
Na mesma semana, em dois canais diferentes, dois protagonistas televisivos levantaram-se do seu lugar sob protesto sem que o debate e a conversa tivessem terminado. Na SIC Notícias, Miguel Prata Roque saiu a meio do seu frente-a-frente em direto com Rodrigo Taxa; na CNN Portugal, André Ventura levantou-se no final da sua entrevista com Pedro Costa, Francisco Rodrigues dos Santos e André Carvalho Ramos.

Obviamente, num mundo polarizado em que todas as situações extremas parecem equivalentes, a opinião pública tenderá a dizer que ambos os casos foram justificados, ou nenhum caso foi justificado, a opinião pública dirá que não se pode concordar com a saída intempestiva de Miguel Prata Roque perante a insolência do seu interlocutor Rodrigo Taxa, e depois ser contra a saída de Ventura do debate na CNN quando Pedro Costa lhe perguntou porque berrava tanto. Mas na verdade pode-se ser a favor de Miguel Prata Roque, que foi mandado calar por Rodrigo Taxa, e ser contra a atitude de Ventura, que apenas ouviu de Pedro Costa uma pergunta idiota. Se estivesse a meio da entrevista, Ventura não se teria levantado da mesa, mas, como estava no final do evento, não teve nada a perder, pelo contrário, teve a ganhar uma saída performativa daquelas que influencia o algoritmo das redes sociais. “Marketing da lágrima”, escreveu-se por aí.

Há algo que gostaria de adicionar em relação à entrevista da CNN Portugal a André Ventura: foi só a segunda entrevista de Ventura na mesma semana nas nossas televisões, foi a terceira em oito dias, foi a quarta depois das autárquicas, foi a trigésima-sexta este ano. Acho um understatement afirmar que Ventura é apenas “convidado” pelas televisões, ele na verdade está em digressão cíclica pelos nossos orgãos de comunicação social, e a maioria dos canais prefere recebê-lo duas vezes-mês debaixo de polémicas a correr riscos editoriais de não o ter em estúdio ou tê-lo na concorrência. A CNN, num momento de rara ironia, ainda se tentou salvaguardar, assinalando que “não é um debate, não é uma conversa, é uma entrevista especial”. Foi uma entrevista especial-de-corrida que serviu como tempo de antena – do entrevistado e dos entrevistadores.

O marketing da lágrima não chegou a ser aplicado no longo debate de 70 minutos entre os dois candidatos à segunda volta das presidenciais do Benfica que ocupou as muitas horas de antena dos cerca de 483 canais nacionais numa destas noites passadas.
É verdade que ambos os candidatos foram frouxos no seu compromisso e assertivos na sua moderação, pelo que o interesse se reduziu aos momentos de maior tensão fantasiados pelos rodapés da CMTV, quando os candidatos começaram a falar na terceira pessoa, recurso comum na informação desportiva aplicado habitualmente por egomaníacos ou mitómanos em momentos de falsa humildade. Em suma, terei de concordar, uma versão lúdica do marketing da lágrima.
Do lado oposto do marketing da lágrima está um dos últimos guerrilheiros, António Garcia Pereira, irredutível na sua nobre missão de combater os moinhos de vento e exigir ao Procurador-Geral da República a extinção do partido neofascista Chega por violação da Constituição e outros quejandos. O que nele reconhecemos não é lágrima – é suor; não é marketing – é acção directa. Garcia combate a discriminação e as ameaças à democracia, e um dia destes, num futuro remoto, depois de muitos garcias pereiras entretanto terem tombado, ainda iremos contar aos netos a história dos tempos em que este Garcia Pereira parecia ser o único adulto na sala.

Muita gente considera Garcia Pereira um louco, por continuar a fazer o que precisa de ser feito, como se o mundo e a justiça que ele procura fossem já uma quimera nos tempos que correm, e muitas vezes penso que desse louco todos temos um pouco, a começar por Miguel Esteves Cardoso, que, nas suas crónicas diárias escritas para além do sol posto, retrata uma realidade por vezes surreal, uma ruralidade por tantos inalcançável, conseguindo a proeza de praticamente todos os dias no Público escrever sobre algo que não tem qualquer interesse para ninguém, seja a lampreia ou as castanhas com laranja, seja a passagem dos calendários e os cultivos sazonais, sejam as mulheres ou a Maria João lá de casa, custa-me muito ver o mundo em chamas e o MEC mandar vir mais um travesseiro na sua pastelaria de Sintra, mas ele é que está bem, ele é que tem razão, é a bolha que nos salva, é muitas vezes para a bolha dele que nos apetece fugir, não se trata apenas de escapismo mas de mera sobrevivência. Salvé.

Numa semana em que o eterno Preço Certo da RTP esteve debaixo de polémica, por causa de uma crónica devastadora da escritora Isabel Figueiredo no Expresso, e das reacções agrestes de quem não concordou com o eventual elitismo dos seus argumentos, eu queria aproveitar para escrever umas linhas sobre um programa da TVI chamado Momento Certo, que passa aos sábados, e é uma espécie de Preço Certo das emoções, não há qualquer materialismo a ser transacionado, não há carros a ser oferecidos, nem sequer a Lenka à vista, todos os bens em questão são imateriais, as famílias que se revêm, os amigos que se recuperam, a memória que resiste. Nada no programa é novo, tudo parece um “redon” (restos de ontem) de produções que já nos anos 90 eram foleiras e agora são tão foleiras quanto a palavra “foleira”, mas há algo de enternecedor e outonal no Momento Certo, se calhar é o facto de ele aparecer num momento certo em que mais precisamos de coisas humanas destas, e este “programa de superação” conseguir ele próprio superar-se. Mesmo o apresentador, João Patrício, com aquele ar de segurança de discoteca, parece ser o porto seguro de Momento Certo, ele não precisa de ser interventivo e insistente como o Goucha tantas vezes é, basta-lhe não interferir na narrativa trazida pelos convidados, a missão dele é estar ali por omissão, o João Patrício tem uma rudeza que se desfaz, ele é o bom gigante que sabe ser pequeno perante a grandeza dos actos que o programa consagra. “Sem pressas nem pressões”, como o próprio diz. Em suma, muita lágrima, pouco marketing.
