É inevitável que as antigas colónias adotem discursos nacionalistas e denunciem o passado quando celebram a sua independência, como ouvimos do presidente de Angola. Para além da escravatura e das agruras da colonização, o povo angolano tem relativamente a nós uma queixa mais recente, ainda que a João Lourenço não interesse mencioná-la: o processo de descolonização.
A entrega de Angola ao MPLA constituiu uma dupla traição: aos portugueses que lá viviam e aos angolanos. Foi perpetrada pelos militares dominados pelo PCP, a soldo da URSS. Rosa Coutinho e os seus pares no Conselho de Revolução – Vasco Lourenço e o Grupo dos Nove não foram exceção – garantiram à pressa, dias antes do 25 de Novembro (que já não podiam adiar), o trespasse da mais importante colónia portuguesa para o imperialismo soviético.
A nomenclatura angolana então instalada resistiu ao fim da URSS e criou um regime que tem delapidado e saqueado com esmero os imensos recursos naturais do país. Depois de Eduardo dos Santos e dos seus camaradas, que enriqueceram sem rebuço,Lourenço emergiu como chefe de uma nova clique sedenta de ‘rapar o tacho’.
Ainda assim, custa-me espantam-me algumas reações de indignação relativamente ao discurso de Lourenço: os brasileiros dizem coisas bem piores de nós, todos os dias e com muito menos razão e um insuportável acinte, sem que ninguém pareça incomodado.
As potências colonizadoras devem assumir a sua quota parte de responsabilidade e, porventura, algum anacronismo na oratória, o que explica a posição conciliadora de Marcelo Rebelo de Sousa. São muitos os laços: temos uma comunidade imigrante de angolanos que gosta de Portugal, muitos portugueses a viver em Angola e interesses económicos relevantes. Há também um inconfessado consenso na corte lisboeta: mais vale que os angolanos gastem o seu dinheiro sujo em Lisboa do que o façam no Dubai.
Hoje, chega cá mais dinheiro angolano do que durante a guerra colonial. Angola abastece-se em Portugal do que não consegue produzir. A classe dirigente angolana tem filhos com dupla nacionalidade, e gasta à fartazana. Portugal é o seu paraíso: vêm cá para ter filhos ou para uma simples mamografia, e isso sai-lhes de borla. Mas abrem os cordões à bolsa para se instalarem nos melhores hotéis e esbanjam dinheiro em restaurantes da moda, comprando artigos e carros de luxo, moradias sumptuosas em Cascais ou Lisboa e participações em bancos e outras empresas. Como me dizia um amigo angolano, se antes se torrava por cá o café de Angola, agora torra-se por cá a riqueza de Angola.
De facto, o povo angolano continua colonizado. A sua liberdade é ainda uma miragem e o desenvolvimento socioeconómico prometido nunca aconteceu. Em Angola não há pão, não há saúde, não há educação, há muita corrupção. Nos últimos meses, vulgarizam-se os saques causados pela fome e as manifestações de jovens que não arranjam emprego. Ouve-se o desespero das mães que perdem os seus bebés por falta de cuidados de saúde primários.
A fraude eleitoral veio insuflar o descontentamento nas ruas e cheira a fim de regime. A juventude angolana está a acordar e vai apontar-nos o dedo. Mas queixar-se-á menos da escravatura e mais da cumplicidade interesseira que mantivemos com quem os subjugou.
Até lá, continuaremos a alinhar na farsa, ao reconhecer a legitimidade de eleições fraudulentas, certificadas pelos nossos observadores instalados em confortáveis hotéis. Não, não queremos estar do lado certo da História. Mas devíamos querer, porque essa é a mais justa das reparações que podemos oferecer ao povo angolano.