Entre os 4 + 1 candidatos com possibilidade de passar à segunda volta, António José Seguro, Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes visitaram as comunidades portuguesas no estrangeiro, onde, nos últimos anos, tem sido visível o crescimento do Chega, de André Ventura, que ainda não viajou para fora do país em pré-campanha, mas que o vai fazer, pelo menos foi o que garantiu ao Nascer do Sol uma fonte ligada ao candidato. Cotrim de Figueiredo ‘viveu’ na Europa nos últimos tempos, mas não parece que isso se vá refletir nos resultados das presidenciais de forma muito significativa.
Entretanto, convém dizer que o peso do voto dos emigrantes nas presidenciais é quase residual: não corresponde a mais de 2% do número de eleitores inscritos – muito abaixo do voto nas legislativas, que continua a não ser entusiasmante, situando-se nos 5% -, e representa menos de 1% do total de votantes.
Nas últimas eleições presidenciais, em 2021, que reelegeram Marcelo Rebelo de Sousa para o cargo com 60,70%, o resultado do presidente reeleito foi de 52,65% na diáspora. A abstenção nos círculos da Europa e fora da Europa esteve acima dos 90%. Dos 1.549.380 votantes inscritos, apenas 29.152 votaram.
Uma outra nota: em Portugal, e ainda a propósito das presidenciais de 2021, André Ventura obteve 496.773 votos, correspondentes a 11,90%, mas nos círculos eleitorais fora do país esse valor sobe para 12,55%, o que representa 3.613 votos.
Uma tendência que também se verifica nas legislativas. Em maio de 2025, o Chega obteve 22,76% nos resultados globais e 26,15% no estrangeiro, onde foi o partido mais votado; em março de 2024, 18,07% nos resultados globais e 18,30% no estrangeiro, também como o partido mais votado. Recuando até 2022, logo após a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa e com André Ventura como candidato, o Chega obteve 7,18% nos resultados globais e 8,02% no estrangeiro. Entre 2022 e 2025, a subida do Chega em Portugal e no estrangeiro corre a par, com ligeira vantagem para os resultados fora do país. Este é o padrão do eleitorado da diáspora, com o Chega a ganhar espaço e número de votos a cada eleição.
Seguro na Europa
Voltando às presidenciais de 2025, os candidatos já iniciaram as suas rotas pela emigração. António José Seguro foi a França, Bélgica, Luxemburgo e Suíça, onde se demorou alguns dias. A Suíça é atualmente o segundo país de destino da emigração portuguesa, representando 11% da diáspora, uma emigração mais qualificada e exigente.
Seguro falou com o Nascer do Sol sobre esta viagem, referindo que a geração mais jovem “aspira a que a economia portuguesa seja mais competitiva e, consequentemente, pague melhores salários”, e que, entre os menos novos, registou o desejo de que o Estado português funcione “com menos burocracia e, essencialmente, com melhor acesso aos cuidados de saúde e justiça na tributação das suas reformas”.
Entre tudo o que viu e ouviu, ficou com a ideia de que “melhores salários e melhores oportunidades profissionais — nomeadamente a progressão na carreira e o facto de estarem na vanguarda da investigação, da tecnologia e das suas áreas profissionais — explicam a debandada portuguesa para a Suíça”.
Seguro partilha da crítica às dificuldades causadas pelo voto presencial nas presidenciais, quando “na maioria dos casos, o voto presencial obriga a viagens de horas para votar”, o que desincentiva a participação. Ainda assim, chama a atenção para o facto de as eleições de janeiro de 2026 “serem mais competitivas”, com “quatro candidatos em condições de vencer”, e está confiante de que haverá desta vez mais votantes do que em 2021, mas não deixa de defender que “a forma de votar deve ser igual em todas as eleições legislativas e presidenciais” e que “a introdução do voto eletrónico deve ser considerada quando aplicada ao todo nacional”.
O candidato presidencial garante que “se for eleito Presidente da República empenhar-me-ei na dinamização da língua portuguesa” e no “alargamento de mercados culturais e económicos”.
O contacto de Seguro com as comunidades portuguesas não foi neutro. No Luxemburgo, o candidato conheceu Samuel, um jovem português condutor de Uber, que o tocou pelo amor que expressou pelo país e pela preocupação com a mãe e a irmã, que vivem em Portugal. Conheceu também Armindo, um empresário de “coração dilacerado por ter de encerrar o negócio e voltar a Portugal ao fim de 39 anos”, e visitou os terrenos onde foram erguidas as primeiras barracas que mal abrigaram os portugueses que emigraram na década de 1960, os chamados bidonvilles: “Olhei cada nome, em cada tijolo do monumento erguido em sua memória”, disse-nos.
Como contraponto, Seguro trouxe a conversa que teve com jovens que trabalham e investigam em grandes empresas de Zurique, “portadores de inteligência, energia e visão sobre o Portugal do futuro”, que querem ajudar a construir o país com mais iniciativa e menos burocracia.
Quanto ao voto tendencial à direita da diáspora, o candidato disse-nos que espera “dar razões aos portugueses para votarem pela ideia de um Portugal unido, com esperança num futuro melhor que eu represento”.
Gouveia e Melo no Brasil e na Suíça
Gouveia e Melo também realizou diversas viagens junto das comunidades portuguesas, com contactos intensos no Brasil e igualmente na Suíça.
“Portugal é uma entidade muito superior ao seu território”, disse Henrique Gouveia e Melo ao Nascer do Sol. O candidato presidencial, realizou também diversas viagens junto das comunidades portuguesas, depois do Brasil e da Suíça, tem previstas deslocação ao centro da Europa, a países como a Bélgica, França ou Luxemburgo, e ainda ao Reino Unido, se a intensa agenda o permitir.
O candidato disse-nos ainda que os emigrantes portugueses são “pontas de lança da nossa economia e da nossa cultura”, para com quem podemos “ter uma atitude cínica ou utilitária” ou uma “atitude baseada em princípios e valores”. Somos 10 milhões de portugueses num território exíguo, com mais de um milhão e meio de emigrantes espalhados pelo mundo — sem contar com os luso-descendentes —, e é por esta comunidade que, na opinião do Almirante, também passa a internacionalização da economia portuguesa.
Questionado sobre o valor quase residual da votação da diáspora, Gouveia e Melo assume que não viaja “pelo número de votos”, mas com a expectativa de que o seu projeto seja uma oportunidade para todos aqueles que não estão contentes com o que veem em Portugal, que estão desiludidos, e que vejam na sua candidatura “um projeto unificador”. Quer que o olhem como um candidato “de um Partido chamado Portugal” e que vejam na Presidência “um destino comum — menos um lugar de política e mais um lugar de um destino comum”.
À semelhança dos outros candidatos, também considera que o voto presencial é “injusto”, defendendo que não podem existir leis diferentes para os que nasceram e vivem em Portugal, para os que nasceram em Portugal e vivem no estrangeiro, e ainda para os que não nasceram em Portugal mas adquiriram a nacionalidade portuguesa. Uma espécie de recado – está dado.
Mendes em Londres
Luís Marques Mendes reclama vantagem na emigração porque, como fez questão de sublinhar ao Nascer do Sol que “os portugueses no mundo sempre estiveram na sua agenda política”.
Na linha do tempo, recorde-se que, em 1992, Marques Mendes era Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e depois ministro adjunto do primeiro-ministro do XII Governo Constitucional, liderado por Aníbal Cavaco Silva. Tutelava a RTP no ano em que surgiram as televisões privadas e criou, a partir da televisão pública, a RTP Internacional, que iniciou a sua emissão em 10 de julho desse ano. Em 1997, esteve envolvido na revisão constitucional que consolidou e clarificou o direito de voto dos portugueses no estrangeiro.
Em 2025, na pré-campanha eleitoral, lança um manifesto em que assume um compromisso com as comunidades portuguesas e apresenta o ambicioso projeto de “presidências abertas” fora do país, caso seja eleito para o Palácio de Belém, uma medida “inovadora” e em “rutura” com a forma como a Presidência da República tem entendido as comunidades portuguesas no mundo, disse-nos.
Falámos com Marques Mendes sobre o 10 de Junho, mas o candidato presidencial esclareceu-nos que não tem nada a ver: as suas presidências abertas não serão um momento de festa ou celebração, mas sim de atenção aos problemas das comunidades emigrantes. Levará consigo ministros e outras entidades capazes de dar respostas concretas aos problemas dos cerca de 1,4 milhões de emigrantes espalhados pelo mundo – um número que equivale ao dos imigrantes que vivem atualmente em Portugal.
Como candidato apoiado pelo partido que governa o país, perguntámos a LMM se se sentia em vantagem. O candidato isola a questão em si mesmo e diz que os portugueses no mundo “sabem o que tem feito por eles” e que, desde há anos, é “recebido com gestos de enorme afetividade” onde quer que vá. Como candidato, tem vindo a realizar várias viagens ao estrangeiro: já esteve nos Estados Unidos, Luxemburgo e França; recentemente esteve em Londres e na ilha de Jersey, e conta ainda ir ao Brasil e à Suíça.
Luís Marques Mendes, durante a conversa com o Nascer do Sol, fez questão de clarificar que o seu interesse pela diáspora não vem de agora, remetendo para o manifesto onde se pode ler: “Esta minha sensibilidade para a diáspora não é de hoje. É de sempre. Não elogio os portugueses da diáspora apenas porque sou candidato presidencial. Já no passado, noutros momentos e noutras funções, afirmei em atos e iniciativas esta portugalidade global.”
Escrito isto, continua a defender reformas no sistema de voto dos portugueses residentes no estrangeiro, com a introdução do voto eletrónico para aumentar a participação dos emigrantes. É muito crítico do sistema atual, que restringe o voto presencial às eleições presidenciais e não permite voto postal ou digital, considerando-o “injusto” e “precário”. Destacou ainda que, se for eleito, pretende atuar de forma firme junto dos partidos para corrigir essas desigualdades e garantir que os emigrantes tenham o mesmo direito de participação cívica que os residentes nacionais.
A partir de Londres, e depois de uma passagem por “Little Portugal”, um bairro no sul da cidade, Marques Mendes viajou até à ilha de Jersey, onde 15% da população é portuguesa, na sua esmagadora maioria oriunda da Madeira. Ao Nascer do Sol sublinhou que foi o primeiro político nacional a fazê-lo.
Destas viagens, LMM traz uma preocupação fundamental: a incapacidade que o Estado português tem demonstrado em organizar e institucionalizar o ensino da língua nas diferentes partes do mundo onde residem as comunidades portuguesas. João Cancela, professor de Ciência Política na NOVA FCSH – UNL, disse-nos que “apesar de o recenseamento automático ter multiplicado o número de eleitores registados fora de Portugal, o voto presencial continua a limitar fortemente a participação”, acrescentou que “em 2026 é possível que a participação suba um pouco, já sem as restrições e desmobilização associadas à pandemia, mas é também possível que a afluência em Portugal também aumente, o que manterá o peso relativo da diáspora praticamente inalterado.”