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Saber ancestral

26 de Setembro, 2010Por Ana Cristina Câmara (texto) e Helena Garcia (fotografias)
Reza um ditado japonês que, à terceira geração, o negócio familiar vai à falência, mas o Grande-Mestre Sen Soshitsu XVI contraria a sabedoria popular. Pertence à 16.ª geração de uma família que se dedica ao chá.

«Não falimos porque não somos um negócio, temos transmitido a cultura», afirmou numa sessão de apresentação da cerimónia do chá, chado, no Museu do Azulejo, em Lisboa, no âmbito das comemorações dos 150 anos do Tratado de Paz, Amizade e Comércio entre o Japão e Portugal.

Acompanhado por uma intérprete, o Grande-Mestre da Escola Chado Urasenke, de Quioto - a principal do Japão -, fez uma demonstração do chado, perante uma sala cheia e falou dos seus usos. Também considerada um remédio, a bebida ainda é recomendada para curar ressacas.

«Quem serve e quem toma o chá devem ser pessoas humildes e respeitar-se mutuamente», explica, elevando o momento à condição de cerimónia repleta de rituais - que passam pela etiqueta, pela criação dos jardins japoneses, pelo ikebana (arranjos florais), pelo uso da caligrafia exposta na sala onde se toma o chá, pela própria construção das casas tradicionais.

Entram em cena, sobre os colchões de tatami colocados no palco, as personagens. São dois hóspedes, trajados a rigor nos seus quimonos apertados pelo obi, a faixa larga à volta da cintura, que se entrelaça nas costas. A anfitriã cumprimenta-os com uma vénia. Não descuida pormenores, em gestos suaves: purifica os utensílios artesanais com um pano de seda vermelho (uma influência lusa, à semelhança do que se faz nas missas), oferece a doçaria que tradicionalmente acompanha o chá e prepara a bebida, retirando a água fresca de um pote para outro, aquecido.

O pó verde - é nesta forma que se apresenta o matcha, triturado - é misturado na água com uma vassourinha de bambu, e servido num recipiente de cerâmica. Tomada a bebida, voltam a ser limpos os utensílios, enchidos os potes e todos se retiram, pausada e silenciosamente. A anfitriã também agradece à água: «Porque é importante o respeito pela natureza».

Finda a cerimónia, foi servido o matcha. Em passinhos curtos, quimonos de várias cores desfilaram pela plateia, oferecendo o chá de textura espessa e espumosa, verde vivo, cor de ervilha, e um sabor intenso, com alguma adstringência, que a doçaria típica japonesa equilibrou. Com uma vénia de agradecimento, despedimo-nos.

ana.c.camara@sol.pt

Tags: Japão, Chá, Vida



2 Comentários
divergente
26.09.2010 - 21:35
Em Portugal são mais rápidos! A maior parte dos negócios não passam da segunda geração. Os filhos de grandes emprersários, não tiveram educação nem preocupação e depois do pai morrer, continuam na boa vida a gastar e quando se dá por ela estão falidos com os vendidos em hasta pública. Conheço muitos casos assim, na chamada industria ligeira!!!
Uvidente Sim
26.09.2010 - 14:14
correcto !!! portugal é sinal disso ...


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