Um homem que inspirou o mundo

Depois de um acidente em 1993, ficou tetraplégico. Três anos depois, perdeu o amor da sua vida para o cancro. Philippe Pozzo di Borgo tinha todos os motivos para não querer viver. No entanto, uma amizade inesperada salvou-o, inspirando o mundo. O empresário morreu em Marrocos, aos 72 anos. 

Dizia que «é preciso saber tirar proveito de uma desgraça e não se deixar vencer por ela». E, a sua vida, foi mais do que uma prova disso. A sua elegância, quase nos fazia esquecer as suas fragilidades, o seu corpo imóvel. Há anos que vivia sentado numa cadeira de rodas, depois de um acidente que o tornou tetraplégico. Mas, nem por isso perdeu a sede de viver, muito graças ao seu cuidador que, contra tudo e todos, o resgatou de uma grave depressão. 

Philippe Pozzo di Borgo, o aristocrata e empresário cuja história inspirou um dos maiores sucessos do cinema francês, Intouchables, em português Amigos Improváveis, morreu no princípio do mês, em Marraquexe, aos 72 anos. 

O falecimento foi confirmado por Eric Toledano que, juntamente com Olivier Nakache, realizou o filme de 2011. «É um choque e, acima de tudo, uma imensa tristeza porque é uma relação que teve uma longevidade incrível. Mantivemos contacto, fizemos viagens juntos, escrevemos um para o outro, vimo-nos muitas vezes», afirmou Eric. «Acabamos de saber com imensa tristeza o desaparecimento de nosso amigo Philippe Pozzo di Borgo. Ao aceitar que adaptássemos a sua história no filme, ele mudou as nossas vidas e a vida de muitas pessoas vulneráveis ​​e fragilizadas», acrescentaram os realizadores no Twitter.

Nascido em 1951 em Túnis e no seio de uma antiga família nobre da Córsega, antes do fatal acidente de parapente, em 1993, Philippe Pozzo di Borgo geria a casa de champanhe Pommery. Segundo o Le Figaro, o empresário ficou conhecido por usar sempre um chapéu. No verão, um chapéu panamá; no inverno, um chapéu de feltro. O seu pescoço encontrava-se quase sempre enfeitado com um lenço de seda. «Com um humor deslumbrante, navegava entre o riso e o silêncio», detalha o jornal francês. Além disso, era um fiel apaixonado, acabando por sofrer um grande desgosto pouco tempo depois da sua queda. Philippe Pozzo di Borgo era casado com Béatrice, com quem adotou dois filhos, Laetitia e Robert-Jean. Três anos depois de ter passado vários meses nos cuidados intensivos e ter acabado por ficar totalmente dependente de uma cadeira, aos 42 anos, o aristocrata perde também a amada, vítima de cancro. «Qual a esperança para uma alma solitária num mundo vazio? Não tenho mais passado, não tenho futuro, sou uma dor presente» , disse sobre esse período da vida no seu relato autobiográfico, Le Second Souffle, em português, O Segundo Fôlego, publicado em 2001.

Um salva o outro 

E foi nesse mesmo período que conheceu Abdel Yasmin Sellou, que desempenhou um papel inesperado e crucial na sua vida. De acordo com o jornal francês, foi a amizade criada entre os dois que ajudou o empresário a recuperar a vontade de viver. «Enquanto estava numa situação de total vulnerabilidade, Philippe contratou um homem que o poderia ter intimidado, mas ele confiou nele. É exatamente isso que o filme ​​diz: a alegria pode brotar de uma relação entre dois seres frágeis porque confiam um no outro e aprendem a ajudar-se», resumiu o seu amigo, o empreendedor social Laurent de Chérisey. Abdel Yasmin Sellou é natural da Argélia. A sua infância foi marcada por dificuldades monetárias, o que moldou o seu temperamento impulsivo. Quando conheceu Pozzo di Borgo, já tinha sido preso por furto. 

Podemos pensar: «Como alguém tão refinado contrataria uma pessoa como Abdel, que, em pequeno, até roubava os colegas de escola?». Ao que parece, o empresário viu para além do óbvio, causando também uma transformação no seu cuidador.  «Ele era rápido, inteligente e estava disponível 24 horas por dia, sete dias por semana. Era capaz de agir sem hesitar, de tomar iniciativa e estava sempre pronto para conduzir rápido e sem carta de condução», explicou numa entrevista à Veja em 2012. 

Os pormenores da amizade estão relatados na adaptação para o grande ecrã em Amigos Improváveis, que em 2011 atraiu quase 20 milhões de espetadores aos cinemas. Os dois homens eram interpretados por François Cluzet e Omar Sy, com o segundo a ganhar o César de Melhor Ator (os ‘Óscares’ franceses). Segundo os realizadores, o empresário apenas o permitiu, com a condição de estes tornarem a história «numa comédia». Além disso, a história também foi adaptada nos EUA, em 2017, no filme The Upside com Bryan Cranston e Kevin Hart.

Presidente honorário da associação Simon de Cyrène, que cria residências partilhadas para pessoas com deficiência múltipla na França, Philippe Pozzo di Borgo doou parte dos seus direitos cinematográficos à associação. Os 800 mil euros, revela o Le Figaro, permitiram multiplicar o número desses estabelecimentos para mais de 25 no país. Em 2015, tornou-se ainda patrocinador da associação ‘Soulager mais pas tuer’, em português, ‘Aliviar mas não matar’ que faz campanha contra a eutanásia.

Os dois protagonistas desta amizade mantiveram contacto até ao fim da vida do empresário que se voltou a casar. O seu amigo também casou e constituiu família em França.