Angolanos tentam acertar hoje as suas diferenças

Milhões de angolanos estão a votar hoje em todo o país, no final de uma atribulada caminhada que foi percorrida nos últimos dias com muitos sobressaltos à mistura, na sequência do endurecimento do braço-de-ferro que se instalou entre a UNITA e a Comissão Nacional Eleitoral (CNE) à volta de uma alegada violação de vários pontos…

um braço-de-ferro que até à última quarta-feira ainda aguardava pelo derradeiro pronunciamento de isaías samakuva sobre a posição definitiva que o seu partido deveria adoptar em relação aos resultados que saírem das eleições de hoje.

«não vamos reconhecer o poder que sair de tais eleições» – advertiu terça-feira na cidade do menongue o líder da unita, para quem tudo ainda estava dependente de uma resposta a ser dada pela cne, depois da última troca de correspondência entre as duas partes.

a unita, informou segunda-feira o seu porta-voz oficial, «considera que se as eleições forem adiadas por trinta dias, a cne terá tempo e material suficiente para poder corrigir os vícios que enfermam o processo».

a cne respondeu de imediato dizendo que nada seria alterado no que toca ao calendário e que tudo iria decorrer conforme estava inicialmente previsto.

estes foram pois os últimos elementos mais preocupantes que chegaram ao nosso conhecimento e que antecederam o dia que hoje os angolanos estão a viver, não nos tendo sido possível, devido à hora de fecho desta edição, ter tido acesso à anunciada declaração de samakuva.

elementos que para já não auguram nada de bom, com a possibilidade efectiva do país conhecer uma crise política de dimensões imprevisíveis, caso a unita opte pelo não reconhecimento dos resultados que vierem a ser apurados e divulgados pela cne.

entre nove propostas, os eleitores vão escolher um presidente da república (executivo), um vice-presidente e pouco mais de 220 legisladores que irão dar corpo e substância à próxima legislatura da assembleia nacional que a partir de agora terá um mandato de cinco anos.

os angolanos estão assim hoje a decidir por quem e como querem ser governados até 2017, embora muito poucos tenham prestado uma grande atenção ao conteúdo dos programas ou feito as suas escolhas em função das diferentes alternativas de governo apresentadas durante os cerca de 30 dias de campanha.

uma vez mais a mobilização do eleitorado aconteceu com base na divisão histórica dos angolanos entre o mpla e a unita, que em princípio serão as duas formações que irão absorver a maior parte dos votos expressos, com todas as surpresas que são de admitir em relação aos resultados a serem alcançados pelos restantes concorrentes.

a coligação eleitoral casa-ce dirigida por abel chivukuvuku é aquela que mais expectativas está a alimentar, pelo menos entre os jornalistas e analistas.

com o mpla a colocar a fasquia na concretização de uma nova maioria absoluta qualificada, os observadores dividem-se entre aqueles que acham que tal será possível e todos os outros que duvidam bastante desta possibilidade, colocando o score do partido governamental num nível muito mais modesto, se não houver outras interferências alheias à vontade dos eleitores.

para já muito poucos são aqueles que vaticinam uma vitória da oposição, diante da arrasadora campanha eleitoral que o candidato do mpla desenvolveu nos últimos dez dias, utilizando sobretudo as suas vestes de presidente da república e chefe do executivo, com a inauguração de um número impressionante de grandes projectos públicos em várias províncias do país e com a total cobertura da media pública.

o desempenho da media pública voltará a animar o debate pós-eleitoral, considerando que desta vez todos os limites da sua colagem à campanha de jes/mpla foram larga e ostensivamente ultrapassados e muito dificilmente poderão ser justificados apenas com as fragilidades das campanhas dos partidos da oposição.

uma vez mais e enquanto o país e o mundo aguardam pela conclusão deste processo eleitoral, volto a colocar-me do lado de todos quantos acham que angola precisa de um novo fôlego político-partidário para resolver de forma mais rápida, harmoniosa e sustentável os seus gravíssimos problemas sociais que permanecem, apesar do crescimento do pib.

depois de o próprio mpla ter prometido que neste novo mandato, caso venha a ganhar a disputa, vai prestar uma melhor atenção à distribuição mais equilibrada do rendimento nacional, sou dos angolanos que não acredita que tal democratização seja possível mantendo-se o actual e asfixiante xadrez político-partidário.

já o dissemos noutras ocasiões que, nas condições concretas de angola, governar é uma coisa, democratizar é outra, pelo que as duas tarefas terão de marchar em paralelo e em sintonia, tendo em conta o passado do país.

como não nos passa pela cabeça que possa haver a recomendável liberdade de imprensa apenas com uma rádio nacional, uma televisão pública (com um ou vários canais) e um oficioso jornal diário (com vários derivados), também não acreditamos que um partido, por si só, por mais democrático que ele seja (não é certamente o nosso caso), possa sozinho democratizar o país, sem ter que negociar minimamente com as restantes forças políticas.

*jornalista