Ruptura

O que há de pior no próximo orçamento? Nem sei por onde começar.

talvez pelo mais óbvio: temos um orçamento para aprofundar a recessão em que o país mergulhou. pergunto: um orçamento que nos atira ainda mais para o fundo pode ser coisa boa? no governo pensam que sim. passos coelho acha que o essencial é superar as metas da troika com distinção e antecipação. a troika previa uma quebra no produto de 2011 menor do que a que vai ocorrer e o mesmo filme se projecta para 2012. a razão é simples: o governo está a ser mais troikista do que a troika.

fixem este número: -2,8 por cento. ele é falso. no próximo ano a economia portuguesa cairá 4 a 5 pontos. por um lado, o próximo orçamento apoia-se numa estimativa muito generosa para as exportações. sucede que os dois maiores clientes dos nossos produtos não se estão a dar bem. as previsões de crescimento para 2012 na alemanha não chegam a 1 por cento e a espanha promete regressar à recessão. por outro lado, a compressão do poder de compra das famílias está a ser bem mais brutal do que o garrote desenhado pelos governadores de bruxelas.

o aumento da jornada de trabalho não compensa o mau ano económico que aí vem. por um lado, a medida de passos coelho carece, para existir, da aquiescência dos trabalhadores. a futura lei permitirá sem obrigar porque a carga horária é matéria de negociação colectiva. por outro lado, o efeito económico é marginal. com efeito, um acréscimo diário de meia hora gratuita reduz os custos totais da economia em 1,1 por cento. na indústria transformadora – onde se concentram boa parte das empresas exportadoras – os salários são apenas 12,4 por cento dos custos de produção. o aumento previsto reduziria estes custos… em 0,8 por cento. só empresários raivosos comprarão guerras por uma mão cheia de nada. com efeito, o problema das nossas empresas não é o de terem trabalho a menos, mas o de estarem a funcionar abaixo da capacidade instalada.

fixem agora outro número: 13,4 por cento, a projecção para o desemprego em 2012. é outra estimativa que peca por optimismo. o tecido empresarial português é extraordinariamente frágil. a par da crise de crédito, a quebra no consumo privado revelar-se-á fatal para a sobrevivência de dezenas de milhares de micro, pequenas e médias empresas. a este respeito, o fim do iva intermédio na restauração e nos congelados, bem como o aumento do imposto sobre os combustíveis, terão um efeito adicional altamente destruidor. lá para o fim de 2012 contem com 15 por cento de desemprego. dir-me-ão que a espanha está pior, com 22 por cento. pois… mas aí o estado social ainda providencia um subsídio de desemprego muitos pontos acima do nosso. o verdadeiro problema com que o país se vai confrontar em 2012 é o de uma ruptura social profunda. gregos nos fazem, gregos nos terão.