É já amanhã e a nossa esperança está ao nível das restantes expectativas quanto a tudo o resto neste país. Taxa de desemprego, sacrifícios perante o memorando da troika, encargos fiscais, virtude da classe política, em tudo isto e agora também na nossa selecção de futebol confiamos tanto quanto um desesperado no seu agiota.
O desempenho de Portugal no Euro-2012 não mudará rigorosamente nada de substancial na vida dos seus cidadãos mas tem o potencial de alterar o estado anímico de muitos. E esse pormenor não é despiciendo nas contas que se fazem ao futuro. O sorriso, a alegria, a confiança não pagam dívidas mas, pelo menos, dão algumas garantias ao credor. Mais depressa resolve os seus problemas alguém animado do que um indivíduo cabisbaixo. Chama-se ‘poder da vontade’, podia intitular-se ‘fé’, e é um efeito placebo de qualidade poderosa.
Por tudo isto, talvez tenha sido óptimo baixar todas as expectativas em jogos de preparação roçando o patético, programação televisiva inane, imprensa que sobrevaloriza ditos e feitos. Talvez tenha sido excelente vermos os visuais berrantes, as tatuagens obtusas, os carros insultuosos e a generalizada falta de gosto dos jogadores. Sim, os nossos embaixadores sobre o relvado estão carregadinhos de defeitos, mas nós também (com as nossas pontes e baixas e abstenções galopantes e falcatruazinhas). Agora, a poucas horas desse encontro tão ironicamente simbólico com a Alemanha, sabemos que podemos esperar tanto deles perante os teutónicos como de Passos e Cia. defronte de Merkl e etc.
Abre-se espaço para as saudáveis piadas nas quais os portugueses são tão pródigos e eficazes. Como a preocupação que escutei um senhor revelar, recordando Saltillo e os problemas de jogadores com mulheres: então agora mandam-nos para a Polónia e Ucrânia? É como ir directo ao fornecedor!
Há todavia um último lado positivo nos três desafios que temos garantidos neste certame. Durante 270 minutos, e mercê das regras do jogo e das dimensões do tapete onde este se desenrola, seremos do mesmo tamanho que os outros. 11 contra 11, um esférico sobre o mesmo relvado. Ninguém espera nada de nós, tal qual como na economia ou política. Mas ao menos aqui vislumbra-se a hipótese de luz no fim do tortuoso caminho e, apesar de tudo, bem mais chances de êxito.
II – Um novo projecto pode
fazer-nos crianças de novo
Vamos atrasar-nos mais de duas horas devido à chuva, tão inclemente como inesperada. O aparato técnico é de monta e impressiona. Há duas páginas inteiras para deixar feitas no fim da aventura sob risco de pôr o calendário em causa, atrasar o plano de gravações e perder dinheiro.
Quando chega finalmente a hora, o cenário é o seguinte: estou ao volante de um carro novinho em folha e que não me pertence, com duas câmaras no valor conjunto de 100 mil euros montadas sobre o capot, um actor ao meu lado tão inexperiente quanto o escriba, o realizador agachado em postura de contorcionista no banco de trás, pronto a circular numa estrada cujo trânsito não está controlado, e eis as últimas indicações – ‘não olhes para as câmaras’, ‘não passes de 40kms/hora’, ‘cuidado com os buracos’. Não é dito, pois o óbvio torna a referência desnecessária, mas antes de escutar ‘Acção!’, ocorre-me que além de tudo isto é evidentemente necessário dizer o texto correcto e no timing adequado. Coisinha pouca. Sem stress. Ok. Pressão, qual pressão?
E penso no fascínio oriundo da infância e nunca esbatido pelas cenas dos filmes a bordo de automóveis. Como me encantava a segurança dos protagonistas donos do seu destino, seguros das suas palavras, a caminho dalgum lugar entre o bizarro e o fantástico. Hoje, bem adulto, penso que a admiração teria a ver com a inexistência de um guião para me orientar no quotidiano e o poder de uma máquina que ainda não tinha idade para dominar.
É um projecto novo, toda uma equipa diferente, desafios excitantes que instintivamente nos despertam, deixando-nos humildes e alerta. É, durante uma rodagem de seis semanas, ser criança outra vez.l
lfborgez@gmail.com