O Congresso Democrático das Alternativas é o primeiro passo para mudar de governantes, com 'entendimentos alargados' à esquerda. Mas os tacticismos partidários seriam fatais, avisa Carvalho da Silva, co-organizador.
A convocatória do Congresso Democrático das Alternativas, que co-assina, diz ser «fundamental denunciar o memorando com a troika». Isso significa rasgá-lo?
Quem defendeu o termo ‘denunciar’ foram juristas... havia várias outras hipóteses e tivemos cuidado com a formulação.
Se o significado é jurídico então é mesmo não cumprir, ou seja, rasgar.
Não é bem assim. Não cumprir o memorando é a interpretação mais ‘dura’. E é preciso sublinhar que na mesma frase se acrescenta que é preciso «abrir uma negociação com todos os credores para a reestruturação da dívida pública». A parte da renegociação é fundamental.
O congresso é a repetição de outros ‘encontros das esquerdas’? Tem o apoio de Manuel Alegre, a participação em massa do BE...
É absurdo comparar o congresso com o que aconteceu na Aula Magna. Manuel Alegre, Mário Soares e os líderes partidários foram informados, mas há que lhes perguntar a eles se apoiam o congresso. Eu não posso falar por eles, aliás, nesta entrevista falo apenas por mim. Mas posso esclarecer que não há nesta iniciativa agendas escondidas ou tentativas de nos impormos aos partidos, ou de os federar.
O PCP pôs-se à margem e disse que vê com reservas este congresso. Não é um mau começo?
Não vou fazer qualquer apreciação individualizada dos partidos. Qualquer pronunciamento só pode gerar guerras. Seria uma tontaria – matávamos o nosso objectivo! Não quero dar lições aos partidos. Vai ser preciso encontrar novas dinâmicas, denominadores comuns à esquerda e reforçá-la. Mesmo que os entendimentos tenham de ultrapassar a esquerda e impliquem entendimentos alargados noutras áreas políticas – por interesse patriótico. Os tempos que vivemos são únicos e gravíssimos.
A esquerda nunca conseguiu governar junta. É suficiente resistir, protestar?
Portugal só sai do buraco em que está com outros mandantes políticos. E o reforço da esquerda é fundamental, imprescindível, para isso acontecer.
Isso passa por alianças nas autárquicas? Por encontrar já um candidato presidencial?
As respostas eleitorais competem aos partidos. Neste momento não é isso que está em causa. O tempo é de construção de alternativas que minorem o sofrimento dos portugueses. Quanto aos objectivos do congresso, é natural que haja vários entendimentos e interesses sectoriais, contudo tem de haver uma linha de demarcação: Ai de nós se há agendas escondidas! Não pode haver tacticismos.
O Congresso é a 5 de Outubro. Até lá a esquerda faz o quê, quando se põe a hipótese de mais austeridade e há quem fale de novo pacote de resgate?
Seria preciso um Estado autoritário, um regime com componentes de autoritarismo, para impor um segundo memorando em Portugal. Espero que haja uma tomada de consciência crescente de que mais austeridade é inadmissível e que é uma mentira que os nossos credores tenham todos e mais alguns direitos. Devemos libertar-nos da ideia de que vivemos todos acima das nossas possibilidades. A esquerda deve ir formulando propostas que dêem esperança às pessoas.
O que espera do PS? Os socialistas assinaram o acordo com a troika e têm-se comprometido com o seu cumprimento.
O apoio a um novo memorando com agravamento das condições de vida dos portugueses seria desastroso. Até agora, o PS e a social-democracia europeia não têm feito o suficiente para sacudir esta pressão neo-liberal que diz que vivemos acima das nossas possibilidades e que o empobrecimento é o caminho necessário. Do PS prefiro pensar positivo, ou seja, que fará melhor do que até aqui.
Como vê o papel do Presidente da República?
O Presidente da República faz uns discursos piedosos, mas não age quando é preciso. A Constituição é sistematicamente posta em causa e está em curso uma revisão do regime.
O facto de haver ‘um governo, uma maioria e um Presidente’ faz a diferença?
Temos um Presidente que converge com o Governo, mas infelizmente também há que registar a complacência e a cumplicidade do PS e o facto de termos um governo externo – a troika.
Se houver mais mudanças nas leis do trabalho, a UGT terá condições para aceitar a concertação social?
A UGT responderá. Mas não há um mínimo de diálogo social. Para Passos Coelho (disse-o na Festa do Pontal), o papel dos parceiros é o de ‘credibilizar a política das inevitabilidades’. Em 2008 fui a primeira pessoa em Portugal a usar a expressão ‘retrocesso civilizacional’. Está a acontecer.
Os sindicatos têm capacidade de resistir?
Os sindicatos são as estruturas sociais mais perenes da sociedade moderna. Levaram ‘porrada de criar bicho’, mas resistiram a tudo desde o século XIX. Já foram testados pelo liberalismo e não desapareceram. Se os sindicatos forem encostados à parede – nomeadamente pondo em causa o direito à contratação colectiva – teremos um descalabro na sociedade.
Concorda com a intensificação da luta da CGTP? É esse o caminho?
Não queiramos que os sindicatos tenham resultados imediatos. As pessoas começam a perceber que não se está numa ‘curva do caminho’ e que as coisas não voltarão a ser como antes. E a mudança de política, a luta contra a ameaça liberal, tem de ser europeia.
manuel.a.magalhaes@sol.pt