quinta-feira, 24 de Abril de 2014, 6:49
Pesquisa
pesquisar
Emprego Imobiliário Motores
iPad
Recorde a grande entrevista de José Hermano Saraiva ao SOL (2ª parte)

20 de Julho, 2012por José António Saraiva
A segunda parte da entrevista de vida concedida em 2009 por José Hermano Saraiva e conduzida pelo seu sobrinho e director do SOL José António Saraiva (leia aqui a primeira parte).

Voltemos ao tempo em que o tio é ministro. O meu pai é exilado político e apontado pela esquerda como um grande herói da oposição. Lembro-me que nessa época têm discussões bastante acaloradas. Sempre afectuosas, mas muito inflamadas…

Quando eu fui para o Governo pus uma condição, que era o teu pai voltar imediatamente [do exílio em Paris]. E voltou, esteve connosco nas férias [António José Saraiva veio a Portugal no Verão de 1969, quando Marcello Caetano já era chefe do Governo]. E ele já estava numa fase…

Sim, já estava numa fase de afastamento do Partido Comunista.

Pois estava… Depois, quando quis sair do país, é que houve um problema: a PIDE disse que não o deixava sair. Ora, ele era professor no estrangeiro, tinha de ir ocupar funções, e eu falei ao ministro do Interior, que o deixou sair. Mas a PIDE ficou muito zangada por o ministro se sobrepor – e depois, quando foi a doença da nossa mãe, não o deixaram cá vir.

Mas voltando às discussões entre o tio e o meu pai nessa época, embora se percebesse que eram muito chegados…

Não discutíamos muito. Discussão, propriamente, houve uma única. Era noite de Natal, fomos a casa dos meus pais e depois, no regresso, eu levei o teu pai e a tua mãe, porque eu vivia no Restelo e eles em Belém. Começámos a discutir, e quando chegámos ali à FIL, o teu pai disse: ‘És um fanático. Eu recuso-me a andar num carro conduzido por ti.’. Saiu então do carro e ficou na estrada.

Eu ia lá dentro e também fui vítima desse episódio. Tivemos de ir a pé para casa... Mas, apesar desses sobressaltos, o tio disse em várias ocasiões que o meu pai era o Sol e o tio era a Lua. Não estava a ser falsamente modesto?

Não, não era falsa modéstia. Era mesmo assim. O teu pai tinha uma luz própria, intensa, que iluminava tudo. E eu limitava-me a reflectir a luz dele. Era assim que eu sentia...

Em 1969, em casa do seu irmão Fernando, numa festa de anos, quando o tio ainda era ministro, disse-me o seguinte: ‘Eu a partir daqui só posso descer. Cheguei a ministro, a primeiro-ministro já não chego, e portanto daqui para a frente a minha vida entrará em plano descendente’. O tio tinha então 50 anos – e já lá vão 40… Nessa altura, o que pensava fazer quando saísse da política?

Não tinha ideias claras. Mas os estudos históricos interessavam-me muito. Tinha imensas coisas escritas e por publicar, e pensava fazer uma História de Portugal (menos concisa do que aquela que depois escrevi e que foi feita em dois meses na Nazaré, depois do 25 de Abril, sem o apoio de nenhuma bibliografia. Daí não haver citações, não há rodapés. É uma visão unitária da História de Portugal, visão essa que agarrou as pessoas, o livro teve um êxito extraordinário, vai na trigésima edição).

Isso de o tio não ter documentação à mão também deu à História Concisa um traço mais vigoroso.

Pois deu. Hoje estou com um problema: não sei se a deixo reeditar porque, naquela altura, não me apercebi de que a História de Portugal, nos reinados até ao D. João I, até Aljubarrota, foi uma luta constante entre pequenos e grandes, uma luta de classes. O D. João I foi o campeão das forças populares que triunfam definitivamente em Aljubarrota. Segue-se o D. João II, que ainda diz: ‘O país é como o mar, tem muita espécie de peixe. Há a sardinha e o salmonete. A sardinha é muita, barata e generosa; o salmonete não: é caro, raro, não se deixa apanhar. Eu prefiro governar com as sardinhas do que com os salmonetes’. Foi um erro dele, porque os salmonetes comeram-no. Mas ainda foi um problema de classes. Depois é que, com o dinheiro dos Descobrimentos, isso desapareceu. Hoje, a luta de classes praticamente não existe.

Na década de 1970 a 1980 muda tudo na sua vida. É uma década vertiginosa. Sai do Governo, inicia a colaboração na RTP, Marcello Caetano manda-o depois para o Brasil, apaixona--se pelo Brasil, é doutorado honoris causa por várias universidades, dá-se o 25 de Abril e volta a Portugal, onde encontra um país que lhe é estranho: as pessoas recebem-no com receio, como se tivesse lepra. Volta ao liceu, como professor, mas é saneado… Só que, pouco depois, regressa à televisão com um êxito inesperado. Nesta década, acontece tudo na sua vida, é assim como um terramoto. Começando pelo princípio, como é que, em 1970, depois da saída de ministro da Educação, vai parar à RTP (fazendo O Tempo e a Alma)?

Encontrei-me num jantar, ali na Serra de Monsanto, numa base da Força Aérea, com o Moreira Baptista, que era o ministro responsável pela televisão. Na conversa eu disse mal dos programas, disse que não tinham nenhum conteúdo cultural, era o fado, era…. E ele disse-me: ‘Se a gente mete qualquer coisinha mais séria, as pessoas enfadam-se e desligam’. Então eu disse: ‘Não. É possível fazer um programa de História ou de Direito que empolgue o telespectador’. Então apostei com ele o seguinte: fazia uma série de seis programas. Se, ao fim dos seis, ainda tivesse espectadores, continuava. Se não… Foi assim que começou. O êxito foi realmente enorme. Nunca tinha havido índices de audiência tão grandes como aqueles.

Mas Marcello Caetano não gostou muito desse sucesso...

Não gostou. Achou que a apologia que eu fazia das forças do povo era subversiva e que eu estava a corroer o regime. E mandou-me para o Brasil.

Ele fez-lhe chegar algum testemunho desse desagrado, ou soube-o por interpostas pessoas?

Tenho um cartão em que, por causa de um programa sobre a crise de 1383-85, ele diz que eu faço a apologia da subversão e que ‘quando os nossos fazem isto, o que podemos esperar dos outros?’. Assim mesmo.

A sua nomeação para embaixador no Brasil é, portanto, uma espécie de condenação ao exílio. Mas depois os brasileiros surpreendem-se por verem chegar um embaixador português que fala tão bem como os grandes oradores brasileiros. Eles viam os portugueses como uns pacóvios que não sabiam dizer duas palavras…

E ganhava os concursos. Eles faziam concursos, como nas corridas de cavalos, e eu ganhava. Foi um êxito extraordinário e tenho pena que tenha sido interrompido. Conseguiu-se a unidade toda à volta da embaixada.

Gostou, portanto, de estar no Brasil.

Muito.

Mas Marcello Caetano começa às tantas a ver esse sucesso do embaixador português como alguma coisa que também o incomoda. E chega a dizer que o embaixador faz a sua promoção pessoal em vez de fazer a promoção do país.

Chegou a dizer isso, chegou, numa carta que eu recebi por correio diplomático na véspera do 25 de Abril. Eu fui doutorado cinco vezes – e nos doutoramentos tinha de apresentar uma tese, que eles imprimiam. Mandei essas teses ao prof. Marcello, e ele respondeu: ‘Verifico o seu êxito aí através da publicação dos seus discursos. Mas o que era preciso era publicar o que eu digo e não o que o embaixador diz’. Eu fiquei um bocado zangado e respondi ainda nessa noite. Mas não pus a carta no correio, para pensar melhor. No dia seguinte houve o 25 de Abril.

A sua opinião sobre Marcello Caetano é muito diferente da que tinha relativamente a Salazar. São dois homens incomparavelmente diferentes...

Não têm comparação possível. O Marcello era um homem competente, bem intencionado, com um programa progressista para o país, mas não tinha a força moral do Salazar. O Salazar era, realmente, um caso à parte.

Por que acha que Marcello falhou? Como se percebe que o regime se tenha desmoronado tão rapidamente?

A minha opinião é esta: houve um ultimato dos Estados Unidos segundo o qual até ao Verão o Governo português tinha de dar um sinal de evolução na sua política ultramarina. Se não, haveria uma alteração da ordem pública em Portugal, patrocinada pelos americanos.

Eu manifestei ao Marcello dúvidas sobre isso, mas ele respondeu-me: ‘Não se iluda, quem me avisa meu amigo é’. Portanto, era absolutamente necessário mudar qualquer coisa. Mas essa mudança não era possível com o almirante Américo Thomaz na Presidência. Era preciso, portanto, tirar aquela pedra. Manter o Governo, tirar o Presidente, pôr lá outro Presidente.

Esse outro Presidente seria o Spínola. Fez-se o movimento militar com os homens do Spínola, vieram das Caldas da Rainha por aí abaixo, mas não ocorreu aos autores do plano que um movimento que não tem por si nem a esquerda nem a direita está condenado.

E assim acabou essa tentativa de…

De mudar por bem.

Mas Marcello Caetano era mesmo cúmplice…?

Era, estava dentro disso. O objectivo era mudar o Presidente, ele depois também sairia, para não parecer mal… E seria substituído pelo Veiga Simão. Bom, um mês depois veio o 25 de Abril, porque os capitães viram que um passeio até Lisboa não magoava ninguém. E o regime caiu.

O 25 de Abril apanha-o no Brasil – e quando volta a Portugal diz que encontra um país irreconhecível. Aquele país afectuoso, hospitaleiro, caloroso que conhecia antes de partir tinha-se tornado um país em que as pessoas se vigiavam, num clima de cortar à faca. As pessoas evitavam sentar-se à mesa consigo no café, por exemplo. Como viveu essa época?

Bom, tentei ir para o Brasil. Fui convidado para leccionar Filosofia do Direito na Universidade de São Paulo, e disse ao Ministério da Educação: ‘Tenho um processo que já aí está há um ano pendente, vocês têm de resolver isso porque preciso de tratar da minha vida. Prefiro que seja cá, mas se não tiver possibilidade vou para fora’. Eles então mandaram arquivar o processo. Em resposta, fiz eu um processo agressivo…

Isso foi de resposta ao seu saneamento do Liceu de Gil Vicente, não é assim?

Exactamente. Foi agradável para mim voltar a dar aulas no liceu. Até ser saneado num processo ilegal.

E depois, quando estava marginalizado, aparece o regresso à televisão a convite de Vasco Graça Moura.

Sim, foi ele que me convidou. E isso foi muito importante. Regressei à televisão com outros programas, que continuaram até hoje. Dos 308 concelhos do país, já estive em quase todos.

Houve um homem também importante nessa altura, que foi Mário Castrim. Porque, sendo ligado ao Partido Comunista, elogiou muito os seus programas…

Isso teve um papel decisivo no êxito dos programas. Os críticos liam todos o Castrim e repetiam o que ele dizia. O Castrim dizia muito bem, eles diziam todos muito bem. Criou-se um ambiente extraordinário. Os livros também contribuíram para isso… Um ponto importante é este: o Lyon de Castro [fundador da Europa-América] convidou-me para dirigir uma História de Portugal com muitos volumes de muitos autores. Isso encheu-me dois anos de trabalho violento. E essa História levou depois a outras coisas: o Círculo de Leitores encomendou-me três livros, as Selecções também…

Retomando o fio à meada: depois do 25 de Abril o tio cortou completamente com a política, mas aparece próximo de Mário Soares. Disse há pouco que Mário Soares o convidou para uma palestra. Como se dá essa ligação, sabendo-se que Soares era um opositor inflamado do regime no tempo da ‘outra senhora’?

Antes do 25 de Abril tive uns problemas com ele. Mas depois tratou-me sempre com muita simpatia. Quando era Presidente e foi ao Brasil mandou-me uma carta a convidar-me para ir com ele. Eu não estava cá (estava em Macau, creio), mas quando voltei perguntei: ‘Mas por que diabo me convidou? Não vejo razão nenhuma nesse convite… Não sou seu correligionário, não sou…’. E ele respondeu-me, com piada: ‘Sou o Presidente de todos os portugueses, até de si’. Perante isso, fui. E estabeleceu-se uma relação, enfim, não se pode dizer de amizade, mas de concórdia. Ele cometeu esse erro enorme de se candidatar pela segunda vez, e eu disse à mulher: ‘Olhe que o seu marido vai cometer um erro que lhe pode ser fatal…’.

Depois do 25 de Abril encontrou-se com alguns dos seus colegas de Governo do passado ou não se voltaram a encontrar?

Não, não. Tenho-me retirado para aqui, tenho escrito… Escrevi várias coisas. Obras históricas e livros de investigação muito densos… Escrevi as Memórias, comentei e anotei Os Lusíadas… Tenho dificuldades de vista, mas cá vou trabalhando.

Aqui há uns anos provocou um escândalo quando disse que Salazar era ‘um santo’. Posteriormente, Salazar foi eleito pela RTP ‘o maior português de sempre’. Como historiador, acha que é mesmo?

É muito difícil fazer uma escolha dessas. O maior português de sempre é aquele que maior influência teve no destino nacional. Para começar, foi o D. Afonso Henriques… Depois, há figuras decisivas: o Nun’Álvares é uma figura-chave. Entre os governadores, os administradores, claro que o Salazar é importante, o Pombal é importante, o D. Manuel I é importante… Mas é impossível estabelecer um. Eu nem votei nesse concurso. Não votei também por achar difícil dizer qual era o melhor.

A RTP, nestes anos todos, deu-lhe uma projecção muito grande – e em todas as classes. Os seus programas conseguiram audiências muito diversificadas. E as pessoas adoram-no. Mesmo a mim, dizem-me: ‘Ah, eu gosto imenso de ver o seu tio na televisão’. Sendo um programa erudito, digamos, tornou-se verdadeiramente popular. Gosta desse sucesso? É narcisista? Gosta de ser reconhecido?

Sem dúvida. Gosto de que gostem de mim. Gosto imenso de falar, é das coisas que me dão mais prazer. Nos programas de televisão, a parte dura é que não posso dizer tudo o que quero, porque aquilo tem uma cronografia terrível. Temos 25 minutos e há programas que dariam horas… Mas gosto de falar e gosto que as pessoas gostem de ouvir.

Embora toda a gente elogie essa sua capacidade de comunicação e de chegar às pessoas, até ao coração das pessoas, há historiadores que o criticam e dizem que inventa histórias para tornar as coisas mais romanceadas. E há aquela sua célebre frase ‘Foi exactamente aqui que…’, e as pessoas dizem: ‘Não foi nada ali, porque aquilo está ali há meia dúzia de dias…’. Romanceia a História para a tornar mais atractiva?

Não. Não. Estudo as coisas cuidadosamente e tento pegar nos assuntos sob perspectivas inéditas. Por exemplo, isto que te disse há bocadinho duma luta de classes em Portugal entre o século XII e o século XV nunca foi dito. Mas nunca foi dito porquê? Porque a ideia de luta de classes era uma ideia perigosa, era uma ideia escandalosa no tempo do Herculano. Herculano não a utilizou na sua História de Portugal e nós continuamos a repetir a versão do Herculano, que é a ideia do patriotismo. As pessoas, sempre que ouvem dizer uma coisa diferente do costume, ficam muito irritadas. Em todo o caso, não tem nada de romanceado, nada, nada, nada! Quando eu digo ‘Foi exactamente aqui…’ podes crer que foi, que foi aí, naquele mesmo chão. Porque, quando não tenho a certeza… Há aspectos da História que estão muito mal estudados.

Tem dito várias vezes que não prepara os programas porque, se fossem muito preparados, perdiam a espontaneidade. E para chegar às pessoas é preciso ter essa espontaneidade de quem está a improvisar, a tentar explicar as coisas. Mas antes de gravar os programas tem certamente de ver datas, de recordar factos…

São oito dias de trabalho antes daquela meia hora. Oito dias de trabalho! E, por vezes, vou para o programa pouco seguro, porque há muitas coisas que a gente ignora. Agora vou tratar de um caso cheio de melindre. Vou fazer o Museu de Etnologia, a cuja gestação assisti. Foi feito para fixar os costumes dos povos de Angola, Guiné e Moçambique – mas, quando se estava a acabar o edifício, tinha acabado o Ultramar português. Agora têm lá os carrinhos do Minho e alfaias de toda a parte, mas o projecto inicial não foi atingido. Claro que me parece importante que as pessoas se interessem por etnologia cultural...

Teve vários problemas de saúde ao longo da vida, desde muito novo. No Brasil, até há um episódio muito engraçado em que sai de uma recepção, vai para o hospital e depois foge do hospital, volta à recepção e as pessoas não se aperceberam do que se passava. Não vamos falar disso agora. O que lhe pergunto é o seguinte: na nossa campanha de lançamento do SOL fizemos um conjunto de cartazes, e um deles era com a sua imagem e a frase ‘O Segredo da longevidade é a acção’. E, de facto, aos 90 anos continua com uma energia e com uma capacidade de agarrar a atenção das pessoas…

Ó Zé, tu não imaginas como é reconfortante o reconhecimento das pessoas por todo o país, mas por vezes chego a casa alta noite esgotado. É um grande sacrifício. Eu continuo, e continuarei enquanto puder. Agora estivemos em Sesimbra. Sesimbra é muito curiosa. Tem o castelo, lá em cima, cercado, todo ameado, mas há uma só casa lá dentro. E aquilo cresceu como prolongamento do castelo à praia. A igreja depois mudou… É toda a mudança da igreja, da terra… E a minha mulher fez uma descoberta interessante. Está na Misericórdia (a famosa Misericórdia de Sesimbra) um quadro que se diz ser Carlos V e o Rei de Portugal D. João III, com as respectivas mulheres. Ora bem, não é. É Carlos V e o seu irmão Fernando, Rei da Boémia, no ano em que a este foi atribuído o título de Rei dos Romanos. É uma belíssima tela do século XVI, que nós, como não sabemos, atribuímos a um dos nossos mestres… Mas é muito interessante ver o grande imperador Carlos V e o Rei Fernando a prestarem homenagem à Virgem das Misericórdias portuguesas. É disso que se trata.

Nas suas Memórias provocou um grande escândalo ao dizer que Aristides de Sousa Mendes não foi o herói que fizeram dele, e até levantou dúvidas sobre as intenções daquilo que se considera o seu grande papel na salvação de vidas. Em que é que se baseou para fazer esse outro retrato de Aristides de Sousa Mendes?

Quando advogado, eu almoçava todos os dias num restaurante numa rua da Baixa, onde se comia muito bem, e travei ali relações com um homem que tinha sido subinspector da PIDE e que fora demitido. Tornara-se solicitador – um solicitador não encartado – e ajudava muitos advogados. Esse homem contou-me que tinha sido demitido por causa do processo do Aristides. Ele e outro inspector fizeram um cambalacho com uns passaportes falsos que venderam muito caro. Mais tarde, o eng. Leite Pinto, antigo ministro da Educação, contou-me que, quando era administrador dos caminhos-de-ferro da Beira Alta, Salazar lhe pediu para fazer uma operação-mistério, de grande porte, que era transportar da fronteira de Irun para Vilar Formoso milhares de republicanos espanhóis e judeus que lá estavam acumulados e que o Franco, se os apanhasse, matava. E que, se lá ficassem, eram mortos pelos apoiantes do Hitler. Então, os comboios do volfrâmio, que iam para lá selados, eram despejados em Irun e recarregados com os refugiados, que eram despejados em Vilar Formoso. Daí eram levados para várias terras – uma delas, as Caldas da Rainha, onde toda a gente sabe que estiveram um mês. Ao fim de um mês tinham de ir à sua vida. De facto, qual era a possibilidade de um cônsul, um simples cônsul, mobilizar meios para transportar 40 mil pessoas através de um país hostil? Como é que isso era possível? Só era possível para uma organização estadual, como é evidente. Mais: não há nenhum documento do Aristides que diga isso, não há nenhum. E ele nem sequer foi demitido, porque era monárquico, era irmão do César de Sousa Mendes, que tinha sido ministro juntamente com o Dr. Salazar, ministro dos Estrangeiros. Tinha uma carreira obscura, já com vários processos disciplinares. Naquela altura estava em Bordéus, que era um consulado sem grande importância, tinha uma família numerosa e dificuldades económicas. Fizeram umas centenas de passaportes, que venderam, até que a PIDE deu por isso. Acontece que um dos beneficiários dos passaportes, um judeu, soube que tinham sido salvas 40 mil pessoas e concluiu que o haviam sido pela mesma porta dele, pelo cônsul de Bordéus, e veio dizê-lo. E isso foi aceite imediatamente, sem a mínima investigação…

Nas suas Memórias, os últimos volumes são ocupados, basicamente, por dois tipos de temas: os programas de televisão e as viagens. As viagens com a sua mulher, algumas com o José António Crespo, o seu fiel produtor… Que viagens o marcaram mais?

Olha, há dez anos, exactamente dez anos, a Maria Elisa era directora de programas da RTP e repescou uma proposta minha de ir à Grécia, passar lá três semanas e fazer os mitos eternos, aquelas grandes histórias que fazem as grandes tragédias gregas: a Ifigénia em Áulis, tudo aquilo. E eu fiz 12 programas com os mitos eternos. Considero que essa viagem foi fascinante, porque foi andar na Grécia sem ser nos percursos turísticos. Corremos a Grécia toda. E esses programas são empolgantes. São histórias de há três mil anos.

É um coleccionador de figuras de presépio. Aqui em Palmela tem milhares de figuras. Quase todas, penso eu, compradas em Nápoles, em San Gregorio Armeno. Como surgiu este hábito? Ou as figurinhas são um pretexto para fazer viagens a Itália?

Não, não, é uma história de família. No ano em que namorei a minha mulher, em 1940, ofereci-lhe no primeiro Natal as três figuras da Sagrada Família: o S. José, o Menino e a Nossa Senhora. No ano seguinte, ofereci-lhe os Reis Magos. No outro, o burro e a vaca…

O tio teve duas vidas: uma até ao 25 de Abril, marcada pela advocacia e pela política, outra depois do 25 de Abril, dedicada à investigação e à televisão. Essas duas vidas duraram praticamente o mesmo tempo: 30 e tal anos cada. E curiosamente, cada uma delas ficou ligada a uma casa: a primeira à casa do Bairro do Restelo, a segunda a esta casa de Palmela. De qual dessas vidas gostou mais? Em qual delas sente que se realizou mais?

Curioso, nunca tinha pensado nisso… Gostei mais da segunda, sem dúvida. Mas a primeira teve grandes alegrias domésticas e familiares. Nasceram cinco filhos, que se criaram com saúde e que hoje nos rodeiam com muito carinho. E o nascimento de cada filho, depois o baptizado de cada filho, depois a entrada para a universidade de cada filho, tudo isso é uma epopeia. Esta segunda vida, como disseste, foi mais ligada aos estudos. O momento mais emocionante foi quando, depois do 25 de Abril, me pediram um artigo sobre Camões para um jornal editado pelo Conselho da Revolução. Eu tive de escrever o artigo, mas não sabia grande coisa do Camões. E fui estudar a vida do Camões e ler o que disseram todos os seus biógrafos. E vi que todos tropeçaram na autobiografia poética, em que Camões diz: ‘Foi minha ama uma fera/Que o destino não quis que tivesse/Esse nome para mim uma mulher’. Ora bem, todos eles pensaram que uma fera é um animal feroz – e que Camões queria dizer que a mulher que lhe deu de mamar era feroz, era uma madrasta, era uma prostituta… Ora ocorreu--me, de repente, que a ama é a esposa do amo. Que se sabe que foi a Violante de Andrade. E metade da lírica de Camões é consagrada à Violante de Andrade. E todo o drama da vida de Camões, a vida mais desgraçada que jamais se viu, é resultado de, depois de ter sido amante da patroa, da ama, querer casar com a filha dela. E daí ter sido acusado e torturado. Foi torturado na polé, puxaram-no e desengonçaram-no. E ele, que era escudeiro – uma profissão militar –, nunca mais pôde pegar numa arma, andava de muletas. Foi-me assim possível escrever um livro muito importante que é A Vida Ignorada de Camões, revelando cada momento da sua vida. Hoje não há mistérios. Esse momento em que me veio à cabeça que ‘ama’ quer dizer ‘a mulher do amo’ foi um momento emocionante.

Que outros momentos emocionantes recorda?

Uma missão que me apaixonou completamente foi a de director da assistência aos menores, em que era responsável pela vida de milhares de crianças. Um dia resolvi visitar todos os asilos do país, onde se verificavam situações horrorosas. Fiz isso no Verão. Subi aqui pelo litoral, fui até Trás-os-Montes, desci – e, quando já vinha a descer da serra da Estrela, estava tão cansado, tão cansado, que resolvi desistir. ‘Que diabo, nunca ninguém visitou nenhum asilo, por que hei-de eu visitá-los todos?’. E disse ao motorista: ‘Vamos para casa’. Mas passei numa fonte, a fonte do Souto do Bispo, onde há uma água muito boa. Parei para beber água e estava lá uma mulher vestida de preto, bonita mas com uns olhos estranhos… Foi então que percebi que era cega. Cega de olhos abertos. E andavam por ali cinco garotos. Eu disse: ‘Boa tarde, minha senhora. Então os meninos são seus?’. E ela: ‘São’. Nunca pedira nada a ninguém, mas o marido morrera esborrachado numa trincheira de volfrâmio há um mês e ela andava a pedir para matar a fome dos filhos. Bom, sendo eu director dos menores, competia-me fazer qualquer coisa naquelas circunstâncias. Perguntei de onde eram eles. ‘Aqui da aldeia tal’. ‘Sim, senhor’. E depois perguntei a um dos garotos: ‘Olha lá, e como é que te chamas?’ E ele: ‘Eu sou o Zé’. ‘Obrigado, Zé também eu sou, somos todos Zés. Eu quero é saber o apelido’. ‘Eu sou Zé Saraiva’. Bom, aí já não perguntei aos outros, porque senão diziam que eram António, Pedro, Paulo e Rodrigo… os nomes dos meus outros filhos [o filho mais velho de JHS chama-se José Saraiva]. Continuámos até Lisboa e não desisti da viagem. Foi uma pura coincidência, claro está. E ali na Beira há muitos Saraivas.

Outra coincidência que também me impressionou aconteceu há dois ou três anos. Fui convidado para ir a Roma na Páscoa. Agradeci muito o convite, fui com a minha mulher – e depois fui convidado para assistir à missa que o Papa dizia na Praça do Vaticano. Assisti a várias missas lá, de outras vezes, mas nunca tinha sido convidado. Bom, quando lá cheguei, estava um monsenhor que me disse que tinha uma cadeira reservada para mim. E eu lá fui para as cadeiras. Quando acabou a missa (a Missa de Ramos) o mesmo monsenhor disse-me que o cardeal Fulano queria falar comigo. Lá fomos, e o cardeal disse: ‘A Santa Sé conhece o seu papel na criação duma universidade católica portuguesa e o Santo Padre encarregou-me de lhe transmitir agradecimentos’. Devo dizer que aqui ninguém soube que eu criei a Universidade Católica. E em Roma agradeceram-me…

Daquilo que pude observar ao longo da vida, na actividade política o tio sentiu-se sempre um bocadinho condicionado. Foi deputado e depois foi membro do Governo, e isso traz determinadas limitações. Nos programas de televisão, pelo contrário, pôde ser tudo. Na televisão foi o professor; foi o advogado que na barra defende as suas causas; foi o estudioso que põe em prática o que estudou; foi, até, o actor (que também é). Concorda com isto? Corresponde isto ao prazer que a televisão lhe dá?

É verdade. A televisão representou para mim uma possibilidade de pôr em acção todas as minhas capacidades: a capacidade de professor, a capacidade de actor, a capacidade de advogado, de convencer, de defender uma tese, a capacidade política de encaminhar as pessoas para um certo lado… Tudo isso é verdade. A televisão representou para mim o ar que eu respiro.

Há uns anos – e porque estava sempre a fazer obras aqui em Palmela – disse-me o seguinte: ‘Sabes, Zé, ninho feito, pega morta’. As duas vidas que teve ficaram ligadas, como disse, a duas casas: esta e a do Restelo. Qual delas considera o seu ninho?

Bem, ninho, ninho, é o Restelo. O Restelo representou muito para mim, porque eu vivia na Baixa, na Calçada do Combro, onde o estrondo da noite era uma coisa apavorante. Com os camiões que metem a primeira cá em baixo para subir a calçada, tudo aquilo estremece, e eu não dormia. Mudei para o Restelo e foi um silêncio silvestre! Recuperei a saúde que tinha perdido. E depois, realmente, os garotos ali, os vizinhos, muitos amigos… E, no fundo, muito perto da Baixa, porque havia ali um autocarro, o 43, que me punha lá num instante. Além disso tinha carro e nessa altura não era difícil arranjar lugar no Terreiro do Paço, que servia de parque. De maneira que fiquei muito agarrado ao Restelo, muito agarrado. Ainda hoje. Não estou lá por causa de uma menina que mora aqui em frente, chamada Matilde [a neta mais nova, filha do filho Paulo].

...Uma menina que faz os seus encantos. Mas aqui realizou outra faceta: como um dia me disse, se não tivesse sido advogado, gostava de ser arquitecto. E aqui realizou-se como arquitecto… Planeou esta casa...

É verdade. Fui eu que desenhei a casa, que a planeei. Estou agora à espera de pagar as consequências disso, porque há aí coisas que só agora é que vejo até que ponto foram temerárias. Aquelas vigas a qualquer momento se podem despegar, porque aquilo é madeira, não é aço. Olha, esta varanda começou por ser toda de madeira de carvalho, e tinham-me dito que o carvalho era eterno. Pois é… excepto nos topos. Nos topos apodrece, e foi o que aconteceu. Mas ainda bem, porque a remodelei enchendo-a de lembranças de Itália. Os palácios da Renascença eram forrados no chão de peças cerâmicas como aquelas ali. E aquela Madonna também tem história. Eu tinha-a visto em Florença, na estrada que vai dar à Ponte Vecchia. Vi-a numa loja. Depois, quando comecei a fazer a casa, pensei: ‘Ali ficava bem era uma Madonna’. Voltei a Florença e fui ao mesmo sítio. Ainda lá estava. E tinham passado dez anos! É uma cópia muito boa. E é pesadíssima.




1 Comentário
caiombe
30.07.2012 - 10:54
Gostei da entrevista, conhecer um pouco melhor as pessoas, famosas ou não, é acrescentar-mo-nos.


PUB
PUB
Siga-nos
CD Carríssimas Canções de Sérgio Godinho
Assinaturas - Revista FEEL IT (PT)
Siga o SOL no Facebook


© 2007 Sol. Todos os direitos reservados. Mantido por webmaster@sol.pt