Era uma vez na América… de volta às origens

A realidade em Nova Yorque é curiosa. Um Mayor muçulmano, na cidade que tem a maior comunidade de judeus do mundo e onde ser diferente é a principal característica de quem ali vive

Era uma vez uma América que rapidamente se faltou daquele que ainda se apresenta como o seu salvador. Nova Yorque votou claramente na mudança e o discurso de vitória de Zohran Mamdani não deixa nenhuma ambiguidade na leitura . «Trump sobe o Volume», gritou Zohran ao mesmo tempo que lembrava que a cidade foi construída por emigrantes e que eles representam a diversidade que a tornou próspera e marcante. 

A postura de Trump, com uma última ameaça de cortar fundos se o primeiro Mayor muçulmano vencesse as eleições, levou os eleitores a votarem em massa, sem medo e a escolherem uma mudança radical.

Zohran, de 34 anos é assumidamente de esquerda, com uma visão socialista e uma forte preocupação social que chegou a um eleitorado que vê a vida a piorar, o Estado paralisado e um discurso de ódio a dividir as comunidades que sempre partilharam pacificamente o mesmo espaço.

Zohran também para a América, ainda menino à procura de uma vida melhor.

Mas estas eleições têm leituras mais abrangente e marcam a chegada ao poder de uma nova geração. Na  Virgínia e Nova Jérsia,  Abigail Spanberger de 46 anos  e Mikie Sherrill de 53 vencem com grande folga. São democratas moderados, mas ao lado do reforçado governador da Califórnia, semeiam a esperança num campo político que a onda Trump estava a dizimar todas as alternativas.

Há uma nova esperança na América tolerante, que dá sinal nas urnas de não suportar a atual política da Casa Branca. O discurso desta nova geração é radicalmente diferente e está a ter a capacidade de desmontar o movimento MAGA, contrariando o medo e a diabolização dos imigrantes.  A realidade do país, a forma quase autoritária como Trump exerce o poder, a degradação das condições de vida, as suspensões dos apoios alimentares levaram a sociedade a reagir. Falta ainda cerca de um ano para novas e decisivas eleições, mas os sinais de esperança nos Democratas são hoje muito mais fortes. 

Os sinais de fadiga do discurso radical não chegam só da América. Nos Países Baixos os eleitores recusaram nas eleições as pretensões de liderança da extrema-direita e as sondagens em inúmeros países mostram uma saturação com as mensagens de ódio e as crescentes crispações nos debates políticos e sociais.

Será que o eleitorado voltou a perceber que será apenas o voto a arma necessária para travar esta onda crescente que parecia ameaçar as bases do equilíbrio social em que se constrói a normal convivência entre os diferentes povos?

Será cedo para ter uma resposta clara, mas é interessante seguir de perto estes movimentos e perceber o discurso dos que agora se assumem como vencedores, com valores muito mais condicentes com uma sociedade decente, com lugar para todos.

Trump tenta minimizar os efeitos desta noite na América, dizendo que não era ele que estava diretamente a votos. É verdade, mas ele esteve em todas as campanhas, com ameaças, apoio aos candidatos e sempre com a esperança de que isto não acontecesse.

A realidade em Nova Yorque é curiosa. Um Mayor muçulmano, na cidade que tem a maior comunidade de judeus do mundo e onde ser diferente é a principal característica de quem ali vive.

A América, feita por emigrantes deu a resposta e voltou às origens.  Ser diferente e ter diversos credos e princípios foi sempre a chave de sucesso da terra das oportunidades.

Até que ponto esta mudança vai ser lida pela opinião pública dos outros Estados?

Como vai influenciar este nosso mundo inspirando uma nova geração, sem preconceitos e com cultura e saber suficientes para terem soluções para os verdadeiros problemas das pessoas? 

Trump será capaz de travar esta dinâmica e voltar a ter o MAGA forte e mobilizador a tempo de manter o controlo do congresso?

São questões importantes, sem uma resposta óbvia, que apenas o tempo, sempre moldado pelos protagonistas políticos, revelará respostas claras.