Morreram outros, mas isso aconteceu no passado,/ Que é a estação (ninguém o ignora) mais propícia à morte», lê-se nuns antigos versos recolhidos por Borges, e que nos servem de balanço quando chega enfim o dia em que morre um desses responsáveis pelos números que engrossam as estatísticas e a história de tudo aquilo que não se cumpriu. Há aqueles que, chegada a sua hora, talvez sintam a própria morte como algo confuso, deixando-lhes como última impressão o sabor estranho de tantas outras vidas ceifadas. Dick Cheney pertence a essa categoria de tecnnocratas autoritários, figuras em que a política se confunde com a engenharia do poder. O seu nome atravessou meio século de vida pública norte-americana, sempre nos interstícios, entre o visível e o decisório, entre o cargo e a influência. Morre aos 84 anos, mas o seu legado permanece nesse dispositivo que ajudou a consolidar: a ideia de que o poder executivo deve existir em estado de exceção permanente.
Entrou em Washington no final dos anos 1960 como assistente de Donald Rumsfeld, durante a administração Nixon, num tempo em que o país ainda tentava digerir o Vietname e as revelações de Watergate. Em poucos anos, Cheney aprenderia a linguagem da burocracia e da contenção, ascendendo rapidamente a chefe de gabinete da Casa Branca sob Gerald Ford. A sua habilidade consistia em saber mover-se na penumbra, moldar os assuntos antes de estes chegarem à superfície. Depois, como congressista pelo Wyoming, consolidou uma reputação de conservador pragmático e discreto, um operador de bastidores que preferia a disciplina do comité à teatralidade da tribuna. Sob George H. W. Bush, tornou-se secretário da Defesa e supervisionou a operação Tempestade no Deserto, primeira guerra televisiva da era moderna, onde os bombardeamentos pareciam prometer uma guerra limpa e cirúrgica. Foi aí que Cheney aperfeiçoou a arte de controlar a perceção pública da guerra, transformando a destruição num espetáculo de eficácia técnica.
Entre mandatos, tornou-se presidente da Halliburton, conglomerado energético e militar, posição que o colocaria no centro de um complexo industrial-político cuja fronteira entre o interesse público e o lucro privado se tornava indistinta. Quando regressou ao poder em 2001, como vice-presidente de George W. Bush, Cheney não se contentou com um segundo plano. Nas palavras de muitos analistas, ele era o «presidente-sombra», a verdadeira força que orientava a administração. A 11 de setembro desse ano, enquanto o país era atacado, Cheney foi transferido para um bunker subterrâneo e assumiu, por horas decisivas, o comando executivo. Dali emergiria a doutrina que marcaria toda a década: a da guerra preventiva, a da suspensão de direitos em nome da segurança, a da transformação do medo em princípio de governo. Sob o seu impulso, criaram-se as condições jurídicas para a detenção indefinida de suspeitos, a tortura legalizada sob eufemismos administrativos, a vigilância interna massiva e a militarização do discurso político.
Foi também a voz mais tenaz na construção da narrativa que conduziu à invasão do Iraque em 2003. A convicção (ou ficção obstinada) de que Saddam Hussein possuía armas de destruição maciça foi martelada até não dar margem para dúvidas. Quando as provas ruíram, Cheney permaneceu impassível. «Mesmo que soubéssemos o que sabemos agora, faria o mesmo», disse anos depois. A guerra prolongou-se por quase uma década, custou centenas de milhares de vidas, devastou o equilíbrio regional e alimentou novas formas de terrorismo. Mas Cheney nunca reconheceu o erro.
A sua relação com Bush deteriorou-se nos últimos anos do mandato, sobretudo após o caso de I. Lewis ‘Scooter’ Libby, seu chefe de gabinete, condenado por obstrução à justiça no escândalo Valerie Plame. O episódio expôs a ferocidade interna do poder e o ressentimento de Cheney face à recusa de Bush em conceder um perdão total. O vice-presidente saía de cena como figura isolada. Continuou a intervir com regularidade, defendendo as políticas da administração anterior e denunciando o que via como o enfraquecimento do país sob Barack Obama. Reaparecia sempre que a América mostrava sinais de hesitação, como um eco disciplinar do império.
A sua morte chega num momento em que culmina a era que ele ajudou a construir: a da supremacia da segurança sobre a política, da privatização do Estado e da crença de que o poder, para ser eficaz, deve permanecer opaco. Cheney levou às últimas consequências a lógica do Executivo moderno — o sigilo, a unilateralidade, a convicção de que o governo não tem de prestar contas enquanto age «em nome da nação».
Terminou os seus dias em confronto aberto com o trumpismo. Ao lado da filha, Liz Cheney — ex-congressista republicana e uma das vozes mais firmes na investigação ao ataque ao Capitólio de 6 de janeiro de 2021 — denunciou a deriva isolacionista e autoritária do ex-presidente. Em 2021, juntou-se a Donald Rumsfeld, Colin Powell e outros antigos altos responsáveis do Pentágono na assinatura de uma declaração pública que reafirmava que Trump perdera as eleições presidenciais de 2020 para Joe Biden. Anos depois, resumiria o diagnóstico com uma frase seca e definitiva: «Nunca houve um indivíduo que representasse uma ameaça maior à república do que Donald Trump»