Margarida Rebelo Pinto: “Hoje não teria escrito a crónica das gordas”

Aos 60 anos está mais calma, mas Margarida Rebelo Pinto continua a escrever livros e já vai no 20.º romance, 30.º livro. Agora divide a fama familiar com a irmã ministra.

Em criança teve febre reumática e já em adulta um AVC. De que forma as doenças alteraram ou condicionaram a sua vida?

Não considero que foram propriamente doenças. A febre reumática só durou um mês e em 2007 o AVC foi resolvido rapidamente e só estive uma semana internada. Quando olho para o passado, percebo que, por causa da febre reumática estive três anos sem poder brincar, saltar, fazer ballet e ginástica que adorava, descer no escorrega, andar de baloiço. No verão não podia dar mergulhos no mar, enfim o médico recomendou repouso e pouco movimento o que me ensinou a saber esperar e a pensar sempre no futuro. Hoje, tenho a certeza que isso mudou a minha capacidade de sonhar e de saber esperar, e de acreditar que o futuro poderia ser sempre aquele lugar onde eu iria fazer tudo que não podia fazer no presente. Aquilo que não nos mata, tornamos mais fortes, não é?

‘Eu já fui terrivelmente (e até absurdamente) romântica’, disse em 2019. O que a fez mudar?

Algumas desilusões amorosas por excesso de idealização do outro. Quando nos apaixonamos é quase inevitável entrar num processo de idealização da pessoa amada. Quando sofremos desilusões amorosas e percebemos que aquilo que idealizamos é muito diferente da realidade, isso obriga-nos a sair da nuvem e a pôr os pés no chão. Aprendi, a duras penas, que o amor não existe,  o que existe são provas de amor. No fim do dia o que conta é quem está lá para nós, aconteça o que acontecer. Ainda sou romântica, se não fosse, não escreveria romances de amor, mas já ninguém consegue desviar-me da realidade

Continua a ser uma gueixa em casa?

Cada vez mais! Fazer arrumações, seja na minha roupa, em papéis, organizar livros, redecorar a casa  é uma terapia insubstituível. Além disso, gosto de receber, gosto que as pessoas que convido para minha casa, que são muito poucas, se sintam amadas e bem tratadas

Era a figura mais famosa em casa, desde 1988. Como é dividir o protagonismo público com a irmã, ministra do Trabalho? Deu conselhos sobre como lidar com as pessoas na rua?

Nunca precisei de dar conselhos à minha irmã, ela é mais velha, a mais cerebral, sempre foi um modelo para mim e para o meu irmão. Fico muito contente quando dizem que somos parecidas, porque ambas somos uma cópia da minha mãe, que é a mulher mais inteligente e mais equilibrada que conheço. Acho muito divertido ser irmã de uma ministra e poder explicar às pessoas que ela sempre foi uma pessoa independente, tecnicamente muito competente e que abraçou este trabalho com espírito de missão.

Sempre gostou de dizer frases que, de certa forma, chocavam as mentes mais sensíveis. Que gostava de consumir os homens dentro do prazo de validade ou que os homens são muitas vezes surdos do coração. Agora, aos 60 anos, está mais calma?

Sempre fui calma, só que nunca tive filtro. Não vejo isso como um defeito ou uma qualidade, é uma característica, um traço de personalidade. Quando disse e escrevi variadas vezes que os homens são surdos de coração é porque o constatei, quer na minha vida, como nas muitas histórias de relacionamentos ao longo dos anos. E até admiro a capacidade masculina de se “fazer de morto” numa discussão amorosa/conjugal. Gostava de ter essa capacidade, não estou a ironizar

O wokismo está a aprisionar a cultura?

Completamente! Vejo o fenómeno como delírio, ou melhor mais um delírio de uma esquerda à toa que foi perdendo os seus ideais e a sua essência. A defesa das minorias não pode ser uma forma de tiranizar as maiorias. Foi um movimento que contribuiu para uma polarização ainda mais funda e profunda na humanidade. Felizmente está a passar de moda.

Em 2010 escreveu, no SOL, uma crónica que, dois anos depois, se transformaria na mais polémica. Hoje voltaria a escrever: ‘Acontece que a gordinha é geralmente gorda e sem formas, tornando-se aos olhos masculinos pouco apetecível, a não ser em noites longas regadas a mais de sete vodkas, nas quais o desespero comanda o sistema hormonal, transformando qualquer bisonte numa mulher sexy’?

Essa crónica, tal como outras, gerou bastante polémica. Nunca foi minha intenção insultar ninguém, e lamento que as pessoas se tenham se sentido ofendidas. O aspeto exterior de uma pessoa não a define em nada, nem deve ser objeto de troça. Hoje já não teria escrito esse tipo de disparates.

A geração que anda nos 60 anos não se soube adaptar às redes sociais e está a ficar sozinha com os telemóveis e tablets? A maioria das personagens do Sei Lá resistiu bem ao tempo ou perdeu-se nos ‘templos’ do pecado?

Depende, há de tudo: pessoas viciadas no Instagram ou em pornografia, ou pessoas que usam as redes sociais para se cultivarem, aprofundando temas que lhes interessam. No meu círculo de amigos, toda a gente continua a usar o telefone para telefonar e encontramo-nos com bastante frequência. Não sinto que a Geração X tenha perdido o barco, de forma alguma. Aliás, do meu mais recente romance, A Grande Ilusão, que saiu em março deste ano, faça um retrato da minha geração com crueza, mas sem culpa. Quisemos tudo e conseguimos quase tudo, somos uma geração vitoriosa, e isso ninguém nos tira. A única coisa que tenho pena em toda a minha vida é de não ter tido mais filhos

Hoje quais são os locais onde se inspira para os novos livros?

Já não tenho energia nem paciência para sair à noite e ir beber copos, aliás porque nem sequer bebo álcool. Na Grande Ilusão falo de restaurantes da moda e também daqueles clássicos, como o Monte Mar. Mas A Grande Ilusão é um romance muito introspetivo que foca problemas da minha geração: filhos ambiciosos que escolhem viver fora de Portugal porque se recusam a ser a geração dos €1000, pais internados com demência, mulheres que não conseguem engravidar, homens que deixaram de acreditar no amor, ações impossíveis, casos extra conjugais e outros temas que são fraturantes na minha geração.