O presidente da Câmara de Lisboa não hesita ao escolher a requalificação da Mouraria como a grande medida dos seus cinco anos de gestão da capital. Do seu gabinete, no Intendente, tem acompanhado o ‘levantar’ do bairro.
Em entrevista à agência Lusa para um balanço dos cinco anos de liderança, que se assinalam na quarta-feira, António Costa admite que tomar uma medida personalizada como transferir o seu gabinete para o então degradado Largo do Intendente, conhecido pela prostituição e pela toxicodependência, ajudou a demonstrar o empenho na requalificação: «Foi decisivo para que as pessoas acreditassem que algo de novo ia acontecer na Mouraria».
Sempre que falava da recuperação do bairro como uma prioridade, «sentia na cara das pessoas que elas não acreditavam», recorda. Lá diziam que sim, conta, que «esperavam que fosse desta», mas não estavam convencidas.
A instalação do gabinete no Intendente tem pouco mais de um ano, mas o largo está requalificado, tem novos comerciantes (uma esplanada) e espectáculos. «A minha chegada deu confiança às pessoas. Acho que isso inverteu a relação de forças por aqui», considera.
Ainda assim, admite que possa continuar a haver consumo de drogas e prostituição no bairro, mas salienta que antes os moradores «tinham vergonha de viver nele, acabando por andar de cabeça baixa na rua. Hoje andam de cabeça levantada».
O socialista reconhece que a medida foi arriscada, mas que «valeu tudo a pena». Além da reabilitação urbana, destaca a «oportunidade de as pessoas mudarem de vida e de conquistarem a liberdade de circularem, viverem, que não tinham» na zona.
Quanto ao que ainda não conseguiu concretizar, lamenta, por exemplo, ter desistido do projeto Africa.Cont (centro de arte africana contemporânea) e ter de atrasar obras de escolas e creches devido à crise. «Não pergunte a um autarca o que é que gostaria de fazer e não fez, porque os sonhos de um autarca são quase ilimitados», graceja.
Comparando a situação da câmara em 2007, quando tomou posse, António Costa aponta que «as obras estavam paradas, os atrasos nos pagamentos eram brutais, o endividamento era terrível, estava tudo asfixiado».
Cinco anos depois, conseguiu abater 43% da dívida com o recente acordo com o Estado para a venda dos terrenos do aeroporto da Portela, aprovar um novo Plano Director Municipal (PDM) que já deveria ter sido revisto em 2004 e quase concluir o processo de reforma administrativa da cidade (que aguarda agora clarificação do Parlamento depois de não ter sido promulgada pelo Presidente da República).
Grande parte do seu tempo tem sido dedicada a «resolver problemas deixados por gestões anteriores» e outra parte «a evitar que as próximas gestões herdem problemas que deixe».
Além dos terrenos do aeroporto (alvo de contencioso há décadas), da conclusão do túnel do Marquês, do combate à corrupção ou dos miradouros, nomeadamente o de São Pedro de Alcântara, o autarca aponta projectos já concretizados como a transferência da gestão dos terrenos da frente ribeirinha para o município, as esplanadas no Terreiro do Paço, as obras paradas da EPUL (Empresa Pública de Urbanização de Lisboa) que retomou na Avenida das Forças Armadas e no Martim Moniz ou a reorganização dos serviços da câmara.
A oposição considerou, porém, que em cinco anos António Costa «não conseguiu arrumar a casa», um dos seus ‘slogans’ de campanha. «A oposição tem de dizer mal, eu percebo. Mas temos conseguido fazer isto em contraciclo».
Apesar das críticas, recorda o «clima terrível» na câmara há cinco anos. Acabar com a «crispação» entre as diferentes forças políticas foi uma aposta, que considera ganha. E na verdade, em medidas com horizontes temporais superiores aos quatro anos de mandato, como é o PDM ou a reforma administrativa, o socialista contou com a viabilização das propostas pelo PSD.
A mobilidade – que gerou já um «ódio de estimação» por parte do Automóvel Clube de Portugal - continua a ser um dos temas quentes na capital, porque, considera, «implica uma mudança cultural grande». Ao nível dos transportes públicos, admite que até ao final do actual mandato do Governo de Pedro Passos Coelho, em 2015, seja a autarquia a gerir os serviços hoje a cargo da Carris e do Metropolitano de Lisboa.
António Costa venceu as intercalares de 2007 com 29,54% dos votos e cumpriu um mandato de dois anos, após o qual reconquistou a presidência da autarquia em 2009, em coligação com Helena Roseta e José Sá Fernandes, conseguindo assim uma maioria no executivo.
Lusa/SOL