Dois músicos portugueses, recentemente escolhidos para integrar a academia da orquestra filarmónica de Berlim, uma das melhores do mundo, afirmaram que gostariam de voltar um dia a Portugal para partilhar o que estão a aprender no estrangeiro.
Filipe Alves, de 21 anos, e Samuel Bastos, de 26, foram os dois portugueses escolhidos, em Janeiro e em Maio deste ano, respectivamente, para integrar a 'Herbert von Karajan Akademie der Berliner Philharmoniker', a academia da orquestra filarmónica de Berlim.
«Há uma coisa que gostava de fazer em Portugal, que era pertencer a uma escola de música. Gostava muito de partilhar tudo o que aprendi com outros estudantes», afirmou o oboísta Samuel Bastos à agência Lusa.
«Se não formos nós a fazermos alguma coisa pelo nosso país, quem irá fazer?», perguntou o trombonista Filipe Alves.
Os jovens sublinharam que o país teve sempre muitos talentos musicais, mas faltam oportunidades, infra-estruturas nas escolas e investimentos na educação musical.
«Tenho a certeza que se só estudasse oboé em Portugal seria muito difícil entrar na academia (de Berlim»do no país, mas ainda é preciso fazer mais.
«É necessário mudanças no ensino de música em Portugal, como ter maior abertura para receber alunos que venham do exterior, facilitar o intercâmbio», disse Filipe Alves.
Os dois músicos declararam que em Portugal não há uma tradição da música erudita, como em outros países europeus, que já a desenvolvem há séculos, sendo necessário trabalhar o gosto por este tipo de música.
A academia da orquestra filarmónica de Berlim foi fundada em 1972 pelo maestro Herbert Von Karajan, sendo uma das instituições de ensino mais respeitadas e disputadas pelos jovens músicos na Europa.
«O que vou fazer em Berlim, já faço em Zurique. Saio de uma academia e vou para outra. Vai ser uma experiência enriquecedora, pois tive a oportunidade de fazer dois anos de ópera e agora vou dar o salto para uma das orquestras mais aclamadas e vou fazer só sinfónica», indicou Samuel Bastos, natural de Oliveira, em Barcelos.
De acordo com o jovem - que vem de uma família de músicos e começou a tocar instrumentos aos sete anos com o pai e passou pela banda local -, agora, vai «ter a oportunidade de fazer quase todo o leque de música erudita».
O objectivo da academia, explicou o oboísta, é preparar jovens músicos com talento de acordo com as exigências da filarmónica de Berlim e das mais reputadas orquestras internacionais.
Samuel Bastos estudou no Conservatório da Fundação Calouste Gulbenkian em Braga e na Escola Superior de Música de Lisboa, antes de partir para a Suíça, onde obteve a licenciatura e o mestrado em oboé na Universidade de Artes de Zurique. Samuel vive há seis anos em Zurique e há dois anos integrou a academia da ópera da cidade.
O oboísta tem tocado em várias orquestras europeias, trabalhado com grande solistas e cantores de todo o mundo, tendo ainda recebido prémios nacionais e internacionais.
«Foi uma grande notícia, principalmente pelas oportunidades e pelas portas que se abrem a partir de agora. Além de ter a oportunidade de conviver com os melhores maestros, com os melhores músicos», disse o trombonista Filipe Alves, sobre a entrada na academia de Berlim.
O trombonista, de Tarouquela, no concelho de Cinfães, começou a tocar aos dez anos na banda da cidade, estudou na Academia de Castelo de Paiva, na Escola Profissional da Covilhã e na Academia Superior de Orquestra da Metropolitana de Lisboa, onde fez a licenciatura.
Filipe Alves disse que terá a oportunidade de «assistir a grandes concertos, grande maestros e solistas em Berlim», numa cidade muito voltada para a música e as artes.
Os dois jovens portugueses vão ter uma bolsa de dois anos em Berlim e a oportunidade de estudar com grandes músicos, além da oportunidade de tocar na orquestra da academia e também na orquestra principal.
Filipe Alves juntou-se aos colegas na academia da orquestra filarmónica de Berlim há três semanas e Samuel Bastos irá entrar no grupo no final de Agosto.
Lusa/SOL