quinta-feira, 23 de Maio de 2013, 11:59
Pesquisa
pesquisar
Emprego Imobiliário Motores
iPad
Barbas infames

18 de Setembro, 2012por José Cabrita Saraiva
Há dias, remexendo num caderno de apontamentos antigo, encontrei o excerto de um livro de crítica de arte que me chamou a atenção.

Dizia o seguinte: «Wilgefortis (do latim, virgem forte) queria devotar a sua vida a Cristo, mas foi prometida ao Rei da Sicília. Rezou para que se tornasse feia, e Deus correspondeu fazendo com que uma barba crescesse na sua face. O Rei da Sicília, repugnado, rejeitou o casamento» (Arthur C. Danto, Unnatural Wonders).

Este apontamento destinava-se a um trabalho a que dei o título provisório de Barbas infames. Nesse trabalho, pretendia fazer uma panorâmica de como as barbas foram representadas e do que simbolizaram, desde os patriarcas e profetas do Antigo Testamento até Schopenhauer ou Bin Laden. O filósofo, por exemplo, escreveu esta invectiva: «A barba, por ser uma máscara, devia ser proibida [de facto, na Veneza do século XII os assassinos usavam barbas postiças como disfarces]. O comprimento da barba sempre acompanhou a barbárie, assemelhando-se a esta até no nome».

Pelo meio, queria incluir nesse texto Fidel Castro, o aiatola Khomeini ou o imperador Adriano – cuja barba era um atributo de virilidade guerreira, mas também uma homenagem à Grécia Clássica. Adriano considerava-se um filo-helenista e como tal gostava de se parecer com os filósofos que tanto admirava.

Falei de Khomeini e de Bin Laden. Os talibãs e os muçulmanos da linha dura não admitem o uso de lâminas para cortar, rapar ou aparar a barba. Consideram que esta é um elemento de distinção entre o homem e a mulher, e que atenuar essa diferença é uma afronta à Lei Divina.

Gostaria de citar mais dois casos de barbas célebres: Tolstoi e Rasputine. O primeiro exultou no dia em que, graças à sua longa barba, foi confundido com um mendigo. O segundo cultivava uma imagem de desleixo e de sujidade que contrastava com a sofisticação da corte de São Petersburgo.

Ao longo da minha pesquisa, descobri tambem que José Leite de Vasconcelos dedicou um livro ao assunto, chamado A Barba em Portugal. Para o completar, perseguiu uma mulher barbuda para obter uma fotografia dela, o que levou o respeitável doutor à esquadra da Polícia.

Essa mulher não foi caso único. Uma das minhas avós contava-me que, no tempo da sua avó, havia em Lisboa uma senhora da alta sociedade que exibia a sua barba como sinal de distinção, enquanto descia a Avenida da Liberdade numa carruagem aberta. Nenhum destes casos, porém, consegue rivalizar com o da recordista do Guinness, Vivian Wheeler. Uma pesquisa na internet revela o seguinte: «Com o pêlo mais longo da sua barba a medir 27,9 cm, Vivian Wheeler, do Illinois (EUA), foi abençoada com a barba mais longa do mundo. Quando tinha sete anos, o seu pai insistiu para que se barbeasse, mas desde 1993 que Vivian Wheeler não o faz».

Se considera estranho o uso da palavra ‘abençoada’ é porque ainda não leu o seguinte: Vivian Wheeler foi casada nada menos do que quatro vezes! Como reagiriam a isso algumas das figuras de que falámos? Só podemos fazer conjecturas. Leite de Vasconcelos ficaria decerto encantado; os talibãs, confusos; Schopenhauer, horrorizado. E, quanto ao Rei da Sicília, na melhor das hipóteses pensaria que tudo não passava de uma piada de mau gosto.

jose.c.saraiva@sol.pt




0 Comentários


PUB
PUB
Siga-nos
Marrocos Portugal
Passatempo SOL & ZOO: Ganhe bilhetes duplos para o Jardim Zoológico de Lisboa.
Siga o SOL no Facebook


© 2007 Sol. Todos os direitos reservados. Mantido por webmaster@sol.pt