O Matuto, sentado na varanda da Casa das Pontes, percebe que o Advento chegou — não com fanfarras nem trovões, mas devagarinho, como quem empurra uma porta que range para não acordar a casa inteira. Foi mais ou menos assim que Deus chegou ao mundo: sem atropelos, mas com determinação.
Lá dentro, a Casa das Pontes ia tomando o pulso ao dia. Dona Sirlei, a gentil esposa do Matuto, circulava pela cozinha de avental florido, a arrumar, endireitar, limpar e criar — num ritmo que mantém tudo em perfeita harmonia.
Em Portugal, neste Advento, as salamandras tossem faíscas e uma chuva miudinha risca as janelas. Aqui, no Brasil, país que tão generosamente acolheu o Matuto no seu seio, o ar-condicionado zune segredos e a piscina sussurra convites líquidos.
Belinha, a visita conservadora das Pontes, surgiu com ar triunfal, trazendo um bolo-rei ainda em construção:
— É o Advento, senhores! — anunciou ela, como quem proclama a chegada de uma comitiva diplomática.
O Sr. Rocha, que andava a tentar abrir um frasco de mel desde a véspera, resmungou:
— Mas olha que um bolo-rei no Advento é como o peru na Páscoa… você se adiantou ao calendário.
Marcello, sempre pronto a comentar:
— As tradições portuguesas são tramadas!
Entretanto, Dona Sirlei apresentou um bolo de limão acabado de sair do forno:
— É o Advento… parece que me dá para fazer doces — justificou, abrindo os braços como quem anuncia o retorno de um filho pródigo.
A Belinha suspirou:
— Ai, meu Deus, que maravilha!
O Sr. Rocha coçou a careca:
— Doces no Advento… isto é que é adiantar serviço.
Marcello, sorridente:
— É o espírito, Rocha. Antecipar é bíblico. A Dona Sirlei está só a viver a teologia antes do tempo.
A Dona Sirlei lançou-lhe um olhar meio sério, meio divertido:
— Eu vivo é com pressa de receber bem quem chega. Não quero ninguém a bater à porta e encontrar a casa num oito.
— Já que falamos de chegadas — atalhou o Matuto — lembrei-me de Adolf Deissmann, um desses estudiosos alemães que pareciam nascer já com tinta permanente na mão. No seu Light from the Ancient East, ele explica que a palavra grega parousia estava na moda no primeiro século. Era usada quando o Imperador anunciava uma visita. A cidade transformava-se: ruas limpas, casas enfeitadas, o povo de gala. Era a chegada de um soberano. O golpe de mestre do Novo Testamento é justamente este: os escritores sagrados pegaram nesse termo imperial — parousia — e aplicaram-no a Cristo.
Marcello levantou as sobrancelhas:
— Ou seja: estavam a brincar com o fogo.
— Com certeza — disse o Matuto. — Ou melhor, estavam a falar a verdade, que às vezes é ainda mais perigoso. Porque dizer que Cristo é Senhor, kurios, era automaticamente dizer que César não era.
O Sr. Rocha franziu o sobrolho:
— Isso, naquela altura, era o mesmo que ter lugar marcado na arena do Coliseu, não?
— Exactamente. Roma tolerava religiões, superstições, filosofias e vaidades… mas não tolerava lealdades concorrentes. Quem dizia que Cristo era Senhor estava a afirmar que a soberania de Roma era secundária — e isso bastava para pôr um cristão no corredor dos mártires.
Belinha, impressionada, sai-se com esta:
— Então o Advento também é um bocadinho subversivo!
— É profundamente subversivo — continuou o Matuto. — Porque recorda-nos que o mundo tem um Rei que não pediu licença aos outros reis para nascer.
O Matuto então prosseguiu, com aquele brilhozinho nos olhos:
— Mas há mais. O Advento marca o início da Grande Descida, aquele movimento divino que leva Cristo da glória eterna até um presépio humilde. C. S. Lewis comparou esta descida ao trabalho dos pescadores de pérolas na Malásia… Num primeiro momento antes de se atirar ao mar, o mergulhador arqueia o corpo tenso de esforço. A sua pele brilha ao sol. Depois num movimento lesto mergulha rasgando a superfície da água. Atravessa a zona de água verde e aquecida. A sua viagem descendente continua passando pela zona mais fria de água azul, chegando à região profunda onde o sol não penetra. Eficazmente, descobre a pérola desejada e dá um bater de pés. Nesse bater de pés, inverte a tendência descendente da sua manobra. Volta a passar pela região de água fria e azul, depois a região de água verde e ligeiramente quente. Até que a sua cabeça rompe à tona de água com os pulmões a arfar buscando sofregamente o oxigénio. Na sua mão direita exibe radiante a pérola preciosa”.
O Sr. Rocha assobiou:
— É uma boa imagem, sim senhor. Então Cristo mergulha até cá abaixo e depois sobe com a pérola da redenção na mão.
— Exactamente — confirmou o Matuto. — Ele desceu — adventus — e subiu — parousia. Está presente entre nós.
Marcello pousou os talheres:
— Então o Advento é uma espécie de limpeza geral antes da visita do Rei?
— É mais do que isso — respondeu o Matuto. — É lembrar que, tal como as cidades romanas se preparavam para o César, nós somos chamados a prepararmo-nos para o verdadeiro Soberano. Não com decorações e coroas douradas, mas com as vestes do carácter cristão: verdade, amor, misericórdia, justiça, mansidão e alegria.
A Belinha suspirou:
— E eu aqui a pensar que era só acender velas e fazer doces…
Entretanto, o bolo-rei da Belinha saiu do forno torto mas heroico.
A memória afectiva do Matuto viajou por um instante para outros Adventos não tropicais, onde o cheiro a resina e pinheiros entrava pela janela húmida de neblinas, e a brisa marítima roçava as cortinas. Hoje, passadas algumas décadas, o Matuto recorda esses tempos como uma derradeira ventania da memória.
O Matuto acredita nas virtudes curativas e literárias da memória. Todavia, também acredita na força crepuscular da esperança, cujo símbolo maior é o Advento. Enquanto a Casa das Pontes se enche de cheiros, vozes e doces antecipados, o Matuto constata que o Advento tinha chegado devagarinho — como tudo o que vem de Deus.