
Dou cursos de formação comportamental em Empresas há mais de 20 anos. Sempre que o curso tem mais do que três horas de duração, e é comum terem 6 a 8 horas, fazemos uma apresentação em que cada pessoa diz quem é. A apresentação é livre, mas mandam as regras dos grupos que quem vem primeiro marca o tom do discurso, por isso, o habitual é as pessoas seguintes obedecerem ao mesmo esquema de resposta. Faz parte de viver em grupo, procuramos dizer coisas que pareçam aceitáveis para quem está à volta e nada mais seguro do que percorrer as passadas da primeira pessoa que se apresentou. E esta geralmente começa por dizer se é casada, vive em união de facto ou sozinha, o número de filhos, hobbies, animais de estimação, viagens e desejos para o futuro. Estes exercício de quebra gelo em que as pessoas falam de si ajudam a criar relação, encontrar afinidades e aumentar a sensação de pertença no grupo onde estão.
Fazendo as contas por baixo, nos últimos vinte e dois anos vi 12.000 pessoas fazerem este exercício de apresentação. E apenas uma vez houve uma pessoa que referiu viver com o namorado, formando por isso um casal do mesmo sexo. Estima-se que 5% a 10% da população se identificará como LGBTQI+, pelas minhas contas seria 0,0083%. E a minha amostra está enviesada não só porque somos uma Democracia Europeia, mas também porque trabalho sobretudo com gestores e quadros superiores que comunicam a sua vontade de ter como valores da Empresa a Diversidade, Inclusão e Segurança Psicológica. Em teoria seriam as pessoas mais privilegiadas e protegidas da sociedade. Poder apresentar-se livremente ou falar despreocupadamente com os colegas de trabalho sobre o que fez no fim de semana, sem filtros nem omissões, não está acessível a todos. Quando trago este assunto há sempre alguém que responsabiliza o próprio: «mas também têm de ser as próprias pessoas a afirmar-se e a terem coragem de o fazer». Trabalho individualmente com pessoas para aumentarem a sua autoconfiança e amor próprio e, assim, poderem viver com menos sofrimento em ambientes hostis, mas parece-me injusto esperar que seja a pessoa que se poderá sentir mais vulnerável nesta situação a ter de correr o maior risco. E demite todos os outros do seu papel na promoção a sério de um ambiente onde há segurança psicológica, diversidade e inclusão. Digo todas as outras pessoas porque ninguém precisa de ser chefia de uma equipa para se posicionar perante uma macro ou micro agressão homofóbica. Mas se for chefia de uma equipa, então não é sequer uma opção ficar em silêncio, faz parte da descrição da função garantir a segurança e bem estar das pessoas que reportam a si. Nesta altura costuma aparecer um silêncio pesado e algumas reações como «também está a exagerar…» ou o clássico «já não se pode dizer nada…». Pode-se dizer tudo contando que se aceitem as consequências do que se diz. Nomeadamente as consequências de ter escrito nas paredes e no site frases grandiosas e humanistas identificadas como “os nossos Valores” e no dia a dia viver ao nível baixinho da piadola fácil.