World Press Photo regressa a Oeiras com mais fotografias que fazem pensar

A exposição, patente no Parque dos Poetas e entrada livre, pode ser visitada até 11 de dezembro. Os 42 fotojornalistas premiados em 2025 dão corpo aos grandes temas da atualidade — guerra, migração, ambiente e liberdade —, convidando o público a refletir sobre o tempo em que vivemos

No coração do Parque dos Poetas, em Oeiras, os painéis da World Press Photo 2025 ocupam a Alameda Almeida Garrett entre árvores, esculturas e poesia. Neste ponto de encontro entre arte e natureza, as imagens em exposição acompanham o percurso, lado a lado com quem passa, transformando o caminho habitual numa galeria ao ar livre que convida a parar, a olhar e a refletir.

São 42 histórias captadas pela lente de fotojornalistas oriundos de diferentes regiões do planeta e cada fotografia constitui um fragmento do presente como forma de lembrar o que continua a acontecer pelo mundo.

A inauguração, realizada esta terça-feira, contou com a presença da gestora de exposições e curadora da World Press Photo, Mariana Rettore Baptista; do vereador da Educação, Ciência e Ensino Superior, Pedro Patacho, em representação da Câmara Municipal de Oeiras; da fotojornalista portuguesa Maria Abranches; e do diretor-geral da TVI e editor da CNN Portugal, José Eduardo Moniz.

A sessão foi aberta por Sónia Peres Pinto, editora-executiva do jornal Nascer do SOL  —responsável pela organização da exposição e media partner neste projeto em conjunto com a CNN Portugal —, que destaca o papel do fotojornalismo num tempo em que a informação se dissemina de forma instantânea através das redes sociais, mas nem sempre rigorosa. “Vivemos uma época em que qualquer pessoa pode tirar uma fotografia e publicá-la de imediato. É importante saber distinguir o que é realidade do que é ficção”, sublinha, referindo que a exposição “reúne imagens poderosas que retratam o mundo em toda a sua complexidade e que nos fazem pensar, que é, afinal, o grande propósito da World Press Photo”.

Mais do que um momento formal, o encontro serviu para sublinhar o poder da fotografia e a relevância do jornalismo visual num tempo em que a verdade se discute e a liberdade de imprensa é posta à prova.

Olhares que ampliam os horizontes e despertam empatia

Para Mariana Rettore Baptista, a edição deste ano reflete uma vontade de “dar espaço a mais histórias e a mais projetos” em cada região do mundo, permitindo premiar mais fotógrafos e mostrar uma diversidade muito maior de perspetivas.

A curadora sublinha que a exposição de 2025 traz temas que vão além da guerra e da dor.

“Há mais espaço para o desporto, para celebrações e momentos do quotidiano. Tudo isso também ajuda a compreender o mundo em que vivemos.”

O rigor é outro pilar da fundação. “Todas as imagens são analisadas por especialistas forenses, pixel a pixel, para garantir que não há manipulação. As legendas são reescritas por uma equipa de investigação que confirma cada detalhe. É um processo exigente, mas essencial para preservar a verdade.”

Sobre o papel educativo da mostra, a responsável destaca o objetivo de aproximar públicos. “A fotografia é uma porta de entrada para muitas discussões. Queremos que as pessoas olhem profundamente para as imagens e percebam o contexto em que foram feitas. Muitos fotógrafos enfrentam condições muito difíceis. A fotografia aproxima-nos de realidades mesmo que distantes da nossa e que despertam empatia.”

Num tempo de desinformação crescente, a curadora acredita que, no futuro, a fotografia jornalística “vai ganhar relevância. Precisamos de imagens reais, verificadas, que reflitam o que está a acontecer”.

Fotografia, reflexão e cidadania de braço dado

Pedro Patacho destaca o orgulho do município em ser promotor desta iniciativa desde 2022, uma exposição que combina rigor, liberdade e reflexão. “É um privilégio poder receber esta mostra num parque público, acessível e de entrada livre, onde milhares de pessoas podem cruzar-se com estas imagens e serem convidadas a pensar sobre o mundo em que vivem. É uma forma de valorizar o parque e de reforçar o papel de Oeiras como território de cultura.”

Na visita, o vereador ficou particularmente impressionado com as imagens captadas em zonas de guerra e com relatos de tortura. “Essas fotografias despertam em nós humanidade, mas também revolta. Mostram a nossa incapacidade de aprender com os erros do passado.” E acrescenta: “O fotojornalismo livre é um pilar da democracia. É através dele que nos confrontamos com as contradições do mundo e com o que cada um de nós, enquanto cidadãos, pode fazer para construir uma sociedade mais justa.”

Dar “voz” ao invisível

A fotógrafa portuguesa Maria Abranches, distinguida este ano na categoria Reportagem, recordou o percurso que deu origem à série MARIA, sobre Ana Maria Jeremias, uma mulher angolana cuja vida reflete tantas outras marcadas pelo silêncio e pela resistência. Na cerimónia de abertura, Abranches agradeceu à Fundação World Press Photo e ao município “por levarem a história de Ana Maria tão longe” e por darem espaço a narrativas que raramente têm visibilidade.

A fotojornalista acredita que a fotografia ainda pode mudar consciências. “Se deixarmos de acreditar nisso, perdemos o sentido do nosso trabalho. Espero que este projeto possa abrir espaço para debate e incluir outras narrativas na história dominante sobre o colonialismo.”

A imagem e a verdade no contexto atual

José Eduardo Moniz considera que a World Press Photo é mais do que uma exposição, consiste num manifesto sobre o papel do jornalismo e da imagem num tempo dominado pela desinformação. “Vivemos numa era de fake news, de manipulação e de distorção constante da verdade, uma realidade que a inteligência artificial pode agravar de forma significativa. O fotojornalismo continua a ser uma das formas mais diretas e credíveis de mostrar o que está a acontecer.”

O responsável recorda os seus primeiros anos de profissão, quando lhe ensinaram “nunca sair para a rua sem um repórter de imagem ao lado”, e sublinha que a fotografia mantém uma força que a palavra nem sempre alcança. No seu ponto de vista, uma fotografia pode transmitir mais emoção, mais verdade e mais humanidade do que muitas palavras, razão pela qual esta exposição é tão necessária.

Sobre a parceria entre a Media Capital — através da CNN e do jornal Nascer do SOL — e a World Press Photo, o responsável afirma: “Somos um grupo que se orgulha da sua presença na comunicação social, pelo que não poderia deixar de estar associado a uma iniciativa que celebra o valor do jornalismo e mostra a importância da imagem numa sociedade como a de hoje.”

Para o diretor-geral da TVI, o papel da World Press Photo é também o de denunciar a injustiça e a desumanidade do mundo”. “Vivemos um tempo cruel, em que os conflitos atingem proporções desumanas. Quanto mais pudermos mostrar essa realidade, maior é a relevância do jornalismo.”

Questionado sobre o que torna esta exposição tão marcante todos os anos, o responsável foi claro: “É uma oportunidade para aprender o estado do mundo, perceber que há muitos olhares sobre a mesma realidade e que alguns olhares dizem mais verdade do que outros.”