Marina Abramovic, a mãe da arte performativa

Perto de completar 80 anos a artista sérvia promete deixar um marco na história com a sua mais recente performance “Balkan Erotic Epic”.

Se a arte é a expressão da nossa capacidade criativa e a forma como nos colocamos em situações limite através do conteúdo dos nossos sentimentos e emoções, ela é também o reflexo e a imagem da nossa sociedade ou de como a projetamos. É por isso tão incomoda, às vezes brutal, outras mais sensível, mas sempre com o intuito de nos chamar a atenção para algo. Dentro desta aérea tão heterogénea e multiforme existe como em tudo na vida, quem nos capte mais a atenção, nos faça apreciar e nos coloque um peso quase incómodo de nos deixar a pensar. No que à arte contemporânea diz respeito, sou um admirador confesso de Marina Abramovic. Sigo o seu trabalho há largos anos. Marcou-me sobretudo quando em 2010, numa performance chamada “The Artist is present”, decidiu colocar-se sentada numa cadeira, ao centro de uma sala, enquanto quem estava no público era convidado a passar durante um minuto de silêncio à sua frente, um de cada vez, olhos nos olhos, sem palavras. Foi num desses momentos mágicos que reencontrou Ulay, seu companheiro de vida e de espetáculos entre 1976 e 1988, que a surpreendeu sentando-se na cadeira. O momento de cumplicidade merece ser visto e revisto.

Este foi apenas um dos muitos momentos marcantes com que a sérvia já presenteou o seu público. Ela que tem o fascínio por colocar-se em situações absolutamente imprevisíveis. Um dos mais perigosos aconteceu em “Ritmo 0”, uma performance que ficará para a história por colocar a nu a crueldade da natureza humana. Marina colocou-se à mercê do público por seis longas horas e o resultado foi assustador. A ideia era colocar o seu corpo à disposição para que interagissem com ele como bem entendessem. Durante o episódio, foram disponibilizados 72 objetos, entre eles, perfumes, penas, alimentos e flores… Mas também correntes, lâminas, uma barra de metal e, imagine-se, uma pistola carregada. No princípio as pessoas reagiram de forma tímida. Abraços, beijos e carinhos. À medida que o tempo foi passando o clima mudou e começou a ser torturada. Usaram lâminas para lhe escrever palavras no corpo e um membro da plateia chegou a apontar-lhe a arma com o dedo no gatilho. Quando aquelas seis horas finalmente terminaram, a artista levantou-se da cadeira onde fora sentada, a sangrar, e começou a caminhar na direção da plateia, que fugiu dela.

Perto de chegar aos 80 anos regressa agora com “a proposta mais arrojada de sempre”. Após receber o Prémio Nobel da Arte Japonês apresenta-nos um espetáculo que mais parece uma consagração de carreira. Compressores de seios, orgias de esqueletos, pénis de 5 metros de altura compõem este novo épico erótico que conta com mais de 70 atores, dançarinos e artistas dos Balcãs que participarão de 13 cenas que encenam rituais, ritos e folclores ancestrais da tradição eslava. Telas, filmes, música e animação acompanharão as apresentações ao vivo que surgem de contos coletados na Albânia, Roménia, Bulgária, Macedónia do Norte, Montenegro, Grécia, Turquia, Sérvia e outros lugares.

A artista que marcou (e marca) gerações mas também a própria essência da arte contemporânea, que explora a dor e a resistência através de exercícios únicos está neste momento em tournée internacional. Se gosta de viagens culturais e se aprecia arte da forma mais crua e intuitiva este promete ser um espetáculo imperdível daquela que é considera a mãe de todas as artistas performativas. Também de 6 de maio a 19 de outubro de 2026 a Gallerie dell´Accademia de Veneza sediará pela primeira vez na sua história uma exposição individual de uma artista viva. Uma boa oportunidade para ver a transformação do museu num espaço vivo onde corpo, energia e história se encontram.

A descobrir:

Normalmente os grandes centros comerciais não são espaços de restauração afinada. Ali a comida é um apêndice e quer-se rápida. O “Balcão” do chef Sá Pessoa no El Corte Inglês é uma das poucas exceções. O prego de choco, a feijoada do mesmo ou a salada de rosbife são apenas alguns dos pratos que me fazem voltar vezes sem conta com a minha mãe.

Uma música para dançar no fim de semana:

Spiral – Goldtooth