Arqueólogo e investigador do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, foi diretor do Museu Monográfico de Conimbriga entre 1999 e 2017. «Entrei em Conimbriga em 1990», recorda Virgílio Hipólito Correia ao Nascer do SOL. «Mas, sem falsas modéstias, considero-me herdeiro de uma tradição mais antiga que remonta ao final do século XIX e, em concreto, tive o prazer e o privilégio de trabalhar com o Dr. Bairrão Oleiro, primeiro diretor do Museu, e com a Dr.ª Adília Alarcão, diretora do Museu entre 1967 e 1999, de quem me considero discípulo».
Com mais de uma centena de trabalhos publicados, o arqueólogo acaba de ver a sua obra Conimbriga: a vida de uma cidade da Lusitânia, uma súmula de 35 anos de estudo, distinguida com o Prémio Joaquim de Carvalho 2025, num momento em que novas escavações prometem trazer à luz do dia aspetos desconhecidos do quotidiano naquele povoado.
Para começar, existe aqui uma coincidência que gostaria de assinalar. Virgílio Correia foi precisamente um dos grandes arqueólogos que escavaram Conimbriga.
É uma coincidência daquelas que não se acredita, porque eu não tenho nada a ver com o professor Virgílio Correia, que se chamava José Virgílio Correia Pinto da Fonseca e foi escolher os dois nomes do meio para o seu nom de guerre. Eu não conhecia sequer a existência do senhor quando fui estudar para a faculdade. Desde essa altura passou a haver muita gente que acha que sim…
Que só pode ser familiar.
Tenho até uma série de anedotas, de situações que se passaram com pessoas que estavam absolutamente convencidas de que havia alguma relação. Uma delas entrou-me no gabinete, virou-se para mim e disse: ‘Ah, fazia-o uma pessoa de mais idade’. [risos] Virgílio Correia deve ter morrido em 1944 ou coisa do género… De facto é meramente uma coincidência.
Quando se fala do Portugal Romano, Conimbriga é talvez o primeiro nome que nos vem à cabeça. Essa primazia, digamos assim, resulta da importância de Conimbriga ou resulta sobretudo de ser uma povoação que nós conhecemos bem? Imagino que o facto de ter deixado de ser habitada também ajudou.
Em primeiro lugar é uma questão histórica. Conimbriga está às portas de Coimbra, uma universidade que teve um peso importantíssimo na formação da intelectualidade portuguesa, inclusivamente do corpo docente espalhado por liceus e escolas de todo este país. Conimbriga como um local visitável é importante antes até das escavações começarem, era um local conhecido por ser antigo. E, portanto, havia uma determinada frequentação turística, um pouco romântica, de ir ver as antiguidades e as muralhas. Isso teve um impacto absolutamente determinante. Por outro lado, no país em geral, investia-se muito pouco em arqueologia. Não havia grandes escavações. Isso teve um impacto até desproporcionado relativamente ao que a cidade foi no período romano. Era uma cidade, digamos, da gama média-baixa entre as cidades da Lusitânia. Mas, como diz, e isso tem um efeito absolutamente determinante, o facto de ter sido abandonada na Idade Média deu uma facilidade às escavações que noutros sítios não houve. E, de novo, a proximidade de um centro universitário também facilitou essas escavações. Tudo isso teve efeito em termos de conhecimento popular. Agora já um pouco menos, mas havia escolas de todo o país a visitarem sistematicamente Conimbriga. Ainda hoje vemos no museu visitas familiares: ‘Eu vim cá quando andava na escola, trouxe cá os meus filhos e agora trago os meus netos’. É o tipo de coisa que marca o imaginário das pessoas.
Conimbriga, como nos explica no seu livro, não surgiu do nada. Antes já existia um oppidum, uma povoação fortificada.
O local onde se forma a cidade romana é habitado desde finais do segundo, inícios do primeiro milénio antes de Cristo, desde o final da Idade do Bronze.
1100 a.C.?
Sim, 1100, 1000 antes de Cristo. E os que estudam a toponímia antiga dizem que se calhar já se chamava Conimbriga, ou qualquer coisa parecida. A cidade cresce a partir daí. Durante a Idade do Ferro é um centro regional importantíssimo e depois os romanos reconhecem-na como tal e acabam por enquadrá-la e depois promovê-la do ponto de vista jurídico e urbanístico.
Disse que era uma cidade ‘modesta’ – teria cerca de 10 hectares, e segundo um cálculo por alto, uns 3 mil habitantes, não é?
Um pouco mais. A cidade, na sua expansão máxima, que corresponde a uma muralha construída no reinado de Augusto – 10 a.C.- mudança da era – tinha 22 hectares. Mas esta muralha foi construída por excesso e nunca a população a preencheu por completo. O cálculo da população é complicado porque só temos cerca de 3 hectares escavados, cerca de 17% da área total, e, portanto, a extrapolação do que nós conhecemos para essa área toda é complicada, mas a cidade pode ter tido 5 mil, 6 mil habitantes. Dito isto, o cálculo tem uma margem de erro de 25%, ou seja, podiam de facto ser os 3 mil, ou podiam ser 8 mil. É difícil e além disso deve ter havido grandes flutuações, até porque sabemos que no período romano houve grandes epidemias, como a chamada Peste Antonina, que foi uma coisa da dimensão do que viria a ser a Peste Negra. Portanto, estamos sempre a lidar com situações fluidas, que na verdade temos relativamente poucos dados para avaliar.
O que é hoje a cidade de Coimbra propriamente dita era na época romana Aeminium. Estas duas povoações, Aeminium e Conimbriga, equivaliam-se ou havia alguma mais dominante?
Eram cidades equivalentes. No período pré-romano, porventura, Conimbriga era mais relevante do que Aeminium. No período romano, equivalentes, ou talvez Aeminium tenha ganho uma maior predominância, por estar mais no que era o estuário do Mondego. Por exemplo, o forum de Aeminium, que está hoje debaixo do Museu Machado de Castro, era sensivelmente mais monumental do que o forum de Coimbra. Isso talvez já queira dizer alguma coisa. Mas eram duas cidades equivalentes, porventura, em volume de população e juridicamente. Já no período medieval, e na primeira reconquista de Coimbra por Afonso III de Leão, em 868, este resolve abandonar o que reconquista abaixo do Mondego.
Concentra tudo em Coimbra.
Assume o Mondego como uma fronteira e diz: ‘O que está aí para baixo não me interessa’. E transfere o bispo e a população para norte do Mondego, nomeadamente para Coimbra. Isto faz com que na reorganização da região, na segunda reconquista, de 1064, como o bispo de Conimbriga está em Aeminium, a região passa a ser toda ela designada por Conimbriga, já corrompido em Coimbra. E assim o topónimo passa da cidade abandonada para a cidade que continua. Mas até aí são dois polos habitacionais equivalentes. Sobretudo no período tardo-Romano, é uma situação de uma ‘diápole’, o que não é muito comum, uma vez que os romanos tendiam a distribuir regularmente as cidades. Trata-se de duas cidades muito próximas, de certeza complementares do ponto de vista económico, se calhar do ponto de vista social – há alguma evidência das aristocracias de uma e da outra serem intermutáveis, os de Conimbriga casam com os de Aeminium e vice-versa –, e essa complementaridade só se vem a romper na Idade Média.
Portanto é mais ou menos por aí, na segunda metade do século IX, que a cidade é abandonada.
E isso tem a ver também com a própria degradação das condições habitacionais em Conimbriga. Algures entre o final do período Visigótico e o período Árabe, o aqueduto é interrompido, ou por falta de manutenção ou devido a uma destruição intencional pela conquista árabe. Isso tem certamente um efeito devastador na habitação da cidade, que fica num planalto seco.
Há pouco falou no forum. Sabemos que era o centro da vida cívica, mas se calhar temos uma ideia um pouco romântica de que as pessoas estavam lá sempre a discutir política e filosofia. O que era exatamente o forum, o que havia e o que se fazia lá?
O forum de Conimbriga tem uma situação complexa e paradoxal, digamos assim. A vida política das pequenas cidades provinciais romanas, ainda que de alguma forma tentasse imitar o que se passava no Senado em Roma, era uma coisa dominada por ‘meia dúzia’ de famílias. A vida política propriamente dita seria relativamente elementar, suponho até que teria uma reduzidíssima participação democrática, se é que os romanos alguma vez verdadeiramente a tiveram… No momento original o forum de Conimbriga é de facto construído como um centro cívico, ou seja, é uma praça – aliás é isso que a palavra forum significa – que tem umas lojas certamente destinadas a comércio de luxo e, um pouco mais tarde, uma basílica e uma sala de reunião dos magistrados. Estranhamente, quando a cidade é promovida a município, e precisaria então desses edifícios, há uma remodelação urbanística e este forum é transformado, pura e simplesmente, num santuário de culto ao imperador, ou seja, aparentemente a vida política da cidade naquele local reduz-se, provavelmente, com um calendário anual de algumas manifestações mais religiosas do que propriamente cívicas, de homenagem aos imperadores. Digo provavelmente porque eles vão fazer algures noutro ponto da cidade, que nós não conhecemos, os edifícios de que necessitam para a vida quotidiana. O forum era grande, levava muita gente, mas não devia ser um local de frequentação diária comum, até porque, embora o edifício seja muito grande, tem apenas uma porta. Isso significa que a sua frequentação é até bastante cerimonial e controlada, entra-se por ali, dá-se a volta, vai-se ao templo e volta a sair-se. Agora, a cidade tinha de certeza outras instalações onde a vida quotidiana decorria, nomeadamente as termas, e nós conhecemos três conjuntos de termas públicas em Conimbriga, o que é também um pouco quase desproporcionado para o tamanho da cidade, mas como o aqueduto transportava bastante água, não tinham dificuldades de água, e isso se calhar era um local de discussão política mais importante do que propriamente o forum. E depois havia o anfiteatro, que é o grande palco da política local, se quiser. Quando um indivíduo que se propõe a ser duúnviro [alto magistrado] oferece jogos de anfiteatro à população, aí sim, é uma coisa de outra escala.
Estamos a falar de que tipo de jogos? Combates de gladiadores?
Seriam jogos de gladiadores, quase certamente. Poderia haver jogos com animais, as chamadas venationes, ou seja, caçadas. Não temos evidência nenhuma de que tenha havido importação de animais selvagens para Conimbriga. Estamos agora com um projeto para estudar os ossos de animais. Para dar um exemplo, nos mosaicos temos umas coisas que percebemos que são leões, mas estão tão mal representados que provavelmente quem fez aquele mosaico nunca viu um leão [risos], portanto se calhar não houve, mas também se sabe que eles faziam jogos com outro tipo de animais, às vezes animais locais, que eram capturados especificamente para depois serem caçados na arena. Mas a verdade é que não sabemos, até porque fizemos duas ou três sondagens, mas ainda não houve possibilidade de escavar o anfiteatro em condições.
As termas, pelo que disse, também seriam de acesso a toda a gente, e não só para a elite.
Isso está relativamente estudado a nível geral. Toda a gente frequentava as termas. Havia, ou por regulamento, ou pura e simplesmente por prática social, alguns condicionalismos relativamente à frequentação pelos homens livres da cidade, que normalmente frequentavam as termas de manhã, quando a água ainda estaria…
Mais limpa.
Passável [risos]. Depois as mulheres – em Conimbriga há umas instalações que parecem ter uma parte reservada para as mulheres, mas se não for esse o caso as mulheres frequentariam da parte da tarde. Ao fim do dia as termas eram abertas aos escravos. Genericamente a esmagadora maioria da população iria às termas, quase dia-sim-dia-não, ou coisa do género.
A vida da cidade é muito influenciada pelos ciclos políticos – estou a pensar numa mudança de imperador – ou decorre de forma mais ou menos autónoma destes?
Realmente não. Um exemplo: quando – provavelmente sob Domiciano – se renova o forum de Conimbriga, as estátuas existentes (da dinastia julio-cláudia) são reinstaladas na nova arquitetura, com algumas estátuas da nova dinastia, mas nada é eliminado (com a possível excepção de um retrato de Nero jovem, mas esse também não é seguro). E o modelo arquitetónico escolhido para o forum é o (então já velhinho) forum de Augusto.
Normalmente neste tipo de locais arqueológicos o que sobrevive, pela sua durabilidade e resistência, são as pedras e a cerâmica. Isto às tantas pode dar-nos uma ideia um pouco errada. Ouvi alguém dizer que a Idade da Pedra também foi uma idade da madeira, simplesmente a madeira não subsistiu.
De certeza absoluta. Até porque, quando se olha para as casas de Conimbriga, a primeira coisa que muita gente pensa é: ‘Como é que isto era coberto?’. Era coberto por telhados assentes em travejamentos. E até os edifícios domésticos têm salas de uma dimensão que obrigava a madeiramentos importantes. Seriam obras de carpintaria e de engenharia muito significativas. Além disso, numa cidade que era obviamente de base agrícola – porque a cidade sobrevivia de explorar o território – tinha que haver uma carpintaria de utensílios, dos arados, dos carros, de tudo o que imaginar se possa. Hoje entramos num museu de etnografia e vemos sobretudo madeira e verga. Isso é óbvio que perdemos por completo, ficámos com as partes de ferro também porque, felizmente, graças ao tipo de solo de Conimbriga, os metais se conservam relativamente bem. Temos uma coleção de utensílios agrícolas que é surpreendente, até pelo seu aspeto quase contemporâneo. Tirando as enxadas, que têm um formato um pouco diferente, uma pessoa olha para uma foice e olha para um sacho e diz: ‘Isto é igual à foice – ou ao sacho – que está ali em casa do Ti Jaquim ou do Ti Manel’. Sabemos que têm dois mil anos porque vêm de estratigrafia e aí aparentemente houve uma evolução tipológica relativamente pequena. Mas é isso: sobreviveu o que é de pedra, de cerâmica e de metal. O resto temos que imaginar.
Em Conimbriga existe alguma coisa parecida com uma lixeira? Em Pompeia foi daí que se retirou muita informação preciosa.
Temos várias lixeiras, aliás, os nossos prémios é quando encontramos uma lixeira, porque de facto encontra tudo. Só que as condições de conservação da própria lixeira não permitem conservar os materiais orgânicos. Em Pompeia, por vezes, conseguem recuperar pelo mesmo método com que recuperaram os corpos – a cinza vulcânica fez o invólucro, despejam o gesso, tiram o molde e ficam a ver o que tem. Em Conimbriga não temos esse género de conservação. E depois, como é um clima bastante seco, não temos a sorte que têm nalgumas zonas do norte de Inglaterra, que é, pelo facto de as coisas estarem ou em turfeiras ou em zonas muito húmidas, ensopadas, não há oxigénio, portanto não há micro-organismos e ainda retiram, por exemplo, uma bota de couro inteira… não temos essa sorte.
E também não se conhece a necrópole.
Pois.
Imagino que isso seja uma enorme falha, porque muitas vezes é através dos esqueletos que podemos conhecer aquelas pessoas e perceber como viveram.
Não conhecermos a necrópole é uma grande perda para o museu, porque normalmente das necrópoles é que vêm os vasos bonitos, os vasos inteiros.
Os adornos…
E não temos isso. Mas temos outra coisa que é importante. Quando a cidade viu o seu perímetro reduzido, o que aconteceu no final do século III e início do século IV, em que foi construída uma muralha mais pequena, as necrópoles também se aproximaram dessa muralha e, portanto, temos uma série relativamente importante de enterramentos desde inícios do século IV até ao século X, que é quando a cidade finalmente parece ser abandonada. Só que, infelizmente, entre o século IV e o século X já não era hábito colocar grandes ofertas nas sepulturas. Portanto, as sepulturas que nós gostaríamos de conhecer, as sepulturas de incineração do século I ou do século II, em que as cinzas do defunto eram colocadas numa urna rodeada por outros objetos, algures numa cova, ou depois, no século III, as sepulturas já de inumação, mas também acompanhadas por oferendas, essas estariam obviamente fora da muralha – os romanos não deixavam enterrar as pessoas dentro das muralhas – sobretudo, pensamos nós, ao longo da via que ligava Conimbriga a Aeminium, e nunca houve qualquer achado ocasional que mostrasse alguma coisa. E, por outro lado, é uma área que está sob uma fortíssima pressão urbanística. Basicamente o primeiro setor está debaixo de Condeixa-a-Velha e de Condeixa-a-Nova, e portanto…
Não se consegue aceder.
Não há grandes possibilidades.
Em relação ao comércio, sabemos de alguma especialização, de oficinas, lojas?
A cidade desenvolveu uma gama de atividades industriais enorme. Era uma cidade onde praticamente se faria de tudo, desde a cerâmica ao material de construção, ao trabalho do bronze, do ferro, etc. Como seria, aliás, normal em praticamente todas as cidades romanas, a não ser algumas que estivessem em zonas que simplesmente não tinham os recursos para produzir alguma coisa. Os romanos o que podiam, produziam localmente. E depois tentavam produzir um pouco em excesso para poderem exportar, para terem a possibilidade de importar material de luxo, que era basicamente o que os preocupava. Em Conimbriga houve um investimento importante em duas culturas de rendimento, que foi o vinho e o azeite, ainda hoje a região é propícia a esse tipo de cultivos. Na altura manifestamente também já era, de tal ordem que a cidade chegou a produzir localmente ânforas para exportar vinho. Primeiro, imitando modelos de ânforas de outras regiões, nomeadamente da Gália e do Sul de Espanha, e depois, inclusivamente, inventando um modelo específico de ânfora. Com o azeite passa-se algo semelhante. E podemos pensar que as outras atividades económicas também iam pelo mesmo regime. Nomeadamente a produção de têxtil, de que há evidência de uma atividade extraordinariamente importante, de que nós conseguimos ter uma ideia pela quantidade de conjuntos de pesos de tear, marcados com o nome de vários proprietários. Temos a evidência de 60, 70 unidades diferentes. A produção cerealífera, sobretudo para alimentar a própria cidade de Roma, que estava permanentemente a passar fome, também era sempre um problema. Quem explorava fosse o que fosse sabia que, no quadro do império, se tivesse um excedente, encontrava, de certeza, o canal comercial para o exportar.
Já falámos de raspão sobre as casas. O nos dizem acerca da diversidade social? Temos casas de pobres, de ricos e de remediados, diferentes níveis sociais?
A desigualdade social numa cidade romana como Conimbriga era dificilmente imaginável. Mesmo para os dias de hoje, mesmo na sociedade de terceiro mundo mais extrema que se possa pensar. Em Conimbriga, nos três hectares que temos escavados – isto não é por extrapolação, é do que nós vemos – conhecemos cerca de 80 unidades residenciais distintas. Tanto pode ser uma casa como pode ser, por exemplo, uma divisão – o armazém de qualquer coisa, onde ficava o escravo a dormir, para terem a certeza de que não era roubado durante a noite. Destas 80 unidades residenciais, duas, a Casa de Cantaber e a Casa dos Repuxos, ocupam quase 60% da área residencial total. Não sou capaz de fazer a extrapolação, para os dias que hoje, da história do 1%…
Muito rico…
É pior. Em termos de ocupação do espaço, é pior. A desigualdade social era extraordinária. Noutros casos, os romanos chegaram e construíram uma cidade de novo, dividida a regra e esquadro, por ruas que se cortam perpendicularmente, onde as casas são construídas quase como módulos, e haverá alguma desigualdade social, mas há uma base, não vou dizer igualitária, mas mais ou menos equitativa. Em Conimbriga isso não acontece. A cidade mantém a sua estrutura pré-romana, do ponto de vista do urbanismo e do cadastro, portanto também de certeza que a mantém do ponto de vista da sua composição social. Não vamos imaginar que na Idade do Ferro havia uma espécie de comunitarismo igualitarista. A sociedade pré-romana de certeza que já tinha desigualdade, que depois as desigualdades inerentes à vida política e económica romana vêm agravar. E portanto seria um pouco…
Chocante?
Chocante, de certeza absoluta, chocante. Vamos até deixar de lado os extremos. Mesmo na faixa intermédia. Ao todo são cinco as casas que têm mosaicos em Conimbriga. Nas outras, se tivessem um tapete no chão, estavam cheios de sorte. O contraste disto com a maioria das habitações, que quase de certeza eram simultaneamente habitação e oficina, compostas por dois, três compartimentos – e muitas vezes o terceiro compartimento era já uma nesga, um desvão, um armazém esquisito lá ao fundo – seria extremo.
Para terminar. Ainda há descobertas por fazer em Conimbriga ou já sabemos tudo?
Essa pergunta é importante. Um ponto central da atividade do Museu de Conimbriga é precisamente a continuação da investigação arqueológica da cidade. Neste momento, o Museu colabora com a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra num projeto de investigação do Vale Norte da cidade, a zona recentemente adquirida que liga a parte não escavada da Casa dos Repuxos ao Anfiteatro, que está a ter resultados extraordinários. Esta colaboração permite, além do mais, encorajar jovens investigadores a dedicarem a sua atenção a Conimbriga, desenvolvendo linhas de pesquisa que juntam os dados das novas escavações aos dados já recolhidos. Isto resulta num conjunto importante de investigação em curso. Neste momento o Museu acolhe projetos de doutoramento dedicados ao estudo das ânforas, das pinturas e das faunas antigas.