Sérgio Sousa Pinto: “A minha ambição política não é a de assumir a liderança do partido”

Deixou o Parlamento, mas não gosta de falar dos motivos. Numa entrevista diferente, o enfant terrible do PS fala do seu prazer pela jardinagem, que vai plantar um roseiral e acabou de comprar três medronheiros. E diz que o Chega ultrapassou todas as linhas do bom senso.

É adepto de jardinagem. Tem rosas no seu quintal? Não tenho, mas o ano passado tentei fazer uma horta, e como só se aproveitou uma couve, decidi converter, este ano, a minha horta num roseiral, no lugar da defunta horta. Por acaso, também tive umas curgetes que misteriosamente descobri lá no meio do matagal. Com um saldo de três curgetes gigantes e uma couve, decidi fazer um roseiral.

Vamos imaginar que fazia uma BD tipo Maus, de Spiegelmann, que animais seriam os líderes políticos portugueses? Se não quiser imaginar o Maus, pode escolher outra.

Acho muito bem que cite essa obra-prima da banda desenhada, em que os nazis são gatos, os judeus são ratos e os polacos são porcos. Como é evidente não vou aplicar nenhum animal a um líder político que possa significar qualquer coisa depreciativa, a respeito dos políticos portugueses. A vida política é muito dura. E se não estão lá as pessoas que nós gostaríamos que estivessem, podíamos interrogar-nos nós porque elas não estão lá.

Vamos imaginar a BD do Astérix.

O ferreiro Cétautomatix e o peixeiro Ordralfabétix seriam os líderes parlamentares.

E os líderes dos partidos?

Um era o bardo (risos], os outros não digo.

Quem era o bardo? (risos)

Como diria o dr. Soares, o tema está esgotado. Teria que pensar mais no assunto, mas de certeza que haveria uma figura para cada um.

O ar enfadado é a sua imagem de marca?

Já me conhece, pelo menos, há 30 anos, mudei de ar?

Acentuou-se. A sua mulher não lhe diz que, muitas vezes, está com um ar enfastiado na televisão?

Não, a minha mulher tem a teoria que, desde que a conheço, tenho muito melhor ar (risos).

Alguma vez se imaginou como estrela das redes sociais, onde os seus vídeos estão sempre a aparecer? Tem consciência disso?

Tenho, porque, às vezes, aparecem sugestões de mim a mim próprio. Mas convém esclarecer que não sei fazer um único vídeo.

Sim, mas estamos a falar de vídeos retirados da televisão. Quais acha que são os mais vistos? O do Lothar Bisky, o antigo homem da STASI, em que ‘entalou’ Rui Tavares? O que disse que o PCP e o BE são excrescências da democracia? As ‘guerras’ com Maria Castello Branco ou Ana Sá Lopes? As bocas a Luís Montenegro quando foi ao Douro ‘resgatar’ os GNR mortos? Quando mandou calar Marcelo Rebelo de Sousa?

Aqui há dias apareceu um que era o dos radares. Achei graça voltar a ouvir aquilo. Lembras-te do dos radares?

Não.

Era a explicar que os radares estão distribuídos por toda a parte, não para garantir a segurança rodoviária, mas para encher os cofres do Estado. Era sobre os radares com limites de 50 Km de hora, absurdos, que só existem para as pessoas se esquecerem de andar a uma velocidade ridícula, para serem taxadas deslealmente pelo Estado, que não é uma pessoa de bem, como é evidente.

Quando atacava o PCP, o Bloco, o Livre, ou o PAN era incomodado na rua?

Não, não, as pessoas, de uma maneira geral, são muito delicadas. As pessoas quando falam com alguém, geralmente, é para dizer coisas agradáveis.

E no partido ninguém lhe dizia nada?

Era o que faltava.

Alguma vez o acusaram de defender o Chega?

Não, há quem me acuse de ser de direita, mas do Chega nunca.

E de elogiar o Chega?

Não consigo imaginar que coisa poderia eu ter dito que algum destituído interpretasse como um elogio ao Chega. Mas neste momento o que se pode dizer em defesa do Chega? Por amor de Deus, eu não digo nada em defesa do Chega. É impossível defender o Chega, é impossível, é impossível. Agora decidiu dedicar-se a incendiar sentimentos xenófobos, contra minorias vulneráveis, já vimos isto na História, como é que é possível? Não há nenhuma comparação que se possa fazer com nenhum outro partido português neste momento.

Como comenta a última sondagem que dá, praticamente, um empate técnico entre AD, Chega e PS?

Não há nenhuma razão que absolva um português, adulto e racional, de votar no Chega, ponto final. Agora temos que tentar compreender o fenómeno, porque existe, e ele existe porque o país está pior, a vida das pessoas está pior do que se pensa. Acabou o discurso da austeridade, acabou o discurso da troika, acabou o discurso do ajustamento, mas o discurso político não reflete a realidade da vida das pessoas. A vida das pessoas é muito mais difícil, há uma sensação de declínio. Há uma sensação de que os filhos vão viver pior do que os pais. Há uma sensação de que não se consegue poupar um tostão. Há uma sensação de que não se consegue sair da cepa torta. Há uma sensação de que não vale a pena trabalhar mais porque o Estado aspira tudo. Há uma sensação de desesperança. E isso gera revolta. E as pessoas não veem alternativas nos dois grandes partidos, que são as duas traves mestras, os grandes pilares do sistema, só veem alterações de detalhe. Diferenças menores. Estávamos há bocadinho a falar deste Orçamento e da despesa. Não interessa se as pessoas têm razão ou se não têm. Há uma parte muito significativa do país que acha que votar no PS ou no PSD é igual.

E daí o espaço de manobra para o Chega?

As pessoas começam à procura de alguma alternativa. Agora que os discursos ideológicos morreram, há alternativa para um enorme grupo populacional, que antigamente estava enquadrado pelos partidos tradicionais, pelo Partido Comunista, pelos outros partidos. Essas multidões transitaram para o discurso que se segue contra o sistema. É contra o sistema, contra a dureza das suas vidas, contra a porcaria do seu dia-a-dia, e contra a falta de uma luz ao fundo do túnel. Se dentro do sistema não veem alternativas, constroem uma nova, em que um dos polos está fora do sistema.

E isso vai-nos levar onde?

Vai-nos levar a que os partidos democráticos sejam capazes de assumir soluções políticas para o país que nos tirem desta nossa triste e apagada mediocridade, que resumo no crescimento miserável do país.

Mas o que é preciso ser feito?

É preciso que a parcela muito importante da riqueza nacional, que nós confiamos ao Estado para gerir, seja gerida com eficiência. E não como está a ser gerida. Temos, por exemplo, o Serviço Nacional de Saúde, que parece um balde furado. Não há recursos que possam satisfazer as necessidades do SNS. Portanto, o Estado tem de ter eficiência. E o Estado tem que castigar menos as famílias, as empresas e os indivíduos fiscalmente. Porque o Estado permanentemente finge que baixa os impostos. Mas, miraculosamente, a coleta sobe sempre. Porque entre a vida dele e a das famílias e das empresas, o Estado escolhe-se sempre a si próprio. Porque a grande glória dos ministros das Finanças é o equilíbrio orçamental.

Temos de ir fazer um estágio à Noruega ou à Suécia para explicar o que é a transparência, e onde é que o Estado gasta o nosso dinheiro?

Não, nós precisamos é de fazer uma alocação racional dos recursos nacionais. O país tem recursos limitados. Quando nós pensamos que o Serviço Nacional de Saúde já absorve, mais ou menos, o mesmo que a receita total apurada em sede de IRS, e quando pensamos que em cima disto, 4 milhões de portugueses já têm um seguro privado de saúde, temos que nos interrogar o que estamos a fazer com a gestão da Saúde em Portugal. São estes problemas que nós temos de resolver. Podemos perfeitamente ir à Suécia. Porque a Suécia é um país organizado de acordo com grandes orientações políticas traçadas ao longo das décadas pelos sociais-democratas. Fazem parte de um grande consenso nacional. Em Portugal não se consegue debater nada. Porque ser contra os impostos é ser de direita. Eu, por exemplo, digo, os impostos estão a atrofiar as nossas perspetivas de crescimento. Muita gente acusa-me de ser de direita. E continuam a derreter dinheiro em sistemas ineficientes. Um Estado que está largamente capturado por interesses. E chamam a isto políticas de redistribuição. O que hei de fazer?

Preocupa-se que lhe chamem de direita?

Chateia-me.

Porquê?

Porque sou de esquerda.

O que é isso de ser de esquerda ou de direita, quando se discute o futuro do país? E não falou da falta de transparência.

Provavelmente tem razão, haverá certamente um problema de transparência. Mas a maior parte dos enviesamentos no funcionamento da economia portuguesa, em que nós sentimos que existem setores privados, que são autenticamente setores rentistas, que estão poupados à concorrência, que são setores atrativos do Estado, não precisam de transparência porque estão à vista.

Hoje, no dia em que fazemos a entrevista, a notícia do dia é que o Governo quer poupar na Saúde e todos os partidos caíram em cima da ministra da Saúde.

Não estou na AR, mas se estivesse dizia a mesma coisa que estou a dizer aqui. Disse isto mil vezes  quando lá estava sentado. Disse à ministra da Saúde do meu tempo, socialista, que veio dizer que a Lei de Bases de Saúde estava em linha com as nossas orientações ideológicas. E eu disse: ‘Senhora ministra, nós temos que subir nos indicadores de Saúde, não é nos indicadores de ideologia’. Disse isto quando Marta Temido tomou posse.

Continua a emocionar-se com a política portuguesa. Tendo ideias próprias, qual a razão para nunca se ter candidatado à liderança do PS? E quando o seu guru [Mário Soares] lhe pediu para o ser.

Mas será que aquilo que estou a fazer não é útil?

O que lhe pergunto é qual a razão para nunca ter achado que podia ser o homem da mudança? Isso deve-se a não controlar o aparelho, de não saber lidar com lóbis, é isso?

Não tenho feitio para o poder.  E não aspiro ao poder. Como todas as pessoas, tenho as minhas ambições pessoais. Essa não é uma das minhas ambições pessoais.

Não tem nenhuma ambição na política?

Tenho. Claro que tenho uma ambição política. Mas a minha ambição política não é a de assumir uma posição de liderança num partido. Neste momento, não vejo que, no país, existam condições para que pudesse fazer alguma coisa de jeito ou que fosse útil. Prefiro fazer o que estou a fazer, que é falar ao país e falar à opinião pública. Falar com total liberdade. Não sou deputado, não tenho que prestar contas a ninguém.

A sua tribuna agora é a CNN?

Não, não é só a CNN, é a comunicação social, de uma forma geral, é as redes sociais, com esta oportunidade enorme que o digital deu, não se compara com a bancada parlamentar. Nem a comparação faz sentido. Na bancada  parlamentar não tenho a possibilidade de me dirigir ao país, que é o que tenho tentado fazer. Com maior ou menor sucesso.

E está mais livre agora?

Para dizer a verdade, sempre fui livre. Só que antigamente tinha muito mais chatices do que agora. Agora não tenho nenhumas.

Qual foi o papel de Pedro Nuno Santos para o PS ter ficado em terceiro lugar nas últimas legislativas?

Não quero fazer observações sobre isso.

De outra maneira, então. Pedro Nuno Santos poderá querer voltar algum dia à liderança do PS?

Não sei, não sou um oráculo, não faço ideia.

A herança da geringonça determinou o fim do Bloco de Esquerda?

Não, o Bloco de Esquerda está nesta situação porque nasceu de circunstâncias irrepetíveis. Nasceu da revolta da esquerda contra um PS liderado por António Guterres, muito conservador. Cresceu com três figuras fortes, que eram Louçã, Rosas e Fazenda. E entrou numa fase de declínio, que foi aquela que se vem desenvolvendo até ao momento. Não teve nada a ver com a geringonça. O território do Bloco de Esquerda existirá sempre. É o território dos não comunistas, que não estão satisfeitos com o PS, e que não conseguem votar na direita. Será sempre um voto de protesto dentro do condomínio da esquerda. Ou voto contra no condomínio.

O que pensa da proibição de se usar burca em Portugal?

Como qualquer moderado, tenho uma opinião maçadora. É preciso conciliar a liberdade das pessoas, que têm proteção constitucional, que têm certas exigências ditadas pela segurança, que é outro valor que também tem proteção constitucional. Acho completamente compreensível que, por razões de segurança, não se possa usar vestuário que tapa tudo, exceto os olhos, ou mesmo incluindo os olhos, porque com a burca nem olhos há. Mas isso não tem nada a ver com as razões que ditaram esta discussão. O doutor Ventura está-se nas tintas se tapa os olhos, o nariz, a orelha direita ou a cara toda. Só quer excitar os sentimentos xenófobos contra uma minoria religiosa em Portugal. Por isso é que não gosto da discussão. Agora se me perguntas se eu acho que se deve poder andar com a cara tapada, acho que não. Do ponto de vista da segurança, isso representa uma ameaça.

André Ventura é um génio que consegue pôr toda a gente a ir atrás dele? Ele é que marca a batuta?

Ele não marca nada. Ele é um personagem altamente ‘mediatizável’. E os instrumentos mediáticos valorizam-no. Porque ele é altamente mediático, não é? Se puserem os outros políticos a dizer as enormidades que ele diz, tornam-se todos interessantíssimos. Se dissessem todas as mesmas enormidades do Ventura e existisse um só que dissesse as coisas sensatas, o mediático era o sensato.

Consegue imaginar-se no Parlamento, na qualidade de líder do partido, ou líder parlamentar, o que quiser, a debater com Sebastião Bugalho, na pele de primeiro-ministro, ou líder de partidário, ou vice-versa?

Espero bem que isso nunca aconteça.

Porquê?

Porque somos demasiado amigos.