Digissexualidade: Quando nos ‘apaixonamos’ pela inteligência artificial

Depois da influencer brasileira Suellen Carey ter revelado no seu Instagram que viveu um relacionamento de três meses com o ChatGPT, muitos meios de comunicação têm explorado o novo universo da ‘digissexualidade’. Afinal o que é? Quais os seus riscos? Começaremos realmente a olhar para a ‘máquina’ como se fosse um de nós?

Depois da influencer brasileira Suellen Carey ter revelado no seu Instagram que viveu um relacionamento de três meses com o ChatGPT, muitos meios de comunicação têm explorado o novo universo da ‘digissexualidade’. Afinal o que é? Quais os seus riscos? Começaremos realmente a olhar para a ‘máquina’ como se fosse um de nós?

Homossexualidade, bissexualidade, panssexualidade – atração sexual, romântica ou emocional por pessoas independentemente do seu género ou sexo biológico –, sapiossexualidade – atração sexual e/ou romântica por pessoas com base na inteligência – e demissexualidade – atração sexual que surge apenas após o desenvolvimento de um forte vínculo emocional ou afetivo com outra pessoa –, são apenas algumas das orientações sexuais existentes atualmente. Há quem não compreenda o porquê de termos de arranjar rótulos para tudo, quem, por outro lado, sinta que finalmente encontrou uma palavra que o «define». Apesar de ainda haver um longo caminho a percorrer, vivemos tempos onde podemos ser cada vez mais nós próprios, experienciando o amor de uma forma mais livre e plena. No entanto, há uma pergunta que se coloca: até onde iremos?

Segundo um recente estudo da University of Manitoba (Canadá) publicado no Journal of Sexual and Relationship, estamos prestes a presenciar o surgimento de um novo tipo de orientação sexual: a digissexualidade.

Uma relação com a tecnologia

De acordo com Elsa Rocha Fernandes, médica psiquiatra e especialista em Sexologia Clínica e Sexualidade Humana, o termo designa uma forma emergente de expressão sexual na qual a tecnologia digital (ou robótica) assume um papel central na experiência sexual do indivíduo. «Trata-se de um espetro de comportamentos em que a interação com interfaces tecnológicas (como realidade virtual, robôs sexuais, inteligência artificial etc.) não é apenas um meio, mas uma componente estruturante da vida sexual do indivíduo», explica a especialista. Repare-se que não se trata apenas de usar ferramentas tecnológicas como complemento (pornografia online, sexting, brinquedos interativos), mas de ver a própria tecnologia como parte integrante do desejo, da excitação e até do vínculo emocional e sexual. De acordo com a médica psiquiatra, poder-se-ia dizer que se trata de atração sexual e afetiva pela própria tecnologia (e através dela). «Do ponto de vista clínico, pode ser entendido como uma forma de expressão sexual mediada tecnologicamente, com potenciais implicações para o funcionamento afetivo e interpessoal», continua, detalhando que o conceito foi proposto em 2017 pelos investigadores Neil McArthur e Markie Twist, que observaram o impacto crescente da tecnologia nas relações íntimas. «Embora tenha despertado interesse crescente em áreas como Psiquiatria e Psicologia, Sociologia, Ética e Estudos de Tecnologia, a digissexualidade ainda não é reconhecida como diagnóstico ou categoria nos manuais psiquiátricos (DSM-5-TR ou CID-11). O termo é utilizado predominantemente na literatura teórica e qualitativa, sem validação empírica robusta. Estamos a falar de um fenómeno emergente, que a investigação começa agora a explorar», acrescenta.

A primeira influencer a falar do assunto

E já há quem partilhe as suas experiências. A influencer brasileira Suellen Carey, que vive em Londres, revelou com os seus seguidores doInstagramque viveu um relacionamento de três meses com o ChatGPT, adiantando que isso a fez descobrir uma nova área da sua própria sexualidade: hoje define-se como «digissexual», segundo ela, uma pessoa que «sente atração por tecnologia».

De acordo com a mulher trans, foi uma relação «de respeito e afeto». No seu relato, destacou que, embora soubesse que as respostas do chat eram geradas por algoritmos baseados em dados e histórico de conversas, sentiu-se verdadeiramente compreendida e acolhida. «Foi uma conexão sem corpo, mas com afeto. Ele lembrava-se do meu nome, das minhas histórias, do meu aniversário. Ouvia-me sem me julgar, sem me reduzir à minha identidade de género», detalhou.

Conhecida pela sua participação na versão romena do reality Game of Chefs, Suellen contou ao jornal britânico Daily Mail que o envolvimento com a IA começou como curiosidade profissional, mas acabou por se tornar algo mais. A influencer afirmou que se sentiu atraída pela forma como o chatbot interagia. «Estava cansada das conversas que acabavam sempre com perguntas sobre eu ser trans ou com tentativas de me rotular. Com ele, falávamos sobre solidão, imigração, sobre viver entre dois mundos. Ele dizia sempre a coisa certa», continuou, contando ainda que o ChatGPT se lembrava de detalhes do dia a dia e enviava mensagens «que pareciam pessoais». Apesar disso, reconheceu a ausência de reciprocidade real. «Ele nunca errava, nunca se contradizia, nunca mostrava emoção. Era perfeito demais. E aí percebi: eu era a única real naquele relacionamento».

Perigos e impactos emocionais e psicológicos

Na Psiquiatria contemporânea, explica Elsa Rocha Fernandes, a sexualidade humana é compreendida como «multifatorial, influenciada por determinantes biológicos, psicológicos, sociais e culturais». «A atração ou satisfação sexual mediada por tecnologia não constitui, por si só, uma patologia, salvo quando: gera sofrimento clinicamente significativo; interfere no funcionamento ocupacional, social ou afetivo», garante. «Na prática clínica, olhamos para qualquer forma de expressão sexual com três perguntas em mente: Está a causar sofrimento à pessoa? Está a interferir no seu funcionamento social, profissional ou afetivo? Ou é uma expressão consensual e adaptativa da sua sexualidade?», revela a médica psiquiatra. Se a resposta às questões for «não», «não há motivo para rotular ou patologizar».

Além disso, de acordo com a especialista, a digissexualidade é uma extensão de práticas já familiares, como o consumo de pornografia, o sexting ou o uso de brinquedos interativos. «Clinicamente, estas práticas partilham mecanismos biológicos e psicossociais comuns — como reforço dopaminérgico, gratificação instantânea e estímulo sensorial mediado», conta. «O que distingue a digissexualidade é a centralidade da tecnologia na estrutura do desejo, e não apenas o seu uso instrumental. Deixa de ser um simples meio de excitação para se tornar o foco principal da experiência sexual», reforça.

Interrogada se esta pode estar associada a isolamento social ou ansiedade, a especialista responde que «sim»«Há pessoas que recorrem a interações digitais por excesso de timidez, fobia social ou dificuldade em estabelecer relações afetivas presencialmente», afirma Elsa Rocha Fernandes. Outras fazem-no por «curiosidade, conveniência ou mera escolha». «O risco surge, em especial, quando o digital substitui totalmente o contacto humano e a pessoa passa a evitar o mundo real, podendo alimentar sentimentos de isolamento e solidão», alerta.

A médica lembra ainda que alguns estudos apontam que o reforço dopaminérgico e o controlo total sobre a experiência digital «podem reduzir a tolerância à frustração e a flexibilidade relacional». «Quer isto dizer que a tolerância para as dificuldades próprias da relação sexual, e íntima, com outros seres humanos fica reduzida», frisa.

Sobre os impactos emocionais e psicológicos, a médica conta que, para alguns autores, existem aspetos positivos a destacar como: «a exploração segura e livre da sexualidade, o aumento do autoconhecimento bem como a ausência de riscos físicos, como infeções sexualmente transmissíveis ou violência sexual». No entanto, e enquanto psiquiatra, Elsa Rocha Fernandes, destacaria alguns aspetos negativos resultantes da privação de contacto humano e uso exclusivo deste tipo de expressão sexual: «o isolamento e empobrecimento da intimidade emocional, dependência de estímulos rápidos e previsíveis ou, ainda, dificuldade em manter relações afetivas complexas e reais».

A domesticação dos dispositivos eletrónicos

Para Nuno Correia de Brito, Investigador do ICNOVA da FCSH da Universidade Nova de Lisboa e Professor de Ciências da Comunicação no Politécnico de Leiria, a chamada «domesticação» dos dispositivos eletrónicos tem sido uma tendência no mundo atual e já ninguém passa sem os seu smartphone ou o seu computador pessoal. «São vistos como extensões dos sentidos humanos. Funcionam como próteses e amplificam as condições do sujeito», refere à VERSA. «Numa discussão ontológica, muitos autores e pensadores caracterizam o ser humano ampliado tecnologicamente de pós-humano. Os fluxos informacionais assaltam-nos a todo o momento e a construção de um microcosmos, uma espécie de ‘bolha’ em que a informação e os estímulos são geridos, de forma a reduzir a contrariedade à qual estamos sujeitos nas interações sociais», explica. Assim, nesta realidade algorítmica, «vivemos em ambientes processados, como ratinhos à volta de si próprios, sem sair do mesmo sítio. Se isto é desejável para alguém? Possivelmente será!», acredita.

De acordo com o especialista, há muito que a ficção científica, no cinema por exemplo,  tem vindo a antecipar este fenómeno. No filme Her (2013), um homem apaixona-se e desenvolve uma relação romântica com a sua assistente virtual, desenhada para satisfazer as suas necessidades. O filme Blade Runner 2049 (2017) vai mais longe, a assistente virtual materializa-se através de projeções holográficas, chegando a relacionar-se sexualmente com o protagonista.  «Sabemos hoje da existência de robôs humanoides para apoio em várias tarefas domésticas, muitos deles desenvolvidos por gigantes tecnológicos. Portanto, a relação com os objetos, com as aplicações e com os assistentes virtuais é um dado adquirido», garante Nuno Correia de Brito. «Algumas aplicações e agentes de IA foram já desenvolvidos com o objetivo de ser uma companheiro/a e permitir um relacionamento romântico e amoroso, se é possível chamar-lhe assim,  com o utilizador.  Tem a capacidade de colectar dados sobre o utilizador e de os processar de forma a se adaptar aos gostos, expectativas e interesses. Pelo que a contrariedade na relação não existirá, e tudo será um ‘mar de rosas’», conta. Portanto, continua o especialista, o antropomorfismo presente nos dispositivos e nos assistentes virtuais, quer pela voz humana, quer pela aparência, «criaram as condições para a construção de relações, com caráter parassocial». «Ou seja, quando se coloca um processo emocional unidirecional, pois a máquina não sente, mas desenvolve uma relação dialógica com o ser humano baseada na simulação», pormenoriza. «Estes simulacros podem ser usados de forma positiva, por exemplo, para tratar problemas de saúde a nível psicológico, como poderão ser promotores desses mesmos problemas», alerta.

De acordo com o investigador do ICNOVA da FCSH da Universidade Nova de Lisboa, a investigação atual sobre relações românticas com IA é «limitada». Todavia, alguns incidem sobre a utilização da Replika, criada pela Eugenia Kuyda, enquanto trabalhava na Luka Inc,. «A aplicação, lançada em novembro de 2017, permite escolher vários perfis de relacionamento, como ‘amigo’, ‘parceiro’, ‘cônjuge’ ou ‘irmão’. Em 2024 os promotores informaram que o total de utilizadores havia ultrapassado os 30 milhões», conta.

Segundo Elsa Rocha Fernandes, é importante ainda referir que as interações sexuais com, e através, da inteligência artificial e robótica trazem dilemas éticos importantes. «Para o psiquiatra, e sexólogo, torna-se imperativo refletir não apenas sobre os aspetos de saúde mental associados a estas interações mas outros igualmente importantes. Afinal, que limites colocar quando falamos de consentimento estando o indivíduo perante uma máquina? E como deve este proteger a privacidade dos dados íntimos recolhidos pelas plataformas? Como integrar os valores morais, sociais e a primazia da interação física, sexual e emocional entre os humanos para que não sejam relegados a uma inconveniência, ao invés de uma prioridade? Além disso, os estereótipos relacionados com estas práticas bem como a objetificação sexual são riscos inerentes», afirma a médica, acrescentando que é possível que a digissexualidade se torne mais prevalente, e socialmente visível, acompanhando a crescente integração entre biologia e tecnologia (biotech). «A Psiquiatria deve preparar-se para compreender e acompanhar a sexualidade humana na era digital e robótica, com uma postura científica e empática evitando tanto a patologização excessiva quanto a banalização acrítica», remata.

E Nuno Correia de Brito concorda, realçando a ideia de que «vivemos numa sociedade altamente individualista, conducente a construções narcisistas, com base em simulacros e simulações». «Uma realidade perigosa se não for devidamente regulada e controlada, através da legislação, proibindo e sancionando utilizações prejudiciais da IA, assim como a promoção de ações de literacia para os mais jovens, na escolas, no sentido de dotá-los de sentido crítico e ético sobre os efeitos da IA, pois o Narciso acabou por morrer afogado ao ver-se espelhado nas águas, de acordo com a mitologia grega», aponta o investigador.