São mais de 32 anos de carreira e 66 coleções. Cresceu na Madeira, mas sempre sentiu que teria de sair da ilha para conseguir ser aquilo que desejava. Conseguiu isso e muito mais. Conquistou o mundo com a sua ousadia e criatividade e hoje, com 60 anos, pretende continuar a ser o mais feliz possível a trabalhar.
Há quem considere que tem um ar muito sério, talvez até snob. Mas a Fátima já disse que é uma pessoa que não se leva demasiado a sério… Considera-se uma pessoa bastante «normal». O que é que isso significa?
Acho que não faz sentido nenhum levarmo-nos muito a sério. Cada vez me levo menos a sério no sentido de levar a vida a brincar. Só quem é muito novo é que não tem noção que isto é tudo muito rápido. A vida passa tão rápido e se nós não gozarmos o dia-a-dia, ela é pouco. Eu quero que ela seja longa e muito boa. Acho que, ao longo da minha vida, tive a sorte de fazer sempre aquilo que eu gosto, mas poucas pessoas neste mundo trabalham sete dias por semana como eu. Não trabalho nunca menos de 10 horas por dia e há alturas na minha vida que são literalmente sete dias por semana. A sorte dá muito trabalho. Para se conquistar alguma coisa é preciso ter noção que é preciso muito esforço. Não acredito em nada que caia do céu, não acredito em nada fácil. Por isso, toda a minha vida foi de muito trabalho. Nunca me deixei ficar por um “não”. Sou uma pessoa que não desiste.
Agora, eu tanto cumprimento o senhor que varre a rua em frente ao meu atelier todos os dias, como o Presidente da República. Isso ninguém pode dizer o contrário. Toda a minha vida fui assim! Há aquela ideia de que a figura da moda deve ser arrogante, antipática. Já ouvi isso mil vezes. Quem me conhece sabe que eu de antipatia tenho zero! (risos) Acho que estrelinhas só no céu. Não tenho a mínima paciência para pessoas armadas em estrela.
Mas com tanto trabalho onde é que encontra tempo para a «normalidade»?
Primeiro tenho outra idade… Fiz 60 este ano e, de repente, faz pensar… Não tenho nenhum problema em relação à idade, mas tenho consciência de que tenho menos anos de vida do que aqueles que vivi até agora. Essa é uma evidência. Portanto, a partir daqui quero fazer tudo o que me dá prazer, tudo aquilo que eu gosto, mas de uma forma diferente. Eu já não estou a trabalhar sete dias por semana, a não ser um mês antes do desfile. Também casei recentemente e começo a pensar que é possível haver aqui um equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional. Logo a seguir ao desfile fui fazer uns diazinhos de férias. Também preciso e mereço. A energia aos 60 já não é igual, apesar de não me poder queixar! Energia eu tenho, mas já me cuido de uma forma diferente, já me mimo de uma forma diferente! Enquanto eu tiver saúde eu quero trabalhar. A palavra “parar”não existe para mim. Mas quero continuar desta forma… E, apesar de tudo, sinto que fiz recentemente o meu melhor desfile de sempre. O maior! Com a idade nós também aprendemos a fazer as coisas de uma forma mais organizada. São 33 anos de desfiles, são 66 coleções. Esta normalidade é de quem já viveu muito, de quem tem muita experiência.
Sempre foi muito boa aluna. Quando tinha um quatro nas avaliações, chorava… Isso demonstra que sempre foi muito exigente? Era uma nerd?
(risos) Era um bocadinho! A verdade é que talvez eu tenha tido sorte em nascer num meio e numa época em que ser bom aluno era uma coisa boa. Primeiro porque era um meio pequeno e eu tive a mesma turma durante muitos anos. Nós competíamos para ver quem era o melhor! Hoje em dia as coisas são um bocado diferentes! (risos) Naquela altura ser bom aluno era visto como uma coisa boa. Ninguém queria ficar para trás. Eu cresci com a noção que vivia numa ilha, por isso, seguir a minha profissão era praticamente impossível. Eu tinha a certeza e noção de que teria de trabalhar mesmo muito. Teria de sair do meu porto seguro. O esforço sempre fez parte de mim. Não era um sacrifício. Sempre tive muita garra, não tinha medo de ir à luta, de trabalhar. Não lhe vou dizer que queria ser a melhor do mundo, mas sempre quis ser muito boa naquilo que fazia.
O que é que mais recorda da infância na Madeira?
O que mais me marcou na vida foi ter nascido num meio pequeno, com muitos amigos que mantenho. Acho que quando se cresce num ambiente de simpatia e amizade, a vida é diferente. Lembro-me do clube naval, de não existirem telemóveis… Fomos todos crescendo juntos. Eu só percebi que havia pessoas que não gostavam de mim, que eu nem conhecia, quando cá cheguei. Esta coisa do não gostar, do julgar… Era uma realidade que eu não conhecia.
Foi um choque?
Foi! (risos) Mas felizmente eu não sou de me ir abaixo. Se me desafiam ou se me criticam destrutivamente, isso só me dá mais força para fazer o que estou a fazer! A Madeira foi sempre um porto seguro e fez-me bem disposta, fez-me gostar de pessoas. À primeira reação eu gosto de toda a gente! São poucas as pessoas que eu não gosto na vida e, as que não gosto, fizeram-me mal.
Foi guia turística e agente de viagens durante quatro anos. Começou, por isso, a viajar cedo, a conhecer outras realidades. Sempre sonhou com moda, mas tal como disse achava que não era possível naquela altura. Esse trabalho fê-la abrir os horizontes e perceber que era possível concretizar o seu sonho?
Completamente. O turismo foi a minha escola de vida! Comecei a viajar pelo mundo tinha 19 anos. Lembro-me de chegar a São Paulo e eu falava inglês, francês e alemão corretamente. Ofereceram-me logo trabalho lá! E antigamente nós éramos tratados como os influencers hoje em dia. Éramos os influencers do turismo! (risos) Estavam sempre a oferecer-nos viagens para depois vendermos os destinos. Lembro-me de pensar: ‘Eu nunca vou ter problemas, porque tenho capacidade para fazer o que eu quiser’. Não tinha experiência nessa altura, mas não tinha medo! A minha ideia era conhecer o mundo. Sair da Madeira era o meu objetivo!
Sente que o facto de ter crescido numa ilha lhe dificultou o percurso? As coisas poderiam ter acontecido mais rápido se vivesse, por exemplo, em Lisboa?
Não acho! Acho que me deu aquela garra que as pessoas das ilhas que saem de lá têm. Há dois tipos de pessoas nas ilhas… Ou as que adoram lá estar – a minha família quase toda –, e que ninguém as tiraria de lá por nada, ou aquelas que vão à luta. Eu e o meu irmão mais novo fomos os dois. Os meus sobrinhos vieram para cá estudar e já voltaram. Há lá uma qualidade de vida muito diferente, mas eu queria conquistar o mundo. Claro que se eu tivesse nascido em Paris, em Milão, Nova Iorque, a minha vida seria outra, mas a Madeira fez-me aquilo que sou hoje.
Tem uma história muito engraçada sobre a entrevista de emprego para guia turística. Disse a um dos homens que a entrevistou que o seu objetivo era tirar-lhe o lugar. Isso também demonstra que sempre foi uma pessoa muito ambiciosa?
(risos) Eu tenho as palavras na ponta da língua. Claro que assim que o respondi, me arrependi. Não pensei. Meu deus… Fui tão espontânea. Eu acho que quando nós fazemos alguma coisa, temos de querer ser dos melhores. O meu objetivo de vida não era ser empregada de uma agência de viagem! (risos) Ele era o dono e o meu objetivo era chegar aí. Eles acharam imensa graça e convidaram-me logo para trabalhar. A verdade é que eu fui mesmo muito feliz. Nessa altura eu era funcionária da agência e nunca trabalhava menos de 10 horas. Ia para lá ao fim de semana. Ia fazer viagens para conhecer os sítios, depois organizava as viagens, vendia os bilhetes e ia como guia. Era tudo completo! (risos) Lembro-me de passar noites inteiras e emitir bilhetes à mão! Fazia tudo! (risos) Era um prazer imenso. Para mim trabalhar nunca foi uma chatice. Mesmo!
O que é que foi mais desafiante nesse trabalho? Numa altura em que não havia telemóveis nem computadores, planear uma viagem, rezar para que nada falhasse…
Nem imagina… Aconteceu-me de tudo! Desde chegar a um sítio e o transfer falhar e eu ter grupos de 50 pessoas… Arranjar táxis para levá-los a todos até ao hotel. Não havia telemóveis para ligar para a agência e pedir ubers! (risos) Qual uber? Nada! Eu era muito nova mas pensava muito rápido. Habituei-me a ser líder. Detesto ser patroa, mas gosto muito de ser uma líder de equipas de trabalho. É assim que eu trabalho. Tenho pessoas comigo há 33 anos, o meu braço direito está comigo há 26. Gosto muito de trabalhar com pessoas que me entendem, quase que já somos família! Um desfile meu não é meu, é nosso! No final estamos todos abraçados e estamos todos de parabéns. É importante ter a noção que sozinhos não fazemos nada! Às vezes as pessoas esquecem-se disso. Eu sozinha não faria nada!
A maneira como olha para a moda tem mudado muito ao longo do tempo? Lembra-se o que é mais a chamou a atenção neste universo?
Eu sempre tive noção que não percebia nada de moda. Sempre fui muito sensata. Tinha muita garra, coragem, muita imaginação, criatividade, tinha um estilo formado e não tinha dúvidas do que queria, mas também tinha consciência que não percebia nada de moda. Comecei por abrir uma das primeiras concept store de Lisboa e viajava muito. Ia a Paris, Milão e Londres buscar coisas diferentes. O facto de falar línguas facilitou. Fiz isso ao longo de dois anos, viajei pelas feiras de moda. Decidi que ia tirar um curso prático. Só lancei a marca quando senti que tinha capacidade para isso. Só nessa altura é que eu senti que podia dizer que era uma criadora de moda. Se não percebes é necessário ir tentar perceber! Descobrir como se faz. Depois, mais uma vez, percebi que Portugal era pequeno. Em Paris era possível e quando entrei nesse mundo (fui a 1º portuguesa a entrar na Paris Fashion Week), a realidade era outra. A minha concorrência eram as maiores multinacionais do mundo! Mas ter como concorrência os maiores, nunca me assustou! (risos) Era um desafio! Fiz 43 desfiles consecutivos em Paris. Nunca fiz um desfile em que não tivesse sala cheia. Não tinha o poder financeiro que os outros tinham, mas sempre primei pela originalidade, por ter um estilo muito próprio.
O que é que mais a distinguia de outros criadores no princípio?
Acho que foi precisamente o estilo. Foi isso que me abriu portas em Paris. Eu não era igual a ninguém. Quando cheguei em Lisboa fui logo catalogada como a «sexy».
O empoderamento feminino…
Na altura não tinha essa noção. Hoje em dia ouvimos falar muito sobre isso, não é? Eu era naturalmente assim. Eu cresci no clube naval em biquíni, com calções e top. O corpo para mim nunca foi um tabu. Esconder o corpo para quê? Eu sempre joguei com a sensualidade. O corpo é para ser valorizado e não escondido. Se em Lisboa já era diferente, em Paris era muito mais! Era um clima frio e não havia marca nenhuma que tivesse essa sensualidade. Acho que foi isso que me fez vingar. Eu era completamente ousada e não me importava nada de chocar! (risos) Eu ria-me imenso com isso. E ultimamente tem-me acontecido uma coisa muito engraçada… Pessoas com alguma idade, negras, virem agradecer-me porque eu as empoderei. Quando comecei na moda tinha dois modelos como imagem de marca que eram negros, lindos. Naquela altura isso não era normal. Sempre fui inclusiva, mas nunca fiz isso conscientemente. Sempre o fiz porque achava as pessoas lindas. Gosto da diferença. Hoje em dia um desfile meu é 100% inclusivo. Modelos mais altos, mais baixos, mais gordos, mais magros, brancos, asiáticos, africanos… Não importa. As pessoas são bonitas cada uma com a sua diferença! Antigamente não era consciente, mas acho muito engraçado que as pessoas me venham falar disso! É uma evidência!
Falamos cada vez mais de diversidade e inclusão. No passado foi natural, agora faz mesmo questão que assim seja? A moda deve servir a todos…
Eu tenho a minha agência de modelos – Face Models –, e nós temos vários departamentos. Tenho o departamento plus size, o departamento de mais de 40 anos, de modelos mais baixos. Há lugar para todos! E faço questão que essa inclusão seja real, não é pensada porque é moda. Porque agora é moda. Já o fazia. Numa altura em que as manequins eram muito magras, eu sempre tive manequins com curvas. Sempre fiz o oposto daquilo que a moda ditava! (risos)
Os seus trabalhos mais conhecidos incluem o biquíni, avaliado em um milhão de dólares, apresentada na Paris Fashion Week em 2001, que lhe valeu um lugar no Guinness World Records. Em 2011, foi convidada pela Fédération Française de la Couture para abrir a Paris Fashion Week com o primeiro desfile de sempre na Torre Eiffel… Foi pioneira em muita coisa. Isso deu-lhe um grande sentido de responsabilidade?
Eu sou muito descontraída. Claro que em Paris há um enorme sentido de responsabilidade. Eu só parei Paris com a pandemia. Fiz o último desfile no final de fevereiro de 2020. Viemos todos no avião já com máscaras… Terminei o desfile e fechei as portas, não deixei entrar os jornalistas…Os manequins estavam todos cheios de medo. Viemos para cá e parámos todos. Normalmente costumava começar a organizar um desfile com seis meses de antecedência… Comecei a ver que não estava a ser possível. A minha vida mudou e transformei-a numa paz de espírito (risos). Era uma coisa que eu não tinha. Terminava um desfile em Paris, a responsabilidade era tanta que eu estava já a organizar o seguinte. Quem decidia a data e o horário eram eles… Não era o prazer que era agora! (risos) Agora faço o desfile no dia que eu quero, onde eu quero, com o meu público! Hoje em dia acho que já não tenho de provar nada a ninguém!
Desenha 100% daquilo que tem a etiqueta Fátima Lopes e envolve-se inteiramente em cada desfile. Não sente cada vez mais vontade de tirar um pouco de «peso» de cima dos seus ombros?
Eu tenho uma equipa grande, mas sou um bocadinho workaholic. Num desfile gosto muito de organizar tudo de A a Z. Claro que a minha equipa ajuda muito. A única coisa que faço sozinha é idealizar e desenhar a coleção. Ninguém dá opinião. Toda a gente sabe que é assim. Enquanto eu tiver saúde assim será! (risos) Neste último desfile tinha 78 modelos em passerelle. Preciso de uma equipa para ajudar em tudo, claro. Quando organizo um desfile é só enviar mensagem para todos. Eu sei que não tenho de me preocupar com cabelos, maquilhagem, com música, com os manequins. Isto funciona muito bem! Normalmente temos o retorno daquilo que damos. Como dizia há pouco, são poucas as pessoas de quem não gosto. Estas pessoas estão comigo há muitos anos e acho que iremos continuar.
Não desenha todos os dias, pois não? Como é que lida com os períodos de menos inspiração?
Curiosamente, quando eu preciso mesmo de desenhar, eu tenho inspiração. Trabalho bem sob pressão. Se me dizem: «Tens de fazer isto numa semana!», eu faço! Quando falta muito tempo, parece que a imaginação não aparece! (risos) Mas também já aprendi a começar a fazer as coisas com mais tempo.
Há muita gente que desconhece, mas a Fátima também faz desenhos para hotelaria, em particular para todo o grupo hotel Savoy. É um desafio desenhar fardas?
Não são apenas os desenhos! Eu faço os conceitos de A a Z. Trabalho com vários grupos, mas o grupo Savoy são os hotéis praticamente todos e faço coleções mesmo para eles. Cada hotel tem coleções exclusivas, com cores exclusivas e modelos exclusivos. É uma coisa que eu faço paralelamente. É um prazer fazer isso porque me dão liberdade! Se fossem coisas tipo catálogo, não faria. Quando me dão liberdade para criar, contam comigo!
Nos seus desfiles, por norma, tinha 60 modelos a desfilar. Desta vez foram 78! Por isso, teve de ter pelo menos esse número de outfits. Por norma, como nasce uma coleção?
Quando estava em Paris trabalhava muito com temas por causa da imprensa de moda especializada. Quase que era obrigatório ter um tema. Hoje em dia começo a desenhar e depois dependendo do sítio onde vai ser acabo por seguir “uma linha”. Muitas vezes tem a ver com uma viagem que eu faça, uma música, um filme, uma exposição, um livro que me inspire. Começo nessa base, depois é escolher os tecidos e começar a desenhar. São muitos anos, é muita experiência e sei perfeitamente como hei de começar uma coleção. Tenho muita noção das coisas e vai acontecendo.
Na sexta-feira de 17 de outubro apresentou a sua última coleção no Pestana Palace, em Lisboa O que sente nesses momentos? Continua a ser sempre um momento de nervosismo/ entusiasmo?
As coisas ficaram prontas muito cedo, por isso eu estava muito tranquila. Muitas vezes o stress é o sitting. Quero sempre deixar as pessoas importantes à frente. Quando digo importantes são os clientes, os amigos, os jornalistas, as figuras públicas. Não tinha espaço na primeira fila para toda a gente, isso é sempre um stress. Normalmente eu sento as quatro primeiras filas, no mínimo. Nomes marcados. Gosto desse miminho, mas dá muito trabalho.
Mas estava tudo muito bem organizado… Este ano tinha muitas figuras públicas. Fiz a roupa a pensar nelas. Claro que há sempre aquele pequeno nervosismo, mas quando começam a chegar as equipas, acalma tudo. Quando faço um desfile é tudo testado com antecedência, não é na hora que vou perceber que a roupa não veste bem. Isso não acontece! Na verdade acho que não é nervosismo, é adrenalina! Vivemos isto todos juntos. É mesmo uma animação. A seguir ao desfile eu caiu para o lado e preciso de descansar pelo menos dois dias! (risos) Os dias de desfile são mesmo felicidade pura. Quando eu entro na passerelle no final, o meu sorriso é de orelha a orelha, é mesmo verdadeiro. «Consegui! Obrigada!». E é mesmo «obrigada a toda a gente». Apresentar uma coleção é mesmo uma felicidade. Ver as coisas a passar do papel para a passerelle.
Como é que caracteriza a coleção?
Esta é uma coleção mesmo muito especial. Este vestido e os sapatos fazem parte dela. Isto é camurça, uma camurça molinha. Se tocar aqui pode ver como é confortável. Trabalhei com materiais muito nobres. O início do desfile foi todo em camurça e havia uma parte de camurça misturada com pura lã, neste tom de cor de vinho escuro. Gosto muito desta cor. Mas depois tinha materiais muito diferentes. Puras lãs prensadas com efeito de cobra, tinha uns casacos de pura lã e alpaca. Tudo muito trabalhado. Fiz também vestidos casuais, de cocktail, malhas… Na verdade eu fiz uma coleção para mim, para as várias ocasiões do dia e da noite! (risos) Também tinha muitas rendas, sedas…
Já a roupa de homem é cada vez mais uma grande aposta, porque acho que havia uma grande lacuna no mercado masculino. Aposta-se pouco na diversidade da roupa de homem. Eu comecei há uns anos e é uma aposta ganha. Os homens, os jovens de espírito, querem coisas diferentes. Não querem aquela roupa monótona. Acho que fiz mesmo a minha coleção de sonho!
Há mais de 30 anos que tudo o que veste é feito por si. Até as coisas mais básicas? Pode falar-me um bocadinho mais sobre isso?
Tudo o que eu visto faz parte das minhas coleções. Este já é meu. (risos) Na verdade eu faço calças simples do dia-a-dia para usar com ténis, faço camisolas, coisas mais práticas. Por isso é que as coleções são tão completas. Se eu tiver uma reunião de trabalho gosto de estar impecável… Mas eu faço roupa mesmo para todas as ocasiões. Até para ir a discotecas. É tudo pensado para mim! (risos)
Qual a sua opinião sobre a fast fashion? Antigamente parecia que as pessoas tinham vergonha de ser apanhadas a usar imitações, agora parece que se orgulham de encontrar a melhor imitação ao menos preço…
Eu já disse isto publicamente e inclusive fui levada a mal por algumas pessoas. A verdade é que eu entendo que seja bom para o consumidor, muita gente não tem dinheiro para comprar marcas. Mas não consigo respeitar quem vende contrafação – é uma coisa que me tira do sério. Acho que esta fast fashion é uma aberração. Nós temos peças à venda a um preço mais barato do que o que me custam a mim as linhas… Ora, isto só é possível se não se respeitar os direitos humanos, se for feito com mão de obra escrava! Eu sei quanto é que custa produzir uma peça… Isso não pode ser respeitado. Sei que há marcas que vivem muito bem das cópias, mas nunca entrei numa dessas lojas! Apesar de entender o público que compra, não consigo respeitar os que vivem do trabalho dos outros. Eu sei o que me custa criar, o que me custa manter uma empresa sendo justa.
Parece que o tempo não passa por si. Como lida com o envelhecimento?
Obrigada! (risos) Ninguém gosta de envelhecer, não é? Mas não sou aquela pessoa que pensa na morte. A morte não me assusta. Só me assusta uma coisa: perder qualidade de vida. Isso é que eu não quero. Eu quero viver enquanto eu tiver saúde. Claro que eu tenho pena de não ter 20 anos, mas acho que a idade me tem ajudado a perceber que cada fase é uma fase. Já não tenho paciência para discotecas, por exemplo. Era uma coisa que eu adorava. Mas quando estamos de bem com a vida, que é o meu caso, vamos descobrindo outro tipo de coisas que nos dão prazer. O que eu faço é viver exatamente da maneira que me apetece, fazer o que me apetece. Adoro estar em casa, que era uma coisa que eu detestava. Quando está frio ficar no sofá a ver uma série, coisa que não tenho tempo, mas adoro. O meu casamento é recente e tenho um marido que pensa exatamente como eu. Nós divertimo-nos com tudo! Criámos uma cumplicidade. Estamos nesta vida por bem! Temos de viver o melhor possível.
Eu sinto-a muito feliz. Parece-me mesmo uma pessoa muito feliz…
Eu acho que sim! (risos) E uma coisa que eu gosto é fazer os outros felizes. Se eu entro na empresa e alguém me diz «bom dia», com uma cara mais triste, eu tento perceber o que se passa. Normalmente a minha equipa também está feliz.
Tem alguns segredos para manter a boa forma?
Não há milagres! (risos) Eu nunca fumei, não bebo álcool, no máximo um copo de vinho ou champanhe ao jantar… Não apanho sol na cara, tento fazer exercício e não como uma data de coisas. Bani da minha alimentação tudo o que é glúten, laticínios substituí por cabra… Iogurtes, manteigas, queijos, é tudo de cabra. Não como gorduras, não como fritos. Tento ter uma alimentação saudável, apesar de não ser radical. Não como porco, mas no natal abro uma exceção. Se me apetecer um doce também como um doce. Tento ter uma vida saudável. As pessoas têm de se mentalizar que nós temos de cuidar do nosso corpo e com a idade mais ainda.
«Deixar de trabalhar seria deixar de viver», disse numa outra entrevista… Isso significa que vai trabalhar até que as suas mãos não permitam mais? O que é que falta fazer?
Continuar! Quero continuar a fazer tudo o que faço neste momento, de maneiras diferentes, claro. O tempo vai-nos mudando, mas quero continuar a viajar, a namorar, a trabalhar naquilo que eu gosto! Quero continuar a viver! A cantar! Adoro brincar ao karaoke em casa. Eu e o meu marido viramos duas crianças em casa a cantar. Desafinamos, não interessa nada! (risos) Isto é fundamental. Não nos levarmos muito a sério! Foi assim que começámos esta conversa, não foi? (risos) Que consiga sempre brincar comigo mesma!