Escutas familiares

Por enquanto o MP anda entretido com as conversas privadasentre políticos e políticos. Mas quando se fartarem e se virarem para os pais, não haverá quem se livre de um medieval julgamento popular. Até lá, eduquemos.

Se alguém me escutasse a falar com os meus filhos, teria vários processos abertos pelo Ministério Público ou na CPCJ. Seria acusada de corrupção, abuso de poder, ameaças veladas à integridade física, coação psicológica, negligencia, calúnia e sei lá mais o quê. Sei do que falo porque falo sabendo que ninguém me ouve. O fato de ser impossível e ilegal gravar conversas de telemóvel, deixam-me à vontade para todo o tipo de comportamentos ilícitos nas conversas que tenho com os meus filhos. E é na intimidade do lar, no segredo das relações familiares, na ausência de fiscalização por parte das entidades judiciais que me exprimo com a descontração própria de uma conversa privada. Sem censura e racionalidade.

Se alguém me escutasse e divulgasse as conversas que todos os dias tenho com eles, estaria destruída. E com a justiça de uma culpa anunciada. O julgamento público, tipo pelourinho no meio da praça, seria o meu destino final. E nas chamas da crítica pública arderia sem clamor.

Nem sabes o que te vai acontecer quando eu te vir, se não arrumas o quarto até eu chegar a casa prometo que te dou uma sova, nunca vi ninguém tão parvo na minha vida, se essas notas não subirem vais trabalhar e não te dou nem mais um tostão: nem para o passe, não mereces nem um dia do trabalho que tenho para te sustentar, se fosse eu a ter essas notas teria vergonha e não saia à rua, se continuas assim nem para lavar pratos te vão dar trabalho. E mais não digo para não me incriminar.

No calor de uma tarde de estudos em que a matemática não avança a gramática são todo o tipo de adjetivos perfurativos no grau superlativo; numa manhã em que eles não saem da cama, as ameaças são o galo que canta, num dia passado a passar roupa e a lavar casas de banho enquanto eles se dobram em volta dos telemóveis e respondem com monossílabos, adiro a todas as estratégias da máfia siciliana para instigar o medo. E em todas estas situações, eu sou um primeiro-ministro a demitir administradores da TAP: ‘são vocês ou eu: nesta casa não cabemos todos’.

Se alguém gravasse e divulgasse os desabafos e ameaças que faço aos meus filhos, não teria como me salvar de comissões de inquérito ao meu comportamento maternal. Evocava o meu direito ao silêncio, mas todas as escutas me fariam corar de vergonha e o meu caráter seria pública e justamente assassinado. O cansaço e o desgaste emocional do exercício das minhas funções maternais não valeriam de nada perante o escândalo impresso em letras garrafais: ‘És mais parvo do que uma galinha tonta’, grita a mãe. Teria direito a um alerta noticioso cada vez que passasse uma hora a estudar com os meus filhos ou que abrisse as gavetas do armário das roupas deles. Seria o fim do estado de direito familiar.