Viver sem eletricidade. Lições de um país às escuras

O que acontece quando tudo para? Quando o frigorífico deixa de funcionar, o telemóvel não carrega e os hospitais passam a depender de geradores? De lanternas a kits de emergência, estas são as lições que o apagão de 28 de abril nos deixou.

O apagão do passado dia 28 de abril deixou Portugal “às escuras” durante várias horas. Mas o que acontece realmente quando a eletricidade falha? Das casas aos hospitais, passando pelo comércio e pelas redes móveis, o impacto é imediato – e um alerta sobre a nossa dependência energética. A ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, admitiu que “ninguém pode afirmar que não voltaremos a viver um apagão”.

Se algo ficou claro é que praticamente tudo nas nossas casas depende da eletricidade. Cozinhar, tomar banho, manter a comida refrigerada, carregar telemóveis e computadores: de um momento para o outro, várias famílias tiveram de se adaptar a viver num mundo sem luz.

Lições a tirar do apagão (e como preparar-se)

Desligar os aparelhos elétricos Uma das primeiras recomendações em caso de apagão é desligar da tomada os aparelhos sensíveis como TVs, computadores, routers, microondas e carregadores, bem como eletrodomésticos com resistência elétrica (fogões, aquecedores, ferros). O objetivo é evitar avarias ou sobrecargas elétricas quando a eletricidade voltar. Por outro lado, deixar uma luz de presença acesa, como um candeeiro, pode ajudar a perceber quando a eletricidade regressar.

Usar iluminação segura (como lanternas) No dia 28 de abril, quando começou a anoitecer, muitas pessoas recorreram a velas para contornar a falta de iluminação. Para evitar riscos de incêndio, é preferível usar lanternas ou luzes LED a pilhas ou recarregáveis. O uso de velas deve ser apenas em último recurso e sempre em locais estáveis, longe de cortinas, papéis ou móveis inflamáveis. Para facilitar, convém ter sempre um local fixo na casa para guardar lanternas e pilhas de reserva.

Evitar abrir o frigorífico ou congelador Sem frigorífico, algumas famílias começaram a fazer contas ao prejuízo. Os congeladores cheios, sobretudo em casas com crianças ou idosos, eram uma fonte de ansiedade: quanto tempo até os alimentos se estragarem? Cada vez que se abre o frigorífico ou congelador, perde-se frio e os alimentos ficam mais suscetíveis a deteriorar-se. Já um congelador fechado pode manter a temperatura por cerca de 24 a 48 horas.

Usar rádio a pilhas para se manter informado/a Sem acesso a televisões ou rede de telemóvel, a rádio foi a ‘salvação’ para milhares de portugueses que ansiavam por informação sobre o que se estava a passar. Entre boatos de um ataque russo e o início de uma guerra nuclear, ter um aparelho de rádio a pilhas ou rádio no carro foi crucial para ouvir as autoridades e os serviços de emergência e evitar a desinformação que já se fazia circular pelas redes sociais. Uma das lições a retirar é tentar evitar o alarmismo e não partilhar mensagens ou vídeos não confirmados por autoridades oficiais ou meios de comunicação.

Preparar-se para a eventual falta de água Em alguns edifícios, a água é bombeada por sistemas elétricos. Durante o apagão, várias localidades ficaram sem água uma vez que o abastecimento depende de energia elétrica para a produção, tratamento e distribuição. Se o apagão for prolongado, pode haver falhas. De acordo com uma notícia recente do Nascer do SOL, se existir outro apagão, muitos municípios em Portugal poderão deixar de ter água em quatro, seis ou 12 horas. Apenas algumas autarquias têm reservas suficientes para manter o fornecimento de água durante um máximo de três dias.
Para contornar o problema, recomenda-se encher garrafas e recipientes com água assim que se detetar a falha de energia e usar a água com moderação.

Não usar geradores dentro de casa A procura por geradores aumentou no dia do apagão, mas é importante relembrar que não se deve usar geradores dentro de casa por questões de segurança. O monóxido de carbono é um gás incolor e inodoro, que pode acumular-se em ambientes fechados e causar envenenamento silencioso.
Por outro lado, os geradores foram essenciais para manter em funcionamento setores essenciais, como hospitais e supermercados.

Especial cuidado com crianças, idosos e pessoas dependentes Para manter o conforto e a segurança dos mais vulneráveis, é essencial explicar calmamente a situação, de forma a evitar o pânico.
No caso dos mais idosos, verificar se há medicamentos refrigerados (como insulina) e transferir para uma caixa térmica com gelo se necessário. É também importante ter alternativas de iluminação e aquecimento/arrefecimento para idosos ou doentes.

Uma mulher, de 77 anos, que estava ventilada em casa, no Cacém, morreu durante o apagão depois de o ventilador, que estava ligado à corrente elétrica, ter ficado sem bateria. Milhares de pessoas fazem em casa o mesmo tratamento que esta idosa e os aparelhos têm autonomia estimada de oito horas. Embora a tragédia ainda esteja a ser investigada, em casos semelhantes recomenda-se ligar assim que possível para os serviços de emergência – acautelando possíveis demoras na resposta – e ter sempre uma bateria de reserva.

Kit de Emergência Algo que já tem sido recomendado pela União Europeia é a preparação de um kit de emergência com um conjunto de itens básicos, caso falte luz, rede ou água. Esse kit deve conter água potável (pelo menos 3 litros por dia por pessoa), alimentos não perecíveis (conservas, barras energéticas, bolachas, frutos secos, arroz, massa, etc.); medicamentos essenciais e material de primeiros socorros; lanterna e pilhas sobressalentes; powerbank e carregadores; rádio portátil (preferencialmente a pilhas ou de manivela); cópias de documentos importantes; dinheiro em espécie; roupas quentes e muda de roupa; produtos de higiene pessoal; canivete suíço, isqueiro, fósforos, velas; contactos de emergência anotados: e algo para passar o tempo, como cartas de jogar.

Manter a calma caso fique preso/a num elevador Dezenas de elevadores pararam durante um apagão e houve quem ficasse horas preso lá dentro. Apesar de ser fácil entrar em pânico e o primeiro instinto ser querer abrir as portas, é importante não tentar forçar o funcionamento de elevadores ou sistemas automáticos. Em vez disso, recomenda-se acionar o alarme e aguardar o apoio com calma – os sistemas de emergência têm baterias autónomas.