«Há algumas pessoas do PSD, felizmente poucas, que não me apoiam», disse Luís Marques Mendes no debate das presidenciais de terça-feira, 25 de Novembro, na SIC, com André Ventura, que o interrompeu, no tom áspero do costume, para, ironicamente, o questionar: «Poucos?! E onde é que está o Pedro Passos Coelho?». «Não sei», respondeu com a candura possível Marques Mendes. E Ventura prosseguiu, invetivo: «Nem o antigo primeiro-ministro o apoia. Aliás, se tivesse de escolher entre mim e o senhor, escolhia-me a mim, como Presidente da República, com toda a probabilidade». E não é a primeira vez que um candidato presidencial evoca o nome de Pedro Passos Coelho, até agora em vão.
Outro que o fez foi João Cotrim de Figueiredo, ainda em outubro, quando afirmou: «Sou o candidato mais próximo de Passos Coelho», e disse-o de outra forma ao considerar que o ter como Presidente da República e Pedro Passos Coelho como primeiro-ministro «seria uma oportunidade única que o país não tem tido nos últimos 30, 35 anos para, de facto, fazer as reformas que fazem falta». Mais recentemente, num debate com o candidato do Livre, Jorge Pinto, Cotrim voltou ao assunto para afirmar: «Eu não me importava nada que os dois milhões de portugueses que votaram em Pedro Passos Coelho votassem em mim, e seria até com grande orgulho».
Tal como o Nascer do SOL já escreveu, o antigo líder do PSD, que liderou um Governo que incluía ministros do CDS, opta pela omissão: não diz publicamente quem é o candidato presidencial que apoia, o que valoriza mais a possibilidade de o fazer e, com isto, se tornar decisivo numa campanha que tem candidatos muito taco-a-taco – e é de incluir cada vez mais Cotrim de Figueiredo –, em que dois ou três pontos percentuais podem fazer a diferença para passar à segunda volta.
Entretanto, Passos Coelho paira, mas não está abertamente a comentar os assuntos da atualidade política. Anda por aí. Sabemos que o antigo primeiro-ministro tem estado presente em inúmeras atividades, umas mais prosaicas do que cosmopolitas.
‘Encontros improváveis, conversas com fé’ levaram Pedro Passos Coelho à Igreja Matriz de Alfândega da Fé para debater com o ex-selecionador Fernando Santos, o apresentador Jorge Gabriel e o chef Marcos Gomes «o sentido da vida e o seu propósito», num evento promovido pela Pastoral da Cultura e Turismo de Bragança-Miranda e o município local, historicamente do PSD, realizado em 16 de novembro. Numa Igreja completamente lotada, não faltaram todos os presidentes de Câmara do nordeste transmontano e douriense.
Pedro Passos Coelho aproveitou a viagem para contactar com as gentes da região. Dormiu na Casa da Avó, em Moncorvo, um antigo solar senhorial agora turismo de habitação que pertence à família Seixas, por onde, em tempos, também passaram Mário Soares e Jorge Sampaio, como testemunham os retratos nas paredes. Visitou o Lar de Nazaré (também em Alfândega da Fé), não fugindo a conversar com o pessoal e com os utentes, aproveitou para ficar a conhecer uma pequena empresa de transformação de amêndoa em Torre de Moncorvo, onde também assistiu a um concerto de cravo na basílica, com o maestro Miguel Alves da Universidade de Aveiro.
Mais recentemente, no dia 25 de novembro, esteve com Rui Ramos, em Marvila, na apresentação do livro 50 vezes 25 de Novembro: 32 olhares sobre o caminho da liberdade. O ex-primeiro-ministro do PSD assina o prefácio do livro, que conta com textos de Zita Seabra, Rui Moreira, António Tânger Corrêa ou Diogo Pacheco de Amorim, entre três dezenas de autores.
No essencial, a obra valoriza o 25 de Novembro de 1975 como o dia em que se travou a deriva revolucionária e se abriu espaço a uma democracia pluralista, distinta tanto da ditadura anterior como de uma eventual deriva autoritária de extrema-esquerda. Mas dá também conta do espetro político em que atualmente Passos Coelho se move.
Pode dizer-se que Pedro Passos Coelho tem gente que o apoia e que o acolhe, e ele quer ser acolhido. Essa gente é feita de pessoas que não têm qualquer incómodo em verem o PSD a escrever a azul um acordo de coligação com o Chega, sendo que o desafio é manter-se, na essência, como é: um liberal de direita conciliado com os valores do conservadorismo, que despreza subtilmente o populismo; e de pessoas que consideram que o antigo primeiro-ministro é o único capaz de funcionar como dique à torrente Ventura. Uns e outros são muitos.