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Já escapámos ao abismo?

11 de Junho, 2012por Vicente Jorge Silva
Aconteça o que acontecer – e apesar de tudo o que tem acontecido – «os portugueses já não estão perante o abismo».

Quem fala assim, quando a evidência do abismo é cada vez mais visível no horizonte português e europeu, já não é José Sócrates, com o optimismo à prova de bala que caracterizava o seu discurso de negação da realidade, mas o seu sucessor como primeiro-ministro: Passos Coelho.

A continuidade da retórica sobreviveu à diferença de estilos, um ano depois da tomada de posse do novo Governo que agora se vê confortado com a passagem em mais um exame da troika (embora ainda insatisfeita com a lei laboral e as rendas excessivas no sector da energia).

A marcha das falências e dos despedimentos, o aumento galopante do desemprego, a recessão em crescendo, o empobrecimento brutal do país parecem resumir-se a dificuldades dolorosas mas previsíveis e necessárias, que não deveriam impedir-nos de olhar para além do abismo. É pelo menos nisso que aparentam confiar Passos Coelho, Vítor Gaspar e o trio de examinadores estrangeiros das nossas contas.

O défice do primeiro trimestre deste ano foi, afinal, mais do dobro do que o previsto, reflectindo o impacto da retracção económica? É um mero acidente de percurso que não afectará o ajustamento final, assegura Passos. A explosão da bomba-relógio das PPP, revelada no último relatório do Tribunal de Contas, onerando o Estado e os contribuintes durante gerações e beneficiando bancos e concessionários privados? Resposta ‘politicamente correcta’: é outra herança funesta da era socrática, que irá – tal como as restantes – criar problemas tremendos mas não insuperáveis se formos ainda mais longe na aplicação do programa de austeridade.

A conjuntura internacional, as ameaças grega, italiana e espanhola – à qual estamos intimamente expostos –, o risco iminente de colapso da zona euro e a desagregação da própria União Europeia são ‘variáveis’ que Portugal obviamente não controla, mas das quais o nosso Governo parece não querer ouvir falar de todo. Como se pudesse escapar delas limitando-se a cumprir o papel de ‘bom aluno’ e a prosseguir um ajustamento caseiro que lhe evitará a queda nesse abismo invisível para os cegos que nos dirigem.

São cegos mas alguns deles também irreprimivelmente desbocados, como o ministro Relvas ou o ministro-fantasma das privatizações, António Borges. Exilado da Goldman Sachs e do FMI – que continua a pagar-lhe um salário de 225 mil euros isentos de impostos –, Borges acumula agora o trono de privatizador-mor com o de administrador não executivo da Jerónimo Martins. Privilégios e incompatibilidades escandalosas? Nem por sombras. Para Borges, segundo uma entrevista recente, o escândalo está nos salários excessivos (não o dele, claro) que se pagam em Portugal e prejudicam a nossa competitividade…

Relvas e Borges falam demais? Pois falam. Mas antes isso do que o contrário. O desbocamento tem a virtude de revelar – a quem ainda tivesse dúvidas – a duplicidade ética e política que podemos encontrar num Governo de ‘bons alunos’. Se Passos imagina Portugal livre do abismo, talvez devesse esforçar-se, pelo menos, em prevenir o abismo da falta de credibilidade que espreita o seu Governo.




4 Comentários
JoaquimVaz1234
27.06.2012 - 23:12
Vicente Jorge Silva, e os Deuses que a Mitologia grega não conseguiu criar

O horizonte é a linha aparente ao longo da qual, em lugares abertos e planos, parece que “vemos” o céu tocar a terra ou mar. O horizonte é uma ilusão que só à distância parece existir.

O abismo, pelo contrário, é uma depressão natural, no relevo de uma paisagem: pode ser um despenhadeiro, um precipício, um poço ou uma caverna com onde o chão nos falta de repentinamente debaixo dos pés.

Ao contrário do horizonte, o abismo é uma realidade iminente.

Sísifo é citado na Ilíada de Homero como filho de Éolo, gerador da estirpe dos eólios, e de Enarete, com muitos irmãos e fundador do reino de Éfira, depois denominado Corinto.

Como castigo por tentar dado conhecimento divino aos humanos, Sísifo foi mandado para o Tártaro e condenado por Zeus a realizar eternamente trabalhos tão pesados como infrutíferos.

Na punição mais conhecida aplicada a Sísifo, narrada na Odisseia, Sísifo foi forçado a rolar eternamente, ladeira acima, um enorme pedregulho até o topo de uma montanha.

Assim que a pedra chegava ao cume, rolava novamente pela encosta até a base da montanha. O ciclo repetia-se indefinidamente.

Sísifo, rei da Tessália e de Enarete, era o filho de Éolo. Fundador da cidade de Éfira,
Já foi cantado aqui várias vezes por VJS.

“Aconteça o que acontecer – e apesar de tudo o que tem acontecido – «os portugueses já não estão perante o abismo»”.

José Sócrates fez rolar o pedregulho encosta abaixo, “fugiu” para Paris e deixou Passos Coelho a fazer de Sísifo...

Agora, vem VJS exigir que Passos Coelho coloque a pedra rápida e definitivamente no sítio. Em vez de analisar as causas porque caiu a pedra, revela a impotência de sairmos do abismo.

Neste insaciável afã, parece-lhe importante esconder as trafulhices de Sócrates e revelar o “bom aluno”, os “ministros-fantasma”, como se a “conjuntura internacional, as ameaças grega, italiana e espanhola – à qual estamos intimamente expostos –, o risco iminente de colapso da zona euro e a desagregação da própria União Europeia fossem da responsabilidade do PM...




“A explosão da bomba-relógio das PPP, revelada no último relatório do Tribunal de Contas, onerando o Estado e os contribuintes durante gerações e beneficiando bancos e concessionários privados? Resposta ‘politicamente correcta’: é outra herança funesta da era socrática, que irá – tal como as restantes – criar problemas tremendos mas não insuperáveis se formos ainda mais longe na aplicação do programa de austeridade.”

E eu a pensar que os beneficiários dos deploráveis contratos das PPP ( perpetrados pelo Governo de Sócrates, onde as empresas saíam sempre a ganhar e os contribuintes a pagar) iam beneficiar em vez dos bancos, as “empresas “amigas do PS”, nomeadamente a de Jorge Coelho...

“Sou da geração sem remuneração
E não me incomoda esta condição
Que parva que eu sou
Porque isto está mal e vai continuar
Já é uma sorte eu poder estagiar
Que parva que eu sou
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar

Sou da geração "casinha dos pais"
Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
E ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar

Sou da geração "vou queixar-me pra quê?"
Há alguém bem pior do que eu na TV
Que parva que eu sou
Sou da geração "eu já não posso mais!"
Que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou
E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar.”

Senhor VJS, Sou da “Geração Rasca”! Mas com a sua conversa, sempre me hei-de desenrascar!

O principal objectivo do lero-lero de VJS é desgastar o Governo, fazer ataques pessoais, sejam contra Passos, Relvas ou Borges ou ao Presidente da República. Corroer, envenenar e não deixar governar...

JoaquimVaz1234
27.06.2012 - 16:10
MPortugal
11.06.2012 - 22:00

Em todas as comunidades há um certo número de fanáticos por temperamento. Alguns desses fanáticos, como MPortugal, são estritamente inofensivos. Mas outros tornam-se perigosos quando fazem o assalto ao poder.

Para Portugal se livrar da gentalha como MPortugal era vital que todos nos sujeitássemos aos mais elementares princípios da democracia: respeitar o voto da maioria!

O governo de Sócrates durou seis anos (seis!), sem nunca ter caído na descredibilidade, apesar de ter colocado o País numa das maiores crises da sua História! O Sócrates tinha o nariz do Pinóquio, mas, afinal nunca mentiu: era o Gepeto!

O fanático revela falta de conhecimento, sabedoria e instrução sobre determinado tema.

O fanático acredita em elementos irracionais, emocionais e falsos, criados por espírito doente.

O fanático tenta descredibilizar os que têm mérito e endeusar as falsidades e mentiras dos medíocres em que acredita.

O fanático não enxerga as realidades que o cercam.

Ao fanático não interessa o conhecimento, mas apenas as vaidades do seu bastardo sentimento.

Ao fanático falta a visão do conhecimento lógico e científico.

Ao fanático falta o dom da visão e das ferramentas de expressão e, por isso, contenta-se em negar o mérito dos outros.

You understand me?





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12.06.2012 - 07:18
Portugal já não está perante o abismo porque terá dado o famoso passo em frente?
Além do abismo económico-financiário, há também um abismo socio-cultural que ameaça inexoravelmente toda a gente. Degradação de valores cívicos, falta de credibilidade da política, desrespeito pelo valor institucional da cultura e instrução, grande amor pelos próprios privilégios e falta de amor pelo próprio País.
Como pode a casta política “dos gatos” (sem ofensa para o animal nobre que é o gato) defender os interesses “dos ratos” ? Por mais que se lhe dê a volta, o problema é que os gatos são gatos e os ratos são ratos, ou seja, simplesmente não têm interesses comuns.
MPortugal
11.06.2012 - 22:00
Este governo já caiu no abismo da falta de credibilidade há muitos meses, pelas mentiras que disse para ganhar eleições e pela prática que tem tido depois de chegar ao "pote". Para Portugal é vital livrar-se desta gentalha que ocupa o poder, PR incluído.


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