O avanço da inteligência artificial (IA) tem introduzido novas possibilidades na forma como os indivíduos se relacionam com a morte e com o processo de luto. Entre essas inovações destaca-se a designada “ressurreição digital” – a recriação de vozes, imagens ou mesmo avatares de pessoas que morreram – inaugurando uma nova fronteira na experiência de luto, ao prometer prolongar, num plano não real, o vínculo emocional entre os que vivem e os que morrem. Embora essa tecnologia permita recriações que representem um recurso de conforto, continuidade e presença, não nos podemos esquecer das questões sobre o impacto psicológico de manutenção deste tipo de vínculo com alguém que já morreu e não existe mais no mundo físico.
Entramos assim numa era em que ficam desafiados os processos naturais de integração e elaboração de perda, exigindo uma criteriosa reflexão ética e emocional.
A IA pode criar hologramas com a imagem do ente querido, transformar fotografias em versões dinâmicas que interagem com os enlutados, ou mesmo discursos produzidos com a voz da pessoa que morreu. Estes “Griefbots” simulam então a presença e/ou a comunicação com pessoas que morreram, recorrendo aos dados que deixaram – mensagens, vídeos, voz, publicações em redes sociais – para gerar respostas que imitam o seu modo de falar e de se comportar. Assim, emergimos numa nova experiência de luto, conhecida como “Grief Tech”, que levanta uma questão central:
Até que ponto estas tecnologias ajudam verdadeiramente o processo de luto — e quando é que, pelo contrário, o podem dificultar?
O luto é um processo natural marcado de reações emocionais, cognitivas, comportamentais e somáticas, reativas a uma perda significativa. Essa perda pode ser concreta – como a morte de alguém (luto real) – ou simbólica, como o fim de uma relação, um divórcio, perda de emprego ou outras ruturas importantes. Trata-se de uma resposta adaptativa, ainda que profundamente dolorosa e transformadora, que afeta a pessoa no seu todo. A maioria das pessoas, apoiada nos seus recursos pessoais e de rede de suporte social, consegue gradualmente adaptar-se à realidade da ausência física da pessoa que morreu. Mas isso não significa que os sentimentos de perda desapareçam. Eles podem ser reativados por memórias, datas especiais, músicas ou lugares associados ao ente querido. Assim sendo, dentro de um modelo integrativo de luto, compreende-se que essas “ondas” de dor emocional tendem a tornar-se mais toleráveis ao longo do tempo, até que possam ser transformadas numa saudade menos dilacerante. Por isso se considera que a pessoa integra o luto – em vez de permanecer eternamente em luto. Essa experiência adaptativa implica necessariamente reajustes na forma como a pessoa se vê a si mesma, se relaciona com os outros e como compreende o mundo após a perda.
No entanto, quando a IA cria uma realidade que mantém “viva” a pessoa perdida, esse processo de integração pode ficar comprometido. A presença digital pode adiar, perturbar ou mesmo impedir o ajustamento à nova realidade sem o ente querido, prolongando a dependência do vínculo anterior. Além disso, existem riscos adicionais: falhas repentinas da tecnologia (como quebras de energia, erros de sistema ou bugs), podendo confrontar abruptamente a pessoa enlutada com uma nova experiência de perda. Esse novo confronto pode promover quadros cumulativos de dor, confusão emocional ou vivências traumáticas.
Apesar da morte nos interrogar sobre a nossa perceção de permanência, previsibilidade e controlo, também nos confronta com uma dureza emocional que nos pode levar a procurar formas de a evitar, mesmo inconscientemente. Ao interferirmos artificialmente nesse processo – por exemplo mantendo ativa uma “presença” digital da pessoa que morreu – criamos a ilusão do controlo do incontrolável. Essa ilusão pode impedir-nos de contactar com a dor necessária para integrar a perda, precisamente por ser tão intensa e transformadora.
Embora ainda não exista consenso científico sólido, começam a delinear-se riscos e impactos destas tecnologias nos processos de luto. A IA pode projetar-nos para uma dimensão pouco realista do mundo, dos outros e até de nós próprios, interferindo na nossa funcionalidade diária e na adaptação à vida sem a pessoa perdida. Paralelamente, além das preocupações éticas já levantadas pela comunidade científica, existem potenciais riscos de distorção da realidade, dependência emocional dos “griefbots” e de quadros de prolongamento ou complicação do luto.
Neste contexto, acresce ainda uma das capacidades mais surpreendentes da IA: a empatia simulada. As interações geradas por sistemas de IA podem criar vínculos pautados de emoções tão intensas, de uma validação constante e uma concordância quase permanente. Essa dinâmica, quando associada a um luto que não está a ser naturalmente integrado, pode levar também à idealização da pessoa perdida, colocando a mesma num patamar de perfeição irrealista. Simultaneamente, sempre que a resposta virtual não corresponder ao que a pessoa que morreu diria ou faria, podem surgir estados emocionais intensos de zanga, frustração ou desilusão, amplificando ainda mais o sofrimento.
O principal perigo da chamada “Grief Tech” reside na possibilidade de nos afastarmos progressivamente do presente, como se estivéssemos a trair o compromisso com a realidade. Guardar lembranças é natural; ultrapassar a fronteira existencial através de uma presença interativa artificial é algo substancialmente diferente. Prolongar artificialmente a presença de alguém, significa que perdemos também a noção da impermanência e enfraquece a âncora coletiva que nos liga ao real, diminuindo a capacidade de enfrentar a própria vida e as suas transições inevitáveis.
Perante dificuldades na gestão do luto, é fundamental recorrer a um acompanhamento psicoterapêutico que considere fatores de vulnerabilidade pessoal prévia, bem como circunstâncias situacionais, como perdas súbitas ou traumáticas.
Do ponto de vista psicoterapêutico, recorrer à IA para lidar com a morte pode aprisionar-nos num ciclo de dependência emocional, idealização do passado e evitamento experiencial, dificultando a aceitação da perda. Em vez de facilitar a adaptação, estas soluções tecnológicas podem reforçar mecanismos defensivos que adiam o confronto com a dor necessária à integração do luto.
No limite, podemos considerar que um substituto digital pode ser um analgésico emocional, que adormece uma dor, mas que na verdade, apenas impede o confronto com a perda, e o seu caráter transformador de integrar a realidade.
Psicóloga Clínica e da Saúde
Terapeuta de Luto