitos para dar sugestões e conselhos. Para isso há padres e pais.

Mais freaks

Numa das suas últimas edições, a revista Time exibiu na capa uma rapariga de 26 anos a amamentar um filho de quatro. Estão ambos de pé e o rapaz está pendurado na mama da mãe. As críticas não se fizeram esperar. No meu entender, estamos perante uma capa pornográfica. Não se trata de uma imagem de uma mãe carinhosa, a amamentar um bebé de meses. É uma fotografia vulgar e exibicionista. Se é certo que os laços entre as mães e os filhos (sobretudo os rapazes) são muito importantes no desenvolvimento saudável da criança, é sabido que a quebra dos laços físicos iniciais são essenciais no crescimento. É uma questão a discutir com terapeutas velhos e sérios. Amamentar uma criança de quatro anos, possivelmente dormir com ela, tudo isso pode parecer protector e amoroso, mas traz outro tipo de problemas. O amor materno tem destas coisas. Se é de menos, pode originar problemas de auto-estima e timidez social; se é de mais, moleza e dependência. Philip Larkin tinha a sua razão: «They fuck you up, your mum and dad...».

Nunca se sabe

Na excelente publicação online The European, Uffe Schjødt, da Universidade de Arhus na Dinamarca, assina um curto artigo sobre a reacção do nosso cérebro à actividade de rezar. Através de ressonâncias magnéticas realizadas em crentes, foi possível observar que as áreas do cérebro activas durante a oração são as mesmas que aparecem estimuladas numa conversa normal com amigos. A informação é curiosa porque nos permite pensar em implicações concretas da oração. Quer seja um meio de comunicar em voz baixa, quer seja a expressão de desejos em forma de pedidos de ajuda, para perceber melhor qual o caminho a tomar, rezar não é realmente muito diferente de uma conversa. A extravagância está na ausência física do interlocutor. O que os resultados destas investigações revelam é a irrelevância da questão da presença daquele a quem a prece é dirigida. É tratado pelo nosso cérebro como alguém que está à nossa frente. Não é preciso imaginar uma entidade abstracta. Existe como um amigo. E pode estar a ouvir.

O passo seguinte

Como sabemos que chegou o Verão? Quando vemos o pálido suíço Alain de Botton a twittar sobre sexo e erotismo. Após ter investigado sobre todos os temas, da filosofia à arquitectura, passando por Proust e mais recentemente pela espiritualidade dos ateus, o escritor lança um livrinho breve sobre sexo. Segundo anunciou o Guardian no mês passado, How to Think More About Sex é o primeiro de uma série de livros de auto-ajuda escritos por autores que pensaram sobres temas filosóficos em The School of Life, uma escola fundada pelo próprio Alain de Botton em Londres. Segundo afirmou, a colecção não pretende ser didáctica. Este é um bom princípio para qualquer livro de auto-ajuda que se queira mais sério na medida em que não se leva tanto a sério. A base para estes livros não podia ser mais sólida e antiga, com Séneca e Epicuro como musas do consolo da aparente confusão da modernidade. Alain de Botton assume deste modo a sua faceta de guru da auto-ajuda contemporânea. Há que traduzir e depressa.

Eliminar o negativo

Num zapping descontraído apanhei um Colbert Report na SIC Radical em que Stephen Colbert tentava convencer Julie Andrews a cantar com ele. Após muito insistir lá conseguiu e o dueto acabou por ser uma das melhores versões que já ouvi do delicioso ‘Accentuate the Positive’, de Johnny Mercer. Segundo indica a Wikipédia, Mercer terá contado num célebre programa de rádio que ouviu os primeiros versos – ‘you got to accentuate the positive, eliminate the negative’ – num sermão do Father Divine, um reverendo baptista e líder espiritual norte-americano que lutou em defesa dos direitos civis. Mercer ficou encantado com o optimismo manifestado no sermão e desenvolveu a boa ideia na letra de uma canção, que seria gravada pela primeira vez em 1944, por Bing Crosby e as Andrew Sisters. Há várias versões do tema no YouTube. Chamo a atenção para a mais enérgica de Aretha Franklin e a mais vagarosa de Paul McCartney. Infelizmente, não encontrei o vídeo do dueto Colbert-Andrews, que recuperou o tema na hora certa.




3 Comentários
52A49128Y
23.05.2012 - 07:15
Concordo, a capa do Times é simplesmente provocatória e não tem nada a ver com uma amamentação de uma mãe normal, que tem que fazer-se em quattro para conseguir conciliar, filhos, parentes, trabalho de casa, marido (quando o há), emprego...
Uma coisa é certa, tudo é hoje mercadoria para vender, e o Times provou-o mais uma vez. COMERCIALMENTE funciona, a capa fez falar da revista e vender mais cópias ou seja, tudo PUBLICIDADE grátis.
ccardozzo
23.05.2012 - 00:00
Ninguém questiona os benefícios da amamentação, agora 48 meses depois do nascimento já é demais o mais provável é o puto de 4 anos veja sites pornográficos e um dia tem uma erecção enquanto a mãe o está a amamentar, pelo amor de Deus há tempo para tudo ...
smarques05
22.05.2012 - 16:46
Cara Carla,
Sou leitora assídua dos seus artigos de opinião e confesso que fiquei estupefacta com o que escreveu sobre amamentação e a capa da Time...à partida, infiro logo que não tem filhos, o que por si só não tem nenhum significado mas justifica algum do desconhecimento que evidencia relativamente à questão. Apelidar esta imagem de pornográfica é no minímo bizarro, estamos a classificar dessa forma uma imagem que mais não revela do que uma ligação essencialmente emocional (e não física) adequada aquelas duas pessoas em particular, que não deve nem pode ser generalizada. Diz mais de quem julga do que de quem está retratado... Amamentar é uma decisão de mãe e filho, que não diz respeito a mais ninguém e que, ao invés do que a Carla diz, não só não faz mal como é recomemdada pela própria OMS (que recomenda a amamentação EXCLUSIVA até aos 6 meses e parcial pelo menos até aos 24 meses) e está bem documentada no que refere à construção de personalidades saudáveis. Como mãe, sei por experiência própria que a amamentação é algo individual e independente de fundamentalismos (se assim quisermos)na sua duração, e que não se é melhor ou pior mãe pelo tempo de amamentação que damos a cada filho. Dizer que dormir com os pais ou mamar até querermos vai fazer de nós adultos problemáticos é, no minímo, meter a foice em seara alheia...


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