Contra a carneirada,marchar, marchar
2 de Julho, 2012por Vítor Rainho

Muito se aplaudiu e escreveu sobre a queda de Hosni Mubarak. O mundo ia ficar melhor e os egípcios teriam uma vida mais democrática, onde os direitos seriam respeitados.
Houve quem tivesse apelado à calma da euforia ‘comentarista’, mas os que levantavam dúvidas eram praticamente achincalhados na praça pública. Nem a violação sistemática de uma repórter da CNN que cobria as manifestações da Praça Tahrir no Cairo arrefeceu os ânimos daquelas que rejubilavam com o fim de uma era.
Menos de um ano e meio depois, os adeptos da revolução em curso começaram a falar baixinho e a assobiar para o ar. Afinal, os democratas que ganharam as eleições são fundamentalistas e prometem um Estado religioso. Onde as mulheres perderão, naturalmente, alguns dos poucos direitos que haviam conquistado. Onde as burcas poderão aparecer a tapar cabelos e liberdades ganhas com um regime autoritário, mas que funcionava como um equilíbrio da zona. É certo que foram os egípcios a decidir o seu futuro. E só a eles compete designar quem os governará. Mas não há dúvidas que países que nunca tiveram uma cultura democrática são terreno fértil para lavrar por fundamentalistas. O Ocidente poderá culpar-se por, aparentemente, nunca se ter preocupado em pressionar Mubarak a garantir uma vida melhor para os seus cidadãos. As desigualdades eram tantas que milhões viviam em cemitérios, quando o chefe de Estado recebia milhões para impedir a chegada ao poder dos fundamentalistas e, dessa forma, tranquilizar os israelitas.
Da mesma forma que na política económica europeia é praticamente impossível fazer futurologia, o mesmo se passa naquela zona do globo. Se os homens da Irmandade Muçulmana fizerem um pacto com os iranianos o caldo pode estar entornado. Mas isso são outras contas do rosário.
O que acho estranho é a carneirada em que vão tantas pessoas sempre que se discute algum tema. Quem não estiver de acordo com aqueles que gritam mais alto, é porque ou são burros ou quase fascistas.Mas isto em tudo. Alguns leram, certamente, que a Torre Eiffel, por exemplo, esteve para ser deitada abaixo porque os intelectuais de então, final do século XIX, achavam que estragava a vista aos parisienses. Numa época de globalização, é bom não cair no primeiro post do Twitter ou do Facebook, essas novas bíblias dos tempos modernos...
vitor.rainho@sol.pt