Greve geral cria mal estar no Governo e parceiros sociais

Um dia a galinha dos ovos de ouro fica infértil’, acusa a Confederação do Turismo

O anúncio da convocação de uma greve geral para dia 11 de dezembro por parte das duas centrais sindicais criou um ambiente de mal estar junto do Governo e das confederações empresais. Em causa está, segundo a CGTP e a UGT, as mais de 100 alterações propostas pelo Governo ao atual pacote laboral, afirmando que estas alterações «constituem um ataque aos direitos e interesses de quem trabalha». É a primeira greve geral conjunta desde 2013, há mais de dez anos, quando a troika ainda estava em Portugal.
Uma decisão que levou o primeiro-ministro a considerar que a paralisação «é incompreensível» e que serve apenas para «olhar para interesses» do Partido Comunista Português e do Partido Socialista. «Francamente, não consigo vislumbrar outra razão para esta posição das centrais sindicais que não seja olhar para interesses que, do meu ponto de vista, não deviam ser os prevalecentes, que é o interesse dos partidos que estão, sobretudo, ligados à gestão das duas centrais sindicais», denunciou Luís Montenegro.
E deixou ainda um recado: «Os sindicatos têm tudo para cumprir a sua tarefa e o seu papel – não quero condicionar, acho muito bem que representem os interesses laborais dos trabalhadores portugueses –, mas quando a realidade do país não é a realidade dos sindicatos, alguma coisa está mal e não é o país».
Montenegro disse ainda que o Governo tem feito tudo para evitar todas as greves e, em relação a esta defende que «não há matéria objetiva que possa suscitar adesão a uma greve geral», acenando com 19 acordos laborais ou de incidência laboral e de retribuição e de carreiras levadas a cabo pelo Governo e que, em 2024, Portugal foi no âmbito dos 38 países da OCDE «aquele onde os rendimentos das pessoas subiram mais».

Anúncio ‘extemporâneo’
Já a ministra do Trabalho considerou este anúncio «extemporâneo» por parte da UGT, uma vez que, ainda decorrem negociações com esta central sindical, no entanto, apontou o dedo à CGTP ao considerar que «desde o primeiro momento não queria negociar».
Ainda assim, Maria do Rosário Palma Ramalho mostrou-se disponível para negociar, mas não para retirar a proposta do Governo que mexe em cerca de cem artigos do Código do Trabalho. «Houve uma reação um bocadinho epidérmica quando nós lançámos a reforma, porque as matérias laborais são sempre matérias de grandes paixões e, portanto, há uma reação quase instantânea e por isso sem a necessária ponderação, até sem o conhecimento das normas», disse à RTP.
Uma posição partilhada pela CTP – Confederação do Turismo de Portugal ao lembrar que o anteprojeto ainda se encontra em fase preliminar de discussão no âmbito da Concertação Social, não sendo ainda conhecidas as propostas finais do Governo nem o resultado do diálogo social entre parceiros sociais. Daí, considerar que a convocação de uma greve geral antes da conclusão das negociações «é um sinal negativo e prematuro, que não contribui para um ambiente de confiança e diálogo que o país necessita de preservar».
A Confederação recorda ainda que Portugal se encontra numa fase de recuperação económica e de consolidação do emprego, em particular no setor do turismo, «um dos mais afetados pelas crises recentes e simultaneamente um dos que mais contribui para o crescimento do país».
E Francisco Calheiros não hesita: «Uma greve geral nesta fase transmite uma mensagem de instabilidade e prejudica a confiança dos investidores, dos trabalhadores e dos visitantes internacionais. A isto acresce o caos diário no aeroporto de Lisboa, pelo que a CTP vê com muito pessimismo o que está a acontecer em torno de uma atividade económica essencial para o país. ‘Um dia a galinha dos ovos de ouro fica infértil’».