Juan Carlos fala pela primeira vez sobre ter matado o irmão e sonha fazer as pazes com o filho, rei de Espanha

Rei emérito quebra o silêncio sobre a tragédia que marcou a sua juventude e admite sentir-se abandonado por Felipe VI. Livro de memórias de Juan Carlos promete abalar Espanha e o mundo.

Passaram quase sete décadas desde a Quinta-feira Santa de 1956, mas a dor nunca desapareceu. Aos 87 anos, Juan Carlos I decidiu finalmente falar sobre o episódio mais traumático da sua vida: a morte do irmão Alfonso, com apenas 14 anos, atingido por um disparo fatal durante o que deveria ser uma simples brincadeira entre irmãos. As revelações surgem no livro “Reconciliação”, escrito com a jornalista francesa Laurence Debray, lançado esta semana em França e previsto para Espanha em dezembro.

O disparo que mudou tudo

Num breve capítulo intitulado “A tragédia”, o rei emérito revela pela primeira vez os momentos que antecederam a morte de Alfonso, ocorrida a 29 de março de 1956 na Villa Giralda, residência familiar no Estoril onde a família real espanhola vivia exilada.

Juan Carlos confessa que ambos manipulavam uma pistola, convencidos de que o cartucho tinha sido retirado. “Tínhamos retirado o cartucho. Não fazíamos ideia de que ainda havia uma bala na arma”, escreve na obra de 512 páginas. O disparo acabou por atingir mortalmente o irmão mais novo.

A tragédia marca-o diariamente. “Perdi um amigo, um confidente. Ele deixou-me com um vazio imenso. Sem a sua morte, a minha vida teria sido menos sombria, menos infeliz”, admite o antigo monarca, reconhecendo que nunca se recuperará completamente do sucedido.

Durante décadas, as circunstâncias exatas do disparo permaneceram envoltas em mistério. Não houve investigação judicial na altura, numa decisão que terá tido a cumplicidade dos regimes ditatoriais então vigentes em Espanha e Portugal. A versão oficial limitou-se a falar de um acidente durante a limpeza da arma.

A ferida que não cicatriza com o filho

Para além de revisitar o passado trágico, Juan Carlos dedica várias passagens do livro à relação deteriorada com Felipe VI, confessando sentir-se incompreendido e rejeitado pela família.

O ponto de rutura terá ocorrido quando o atual rei lhe comunicou a decisão de retirar o subsídio financeiro que recebia após ter abdicado em 2014. Juan Carlos relata que o filho se manteve indiferente durante o encontro. “Este anúncio significa que me renegas”, terá dito, acrescentando uma frase dura: “Não te esqueças que estás a herdar um sistema político que eu forjei. Podes excluir-me a nível pessoal e financeiro, mas não podes rejeitar a herança institucional em que te apoias.”

O rei emérito admite compreender que Felipe precise de ser firme enquanto monarca, mas considera doloroso que se mostre distante enquanto filho. “Senti-me sozinho perante os ataques dos meios de comunicação social e um dilúvio de notícias falsas”, lamenta.

A reunião decorreu no antigo gabinete de Juan Carlos, com a presença de Jaime Alfonsín, então chefe da Casa Real, que o rei emérito responsabiliza parcialmente pelo afastamento familiar.

O desejo de voltar a casa

Apesar da mágoa, Juan Carlos manifesta esperança numa reconciliação. “Só quero paz e reconciliação com a minha família”, escreve, confessando que gostaria de retomar uma relação próxima com o filho e as netas, a princesa Leonor e a infanta Sofia.

O antigo monarca, figura central na transição de Espanha para a democracia após a morte de Franco em 1975, revela ainda o desejo de passar a reforma no seu país e ser sepultado com honras de Estado.

“Espanha deu-me muito e também me tirou tudo”, reflete o rei emérito, que vive em Abu Dhabi desde 2020, após escândalos financeiros relacionados com alegadas comissões milionárias e fundos em paraísos fiscais.

Outras revelações do livro

Juan Carlos aproveita as memórias para desmentir boatos que o acompanharam ao longo dos anos. Nega categoricamente uma alegada relação extraconjugal com a princesa Diana, descrevendo-a como “fria e distante”, e afirma que a maioria das relações amorosas atribuídas pela imprensa eram falsas.

Sobre a rainha emérita Sofia, escreve palavras de reconhecimento, descrevendo-a como uma mulher “excecional, íntegra e bondosa”. Numa confissão que pode surpreender muitos, revela que admirava e respeitava profundamente o ditador Francisco Franco.

A publicação de “Reconciliação” em Espanha está agendada para 3 de dezembro, data que coincide com o 50.º aniversário da morte de Franco e da restauração da monarquia espanhola. Resta saber se as revelações contribuirão para a reconciliação familiar que Juan Carlos tanto deseja ou se abrirão novos capítulos numa história já marcada por tragédia e controvérsia.