As medidas de emergência tomadas na última cimeira do euro não entram já em vigor. E quando entrarem, se o Parlamento de Berlim ou o Tribunal Constitucional alemão não as chumbarem, têm dois problemas pela frente.
O primeiro é a escassez de dinheiro disponível nos fundos europeus de resgate para fazer face, em escala significativa, a novas tarefas, como comprar dívida soberana da Espanha e de Itália e apoiar bancos. O segundo é não ser certo que essas intervenções não precisem do apoio unânime dos 17 países do euro, arriscando-se a vetos alemães, finlandeses ou holandeses.
O braço de ferro com Angela Merkel na cimeira foi travado sobretudo por Mário Monti, primeiro-ministro italiano. É também dele que se espera um impulso importante para que as medidas se concretizem.
O novo presidente francês, François Hollande, está na origem da possível viragem, ao acabar com a sistemática subordinação de Sarkozy a Merkel, mantendo a aparência de que o eixo franco-alemão continuava a ser o motor da UE. E Hollande obteve agora um ‘pacto para o crescimento’, embora de limitado alcance.
Hollande não inspira grande confiança pelo facilitismo da sua política económica interna, que agrada no imediato, mas a prazo pode sair caro. Por exemplo, na baixa da idade da reforma de novo para os 60 anos, ainda que para um número restrito de trabalhadores, transmitiu um sinal errado quanto à sustentabilidade financeira da segurança social francesa.
O primeiro-ministro de Espanha, Rajoy, conseguiu que o empréstimo para recapitalizar bancos espanhóis não seja acrescentado à dívida do Estado. Pode ser um primeiro passo para cortar o fatal contágio recíproco entre dívidas soberanas e dívidas bancárias. Mas Rajoy mostrou-se algo errático. Apresentou como grande vitória o compromisso do eurogrupo de disponibilizar até 100 mil milhões de euros para recapitalizar parte da banca espanhola. Mas teve de ser empurrado pelos seus parceiros europeus para pedir esta ajuda, a que Rajoy não chama resgate.
Sabia-se existir muito crédito malparado em bancos espanhóis – sobretudo nas Cajas de Ahorro, entidades públicas ligadas aos governos autonómicos. O intervencionado Bankia resultou da fusão de sete cajas descapitalizadas. Rajoy encomendou a consultoras estrangeiras um diagnóstico da situação financeira dos bancos e cajas em risco – algo que há muito já deveria estar feito. A 21 de Junho, quando inicialmente se previa conhecer a conclusão dessa análise, as consultoras limitaram-se a indicar uma estimativa daquilo que os bancos precisam: cerca de 62 mil milhões de euros. Mas só em Setembro se saberá se este é o número certo. A maior parte das cajas em dificuldade é governada por gente ligada ao PP, partido que Rajoy terá tentado proteger. A confiança dos mercados na dívida espanhola ficou naturalmente mais abalada.
Maior credibilidade tem o primeiro-ministro italiano Mário Monti, que não é um político. Este professor de economia e antigo comissário europeu governa desde Novembro, apoiado em alguns partidos, como o de Berlusconi. Ora, por cálculos eleitorais, estes partidos começam a torcer o nariz à austeridade e às reformas. Berlusconi, que nenhuma reforma fez durante a sua longa passagem pelo poder (preocupou-se sobretudo em livrar-se dos seus processos nos tribunais), já fala na eventual vantagem de a Itália sair do euro.
Ainda assim, Monti avançou com reformas sérias. Mas se não saíssem da última cimeira decisões relevantes, Monti teria dificuldade em prosseguir o seu caminho. Claro que não ficou resolvido o problema do euro – mas permitiu-se que a moeda única não acabe nas próximas semanas. Ou não se limite à Alemanha e a alguns países ‘bem comportados’, pondo fora os outros.