O Metternich americano

O que se extingue com ele não é somente um homem: é, antes, um tipo de homem, uma tradição de diplomata e servidor público que o Ocidente não é mais capaz de reproduzir.

Kissinger foi a síntese do século. Nascido Heinz na Alemanha confusa e periclitante do pós-Versalhes, a família, judaica de origem, foi atirada para a América pela perseguição hitleriana. Estava-se em 1938: ano de Munique e antecâmara da guerra. Heinz fez-se Henry. Em 43, seria cidadão americano. Mobilizado pelo exército, combateria pelo seu novo país contra o antigo nas florestas gélidas das Ardenas. Foi quando, diria mais tarde, se sentiu ‘realmente americano’ pela primeira vez.

Ascenderia fulgurantemente. Se, como escreveu no seu The Meaning of History, ‘surge na vida de todos os homens um momento em que ele se dá conta de que, de todas as ilimitadas possibilidades da sua juventude, se converteu numa realidade’ de ‘direcção decidida e limites definidos’, justo seria acrescentar que, para Kissinger, esse marco chegou cedo. A sua dissertação de doutoramento, sobre Viena e a reconstrução da ordem europeia por Metternich e Castlereagh, é já a de um homem decididamente a caminho do destino.

Quando Richard Nixon o convidou para Conselheiro de Segurança Nacional, em 1969, Kissinger teve o reconhecimento merecido, se bem que improvável e surpreendente, como uma das cabeças mais brilhantes do século XX. Que o presidente o tenha escolhido para tão alta posição – a um judeu alemão, imigrante, sem nenhum do habitual pedigree aristocrático da East Coast e, para mais, seu crítico aguerrido em anos passados – faz bem a prova das qualidades humanas e políticas que, injustamente, Watergate viria a ofuscar em Nixon. Os dois homens partilhavam a mesma sensibilidade: tendo de escolher, ambos preferiam, sem poesia nem idealismo, a ordem à liberdade. Mostraram-se formidável dupla e seriam o símbolo máximo, à vez admirável e detestável, da Realpolitik na sua forma mais irreprimida.

Entre 1973 e 1977, Kissinger serviu dois presidentes (Nixon e Ford) e, como o entendia, o interesse do seu país. Não pretendeu ter, e não teve, outro objecto para a sua fidelidade: nem a letra morta de convenções inúteis, nem proclamações pesporrentes, nem valores melífluos e intangíveis. Foi só, e foi-o bem, um defensor da América. É essa a moralidade solitária do homem de Estado. E essa solidão, esse egoísmo nacional, natural e necessário, trouxe-lhe a fúria de gerações: pela destruição do Camboja, por Timor, pelo total desinteresse pelos judeus soviéticos. Mas é fado dos que moldam a História viver e morrer com a incompreensão de quem, na primavera doce da irresponsabilidade, não é chamado a carregar o fardo das decisões. Kissinger aceitou essa pedra pesada para limitar a probabilidade de uma guerra final e arrasadora da Humanidade. Foi a bem do seu país e em nome do equilíbrio global, única garantia sólida de paz, que tirou Washington do Vietname, realizou a ‘détente’ com a URSS e integrou, por fim, a China popular no sistema internacional. Esse legado vale bem alguns ódios.

Kissinger morreu. Foi o Metternich americano: com todas as suas falhas, um estadista forjador de História, um intelecto luminoso e o arquitecto de um mundo mais estável em anos de crise. O que se extingue com ele não é somente um homem: é, antes, um tipo de homem, uma tradição de diplomata e servidor público que o Ocidente não é mais capaz de reproduzir. Sentiremos a falta disso.