Adolfo Mesquita Nunes: “Soares, Thatcher,  Passos tomaram decisões contra o sentir do povo”

Numa conversa inquieta, Adolfo Mesquita Nunes, autor de Algoritmocracia (D. Quixote), fala sobre a tirania do algoritmo, o desaparecimento dos moderados e a lenta erosão das instituições democráticas.

Paulo Portas escreve, no prefácio do seu livro Algoritmocracia, que é um dos nossos melhores ‘PIB’ (Produto Intelectual Bruto). Mas sabemos que, por vezes, os intelectuais se têm enganado. Desta vez, em que gostaria de estar enganado?

O livro é escrito em diálogo com alguém que não concorda comigo. E há uma pergunta: mas um dia, as pessoas, o eleitorado, não se vão cansar deste clima conflitual, bélico, maniqueísta, binário? Não vão voltar a preferir o conforto de uma política mais calma, mais moderada? Não se vão cansar disto? Tenho esperança que assim seja, mas acho pouco provável. O sistema algorítmico em que vivemos – e que não se limita à política, porque tem a ver com a nossa dependência em relação aos estímulos – penso que se vai intensificar e, com ele, este clima. Não me parece que vá moderar-se.

Como escreve no livro, ‘os moderados são os novos apátridas’. Gostava de estar enganado aí? Isto é, gostava que houvesse uma resposta social e cultural da sociedade… mas que agora não vislumbra?

Não. E é por isso que o livro existe. Não me parece que haja consciência de que estamos a viver dentro desta algoritmocracia.

Mas não lhe parece que as elites têm essa noção, ainda que cristalizadas, incapazes de fazer passar essa inquietação de cima para baixo?

Procuro dizer isso no livro, que esta fase mais conflitual, mais beligerante, mais fragmentada politicamente não é apenas uma fase. Não estamos a viver um momento em que isto simplesmente ‘acontece’. É o resultado de um ecossistema que premeia esse tipo de realidade. Ou intervimos nesse ecossistema – e daí o livro –, ou a tendência será para que se intensifique. O primeiro propósito do livro é dizer: temos um problema, isto existe, está a acontecer. E não creio que a sociedade tenha ainda consciência disso. Isto afeta políticos, jornalistas, o próprio ecossistema mediático. E nem estou certo de que o papel do algoritmo seja hoje suficientemente conhecido. O que procurei fazer foi mostrar, naquilo que já é comprovável e evidenciável – o ecossistema informativo –, que os algoritmos estão a influenciar politicamente as sociedades, a polarizá-las, a torná-las mais radicais e a dar espaço aos partidos populistas.

O livro também nos mostra como a Inteligência Artificial está a fragilizar a confiança nas instituições democráticas. Quais são, para si, os sinais mais preocupantes?

Entre os mais preocupantes, destaco a degradação da importância da ciência. Hoje é fácil, é popular, é viral dizer que uma descoberta científica ou que factos científicos comprovados estão errados.

Desde logo, quando há quem acredite e partilhe que a Terra é plana?

Ou a questão das vacinas infantis, que voltam a provocar surtos porque há pais que, ao procurarem informação sobre vacinas, encontram apenas desinformação filtrada pelos algoritmos. Esse efeito de degradação do papel do conhecimento é, para mim, evidente. Mas há outras instituições: os tribunais e os parlamentos. O que está a acontecer no Parlamento português é deliberado. Existe um grupo parlamentar que está lá não apenas para apresentar propostas radicais ou populares, mas com o propósito claro de transformar o Parlamento numa instituição que ninguém consegue ouvir.

No entanto, não são maioritários. Como é que a maioria…

Deixe-me reforçar este ponto, que considero importante: há uma estratégia deliberada de transformar o Parlamento numa instituição desacreditada. Os populistas degradam a qualidade do Parlamento porque o Parlamento não lhes serve. O mesmo acontece com os tribunais. E aqui entra quase todo o panorama político. Sempre que o Tribunal Constitucional decide o que quer que seja, o mais comum – mesmo entre partidos que se dizem de centro e do sistema – é acusá-lo de estar vinculado a uma qualquer ideia preconcebida, que não está ‘em linha’ com a sociedade. Ora, em primeiro lugar, o Tribunal Constitucional tem de estar em linha com a Constituição, não com a sociedade. E é extraordinário como, no mesmo ano, podemos ouvir uns a jurar a pés juntos, por causa da eutanásia, que o TC está ‘feito’ com os setores mais conservadores; e outros, por causa da lei da imigração, a dizer o contrário, que o TC está ‘feito’ com os setores mais progressistas. O cidadão comum, perante isto, o que vai pensar? Que o TC não deve ser respeitado, porque é um tribunal ‘metido na jogada política’. Portanto, quando deixamos de confiar na ciência, no Parlamento, nos tribunais e nos jornalistas… onde é que vamos, enquanto cidadãos, descobrir o que é verdade? Vamos descobri-la no líder mais carismático – e passamos a acreditar que é verdade aquilo que se alinha com os nossos preconceitos, dito com mais barulho e pelo líder em quem decidimos confiar.

O debate público está a marginalizar o que é essencial?

Se, todos os dias, vejo vídeos que me garantem que as escolas ensinam miúdos de quatro anos a serem homossexuais, é natural que, passado algum tempo, eu esteja profundamente revoltado com essa ‘circunstância’ e reaja perante uma indignidade dessas. E como basta ‘clicar’ duas vezes nesses vídeos para que continuem a aparecer, temos o problema das perceções. O perigo das perceções não é o político deixar de estar sintonizado com as preocupações das pessoas – é essas preocupações serem induzidas, manipuladas. Que não correspondam ao sentir vivido da população, mas que lhes sejam impostas por uma estrutura algorítmica.

Mas não estamos com a sensação de que estes líderes fazem uma leitura muito eficaz de para onde é que vai o povo?

Mário Soares, Margaret Thatcher, Pedro Passos Coelho, para dar três exemplos de líderes que foram verdadeiros líderes, admirados pelo seu espaço político, e que, lamento dizê-lo, tomaram muitas vezes decisões contra aquilo que era suposto ser o sentir do seu povo. O papel de um líder é, sim, interpretar a população, perceber quais são os seus principais problemas e liderar – não é ser eco, é liderar. E a História mostra que os verdadeiros líderes souberam, muitas vezes, perceber que aquilo que tinham de fazer, a médio e a longo prazo, aquilo que estavam a ver, porque são líderes, o seu povo ainda não via.

Acaba de me dizer que há espaço para o regresso de Pedro Passos Coelho?

Não é disso que estou a falar… não vou falar sobre isso.

No seu livro diz que as plataformas sociais não têm ideologia. A ideologia ainda faz sentido?

Repare: quando digo que não têm ideologia, o que procuro explicar é que o funcionamento dos algoritmos nos condiciona, mesmo que não haja nenhuma intenção deliberada da plataforma em fazê-lo na direção A ou B. Porém, é legítimo perguntarmo-nos: quando os donos dessas plataformas tomam posições políticas tão firmes – como foi o caso de Elon Musk –, será que a sua estrutura algorítmica não nos está, de facto, a influenciar? E é.

Mas Musk tem estado a ser derrotado. Foi recentemente derrotado no apoio que deu a um candidato a mayor de Nova Iorque?

Isto é muito importante: não podemos achar que o populismo só ganha quando vence eleições. O populismo ganha quando condiciona por completo a agenda política, as prioridades políticas; quando torna a sociedade mais conflituosa; quando torna difíceis as conversas em família, entre amigos, entre colegas – sobre assuntos que antes eram falados com naturalidade. O facto de os partidos populistas perderem eleições, isto é, de não as ganharem, não significa que estejam a perder naquilo que é mais importante: voltarmos a ter uma sociedade com um chão comum, uma verdade partilhada, capaz de chegar a acordos essenciais em políticas públicas.

O populismo e o radicalismo são fenómenos antigos, acentuados hoje pela Inteligência Artificial, que lhes deu nova força?

Completamente. Sempre houve partidos populistas e políticos mentirosos. O que acontecia é que existia um ecossistema político e informativo que não lhes permitia ter a força que hoje têm. Por um lado, porque a mentira não circulava com a mesma facilidade; por outro, porque, mesmo quando circulava, era rapidamente desmentida. O que os algoritmos fazem é dar robustez ao populismo e permitir que a mentira tenha pernas muito compridas.

Fiquei com a ideia de que culpa mais os extremismos de esquerda do que os de direita pelo estado a que chegámos. E ainda encontra na ‘geringonça’ um momento de rutura que nos conduziu até aqui?

Não, sinceramente. Aliás, sou acusado do contrário – de estar mais preocupado com o populismo de direita. E é verdade: estou, muito mais. Não concordo nada com essa sua perceção.

Mas considera que o populismo de direita se tornou mais eficaz?

Não só se tornou mais eficaz, como tem tido muito mais êxito – e contamina o meu espaço político. O que refiro sobre a ‘geringonça’ não é o mais relevante. Comecei por explicar por que me sinto profundamente incomodado com o que estava a acontecer no meu espaço político e percebi, sobretudo após a ‘geringonça’, que esse espaço estava, de facto, a ser contaminado por um maniqueísmo que não lhe reconhecia, por um radicalismo que não lhe era próprio. Depois percebi que isto estava a acontecer um pouco por toda a Europa – e lá não houve ‘geringonça’ nenhuma. Ou seja, trata-se de algo mais estrutural, que procurei compreender.

Algures acusa o PSD e o CDS de terem jogado à defesa?

Não, pelo contrário. O que digo é que o PSD e o CDS foram confrontados pelos seus eleitorados e militantes com a sensação de que não estavam a ser radicais o suficiente para combater a esquerda. E eu fiz parte de uma direção que procurou fazer oposição com moderação.

No entanto, não acha que o problema da sua área política já não é tanto o combate à esquerda, mas à direita radical?

Não pretendo falar de política nacional. Esta introdução não é para debate, serve apenas para explicar porque é que cheguei à vontade de escrever este livro, que nasce muito da minha experiência pessoal.

Sente que, nestes tempos, temos mais líderes reativos do que líderes ativos?

Repare, o ponto é este: políticos, comentadores e jornalistas só conseguem ser ouvidos se passarem pelo crivo dos algoritmos. Esse é o problema. Os algoritmos estão a condicionar os títulos dos jornais, as perguntas que são feitas, a forma como os com ‘ entadores se comportam na televisão, o que dizem, como reagem, e estão também a condicionar a forma como os políticos falam hoje.

Há pouco falávamos de líderes, e referiu Pedro Passos Coelho. Ou seja, acredita que ainda há líderes capazes de navegar nestas águas tumultuosas?

Acredito que esse é o papel do líder. Mas não vou falar da situação política portuguesa. Mais perguntas?

As plataformas não distinguem entre quem quer promover um detergente e quem quer promover um candidato?

As plataformas estão apenas interessadas na nossa atenção. Um algoritmo não sabe distinguir o que é verdade ou mentira; não promove a mentira por querer promover a mentira, promove o conteúdo que gera reação, seja ele sobre flores ou vacinas. É apenas a métrica da atenção que conta.

Olhando para a pré-campanha presidencial, em que é que identifica este tipo de fragilidades?

Penso que a profusão de candidatos presidenciais, quase única na nossa história, sobretudo à direita, é sintoma de uma estrutura política algoritmizada, que cria bolhas em que cada uma precisa do seu candidato. Por isso há tantos. Atenção: os algoritmos explicam boa parte do fenómeno, mas não tudo, evidentemente. Ainda assim, esta quantidade inédita de candidatos tem muito que ver com essa lógica algoritmizada.

Também significa que as democracias liberais estão mesmo em risco?

As democracias liberais já não acabam com um golpe de Estado. Acabam com a degradação lenta das suas principais instituições. Quando a população deixa de acreditar nos resultados eleitorais, nos tribunais, no Parlamento, na Academia… a democracia liberal tem pouca capacidade de resistir. Deixa de haver mediação entre o eleitorado e quem decide, e as pessoas passam a confiar naquele que fala mais alto ou mais convictamente. Hannah Arendt dizia, ao estudar as origens do totalitarismo, que as ditaduras não querem fazer-nos acreditar numa coisa em particular, querem fazer-nos acreditar em nada, para nos tornarmos totalmente vulneráveis ao líder demagogo. Sim, as democracias liberais estão a mostrar sinais de degradação. Em Portugal e em Espanha essa degradação não tem partidos, mas, e como explico no livro, até agora tem sido o populismo de direita a ganhar mais força.

Este livro dá paz aos seus leitores?

Não. Espero que não. Espero que os desperte para o problema, para que também eles participem no debate.