James Joyce em Zurique

A maior cidade suíça foi um local importante na vida do escritor irlandês, tanto de criação como de refúgio, e também aquele em que morreu.

Como o nome indica, a Bahnhofstrasse é a avenida que liga a estação central de Zurique ao Lago. Já tantas vezes fiz esse percurso que se tornou rotineiro e elevou a minha exigência no que respeita à higiene urbana. Hoje, olho de soslaio e solto um desabafo spengleriano ao ver o mínimo descuido, como uma rara beata no chão. É irónico, porque na minha Lisboa natal ignoro tais vestígios deixados pelos fumadores, como se fizessem parte da paisagem. É a prova de que os locais se entranham em nós…

No entanto, recordo-me de admirar a limpeza impecável desta avenida e notar que ainda fazia jus ao comentário de James Joyce: «Se entornasses sopa na Bahnhofstrasse, podias comê-la directamente do chão, sem precisar de colher.»

O escritor irlandês, figura central do modernismo, passou uma longa parte da sua vida itinerante em Zurique, a que vinha frequentemente, e aqui escreveu grande parte do seu monumental Ulysses. Estaobra-prima foi uma das minhas leituras precoces porque constava da biblioteca de casa dos meus pais e, marcado pela sua dificuldade, só a ela regressaria muito mais tarde, por ocasião de uma ida a Dublin, onde segui os seus passos. Já em Zurique, apesar da importância que a cidade teve na vida e obra do autor, nunca fiz um percurso completo e pensado, talvez por me sentir «em casa», mas acabei por fazê-lo em momentos separados.

No prédio da Universitätsstrasse onde Joyce viveu em 1918 há uma placa indicativa, que passa despercebida, mas o escritor irlandês teve várias moradas em Zurique e é difícil seguir-lhe o rasto.

Há uns anos fui ao James Joyce Pub, na Pelikanstrasse, e gostei da decoração. O espaço existe desde 1978 e, obviamente, o autor que lhe dá nome nunca lá pôs os pés. Mais tarde, soube que o interior vitoriano era o do Antique Bar do Jury’s Hotel, em Dublin, que foi instalado aqui depois de ter sido comprado por um banco suíço. Afinal, havia uma ligação ao escritor irlandês, porque Joyce frequentava o Antique e mencionou-o na sua obra.

Haveria ainda algum estabelecimento aberto que tivesse sido frequentado por Joyce? A resposta era óbvia e tratava-se de um local central por onde tantas vezes passo. O Café Bar Odeon é um clássico de Zurique que abriu em 1911, em estilo Art Nouveau, e viu passar escritores, poetas, pintores, músicos, políticos, cientistas, por ser um ponto de encontro da cidade. Entre os nomes mais conhecidos que aqui vieram destacam-se Stefan Zweig, Somerset Maugham, Hermann Hesse ou James Joyce. Mas também Arturo Toscanini, Albert Einstein, Lenin e Benito Mussolini. Aqui se juntavam os dadaístas e, no primeiro andar, actuou Mata Hari, dois anos antes de ser executada em França por espionagem. Hoje é um local histórico mas com vida, cujo encanto resiste à passagem do tempo.

James Joyce regressou a Zurique em 1940 e aqui encontrou, no ano seguinte, o seu último repouso. Em Março deste ano decidi finalmente visitar a campa de Joyce, uma Ehrengrab, que se encontra ao fundo do corredor central do cemitério de Fluntern, onde estão também sepultados a sua mulher, Nora, o seu filho, Giorgio, e a mulher deste, Asta. Falta apenas a sua filha, Lucia Joyce, que foi diagnosticada com esquizofrenia e chegou a ser paciente de C. G. Jung, além de estar internada no Burghölzi, mas foi transferida para um hospital em Northampton, cidade onde morreu e está sepultada. O local é recatado e impecavelmente cuidado, onde a estátua de Joyce, obra de Milton Hebald, nos olha descontraída, enquanto faz uma pausa da leitura e do cigarro…