Por uma Europa Atlantista

Que a Europa inaugure uma nova onda de globalização, conhecimento e democracia.

Terminam hoje as Jornadas Parlamentares do Partido Popular Europeu (PPE). Durante quatro dias, Cascais foi o local escolhido para receber os 187 eurodeputados eleitos e os nomes mais destacados deste campo como Ursula von der Leyen, Roberta Metsola e Manfred Weber. Por aqui passaram diversos representantes do Governo português, numa iniciativa que decorreu à porta fechada.

Tive o privilégio de participar num dos momentos deste encontro da família europeia do centro político, na presença da Ministra do Ambiente e Energia, Graça Carvalho, do Ministro da Defesa, Nuno Melo, e de Manfred Weber, Presidente do PPE. Foi o momento ideal para reforçar a necessidade de uma Europa comprometida com uma política marítima robusta.

Os recentes eventos geopolíticos no continente foram um lembrete poderoso sobre a importância do Atlântico na defesa e segurança europeia, e como ator central nas relações com as Américas e África.

Há mais de vinte anos, o professor Ernâni Lopes, um visionário a quem o país muito deve, propôs a criação do hiper-cluster do Mar como veículo para Portugal criar cadeias de valor e de valores, assumindo uma ambição assente na proteção e conservação dos Oceanos, mas também na inovação e capacitação do ser humano.

Duas décadas depois, temos todas as razões para fazer este caminho de regresso aos Oceanos que nos dão oxigénio, comida, energia, transporte, e uma infinita cadeia de recursos. Em contrapartida, nós, humanos, retribuímos com poluição, lixo, pesca descontrolada. Nenhuma relação sobrevive a tal amoralidade.

Cascais está na ponta mais ocidental da Europa. Não só continental como marítima. Daqui também conseguimos ver todo um mundo de língua lusófona.

É crítico reforçar o atlantismo, que a Europa assuma a custódia sobre o oceano, criando mecanismos de governação para o proteger. Porque olhamos para o mar como o nosso maior recurso, em Cascais trabalhamos na proteção dos habitats sensíveis, na economia azul e na sustentabilidade em todas as linhas de ação. Somos o primeiro concelho em Portugal a ter uma Área Marinha Protegida Local e estamos a recuperar as florestas marinhas de Cascais.

Assumimos uma herança marítima com mais de 2000 anos de história. Investimos na sensorização e monitorização da vida subaquática e da qualidade da água, em todo o seu ciclo.

Apoiamo-nos na Ciência para desenvolver as nossas políticas, e temos estudos sobre o estado dos ecossistemas, sobre cenários de impactos das alterações climáticas, sobre o PIB do Mar e sobre o capital natural do Mar.

Conduzimos um programa de arqueologia subaquática com a ambição de mapear o nosso litoral, de conhecer o fundo do mar. E com esta curiosidade descobrimos em 2018, a 12 metros de profundidade e após quase 400 anos de repouso, uma nau portuguesa dos tempos dos descobrimentos.

Estamos atualmente a desenvolver o Museu da Língua e do Mar, que ficará instalado no Forte de Santo António. Porque acreditamos num mundo lusófono.

Cascais não só tem a vocação, mas também a ambição de ser um território-laboratório para políticas de conservação, proteção e interação responsável com os Oceanos. O regresso ao mar é também um imperativo de paz e de humanidade.

A Europa, sempre em busca de ocupar o seu lugar na liderança dos assuntos mundiais, tem a História a seu favor, bem como a experiência e um vasto Atlântico de liberdade. Que haja em nós, europeus, a vontade de fundar uma NASA para os Oceanos.

Que haja em nós, europeus, o talento para recriar a epopeia dos Oceanos, tal como Camões cantou nos “Lusíadas”, em português. Que haja em nós, europeus, a sagacidade, o temperamento pioneiro e a coragem dos nossos antepassados.

Para que, neste século, tal como há quinhentos anos, a Europa possa dar novos mundos ao Mundo.

Que a Europa inaugure uma nova onda de globalização, conhecimento e democracia. Porque é o mar que une aquilo que todo o resto separa. Porque é no mar que nos encontramos como uma comunidade global. Não deixemos passar mais duas décadas para redescobrir o Atlântico.