Portugal viajou até Dublin para defrontar a República da Irlanda (o jogo decorreu à hora de fecho desta edição) e, no domingo, joga com a Arménia, no Estádio do Dragão. O apuramento de Portugal é uma inevitabilidade – já devia ter acontecido em outubro – e esta dupla jornada é vista por Roberto Martínez como uma oportunidade. «É bom ter dois jogos competitivos em novembro para preparar melhor o campeonato do mundo», afirmou o selecionador. Como se percebe, o pensamento já está no Mundial de 2026, que se realiza nos EUA, México e Canadá, entre 11 de junho e 19 de julho, onde as expectativas de Portugal são elevadas.
Até ao virar do milénio, a equipa das quinas era mediana e falhou o apuramento por 15 vezes! Era uma nação triste, que ficava sistematicamente fora das grandes competições internacionais, até que surgiram os ‘Magriços’, equipa formada, essencialmente, por jogadores do Benfica e Sporting, que tinham ganho a Taça dos Campeões Europeus e a Taça das Taças na década de 60. Portugal venceu os quatro primeiros jogos da fase de qualificação e garantiu um lugar no Mundial de Inglaterra, em 1966. Repetiu o feito em 1986 e ponto final! A partir de 2002, fez o pleno, ou seja, vai a caminho da nona presença, a sétima consecutiva, na mais importante competição de seleções.
Em Inglaterra, a seleção nacional conseguiu o melhor resultado de sempre (3.º). O jogo contra a Coreia do Norte foi épico, com Portugal a virar o resultado de 0-3 para 5-3, com Eusébio a marcar quatro golos, tal como foi memorável a vitória (3-0) sobre o Brasil de Pelé, que era o campeão em título. Os ‘Magriços’ regressaram com a medalha de bronze depois de vencerem a URSS (2-1) no jogo de atribuição do terceiro e quarto lugares.
Portugal voltaria a um Mundial 20 anos mais tarde para fazer uma triste figura no México 1986. O apuramento ficou marcado pela célebre frase do selecionador nacional, José Torres, «Deixem-me sonhar» e pelo fantástico golo de Carlos Manuel, que derrubou a poderosa Alemanha na última jornada. Portugal passou do sonho ao pesadelo em pouco tempo devido ao ‘caso Saltillo’. Os jogadores entraram em rota de colisão com a federação por causa das condições de treino e do valor dos prémios de jogo, o que motivou a intervenção do Presidente da República, Mário Soares. Foi uma das páginas mais negras do desporto português. Em termos desportivos, Portugal foi de surpresa em surpresa até à derrota final. Surpreendeu o mundo do futebol ao vencer a Inglaterra (1-0), mas a derrota contra Marrocos (1-3) tirou a seleção do Mundial.
Passados 16 anos, Portugal apurou-se para o Mundial da Coreia do Sul/Japão 2002 na última jornada, com o mesmo número de pontos da República da Irlanda. As duas seleções ganharam sete jogos e empataram três, a diferença de golos deu o primeiro lugar a Portugal. A estadia da seleção na Ásia foi curta, venceu apenas uma das três partidas e foi eliminada. A equipa treinada por António Oliveira foi um completo equívoco e, mais uma vez, mostrou indisciplina e falta de desportivismo. No último jogo, frente à Coreia do Sul (0-1), Beto e João Pinto foram expulsos, com este último a agredir o árbitro argentino Angel Sánchez com um soco no estômago, o que lhe valeu uma suspensão de quatro meses. Foi o ponto mais baixo da chamada ‘Geração de Ouro’ do futebol português, composta por Figo, Pauleta, João Pinto, Paulo Sousa, Rui Costa, Nuno Gomes e Vítor Baía, entre outros.
era ronaldo
Luiz Felipe Scolari teve o mérito de criar um grupo forte e determinado a ganhar, e o apuramento para o Mundial da Alemanha 2006 foi um passeio: a seleção venceu nove jogos e consentiu apenas três empates. Durante o torneio, a ‘equipa de todos nós’ praticou um futebol vistoso e ofensivo, que cativou adeptos de outros países. A vitória sobre a Inglaterra nas grandes penalidades (3-1) e o triunfo sobre a Holanda (1-0), com apenas nove jogadores, ficam na história do futebol português. Portugal seria eliminado na meia-final (0-1) pela França, de Zinedine Zidane, com uma arbitragem polémica. Foi a estreia de Cristiano Ronaldo em campeonatos do mundo e o início de uma história com 143 golos em 225 jogos – é o maior goleador de sempre a nível de seleções.
Passados quatro anos, Portugal marcou presença no Mundial da África do Sul. A seleção treinada por Carlos Queiroz falhou o apuramento direto, ficou atrás da Dinamarca, e teve de disputar o playoff com a Bósnia-Herzegovina, onde venceu os dois jogos. O nome de Portugal voltou a andar nas bocas do mundo. Carlos Queiroz foi acusado de perturbar e ofender os médicos que pretendiam realizar o controle antidoping durante o estágio para o Mundial. Na África do Sul, Portugal goleou a Coreia do Norte (7-0) e empatou (0-0) com o Brasil e Costa do Marfim. Os ‘Navegantes’ encalharam frente à Espanha (0-1) e saíram da competição nos oitavos de final. Era evidente o desagrado de Cristiano Ronaldo com a eliminação e instado a dar uma explicação, respondeu: «Perguntem ao Carlos». Curto e incisivo.
Paulo Bento era o selecionador que levou Portugal ao Brasil 2014. Os adversários eram acessíveis, mas a seleção realizou exibições medíocres e falhou o apuramento direto. O playoff com a Suécia foi um verdadeiro mano a mano entre Cristiano Ronaldo e Zlatan Ibrahimovic. O capitão da seleção puxou dos galões e marcou os quatro golos que garantiram o apuramento. Ronaldo fez um hat trick em casa de Zlatan para humilhação da estrela sueca. A passagem pelo Brasil foi uma desilusão, até porque CR7 dava mostras de desgaste físico e tinha uma lesão complicada no joelho. Portugal venceu o Gana (2-1), empatou com os EUA (2-2) e foi goleado pela Alemanha (0-4) – é a maior derrota em fases finais – e foi eliminado.
O apuramento para o Mundial da Rússia 2018 foi obtido na última jornada. No Estádio da Luz, Portugal venceu a Suíça (2-0) e as duas seleções terminaram em igualdade de pontos. O desempate por goal average foi favorável à equipa de Fernando Santos. O percurso de Portugal na Rússia foi modesto, uma vitória sobre Marrocos (1-0) e empates com a Espanha (3-3), com hat trick de Ronaldo, e Irão, de Carlos Queiroz (1-1). O campeão europeu de 2016 foi eliminado sem honra nos oitavos de final pelo Uruguai (1-2).
No apuramento para o Qatar 2022, Portugal ficou atrás da Sérvia e teve de disputar mais um playoff, onde derrotou a Macedónia do Norte (2-0). No Mundial, a seleção nacional ganhou ao Gana (3-2) e ao Uruguai (2-0), mas foi surpreendida pela Coreia do Sul (1-2), com Cristiano Ronaldo a entrar em rota de colisão com o selecionador Fernando Santos ao ser substituído. Depois da goleada à Dinamarca (6-1), a festa portuguesa terminou nos quartos de final com a derrota frente a Marrocos (0-1). A equipa africana já tinha eliminado a Espanha, mas não serviu de exemplo a Portugal, que foi surpreendido pelo rigor e irreverência dos marroquinos, coisa que faltou aos portugueses. Ao longo do torneio ficou evidente que a força de Portugal resultava da soma das individualidades e não da força do coletivo. Foi um jogo histórico para Marrocos, que ditou a saída de Fernando Santos.
Números
Classificação em Mundiais
Inglaterra 1966 – 3.º (meia-final)
México 1986 – 17.º (fase de grupos)
Coreia do Sul/Japão 2002 – 21.º (fase de grupos)
Alemanha 2006 – 4.º (meia-final)
África do Sul 2010 – 11.º (oitavos de final)
Brasil 2014 – 18.º (fase de grupos)
Rússia 2018 – 13.º (oitavos de final)
Qatar 2022 – 8.º (quartos de final)
Mundiais: Portugal disputou 35 jogos em fase finais, ganhou 17, empatou seis e perdeu 12. Marcou 61 golos e sofreu 41. Foi eliminado na fase de grupos três vezes e passou à fase seguinte em cinco ocasiões.
Melhor classificação: 3.º lugar, no Mundial 1966
Eusébio: É o melhor marcador português numa fase final, com nove golos em seis jogos, no Mundial 1966.
Ronaldo: É o jogador português com mais participações (5) e com mais jogos (22) em fases finais. Tem oito golos e é o único a nível mundial que marcou em cinco torneios consecutivos.
Adversários: Portugal já jogou contra 20 países diferentes. A Inglaterra e Marrocos são as seleções que defrontámos mais vezes em Mundiais (3).
Maior vitória: Portugal 7 – Coreia do Norte 0, na África do Sul 2010.
Maior derrota: Alemanha 4 – Portugal 0, no Brasil 2014.
Jogo com mais golos: Portugal 5 – Coreia do Sul 3, em Inglaterra 1966.