Política a sério

O Senhor Costa na manifestação

No clima muito crispado em que estamos a viver, com declarações histéricas e gritaria contra este e aquele, as manifestações feministas não ajudam nada a serenar os ânimos

Na sexta-feira da semana passada, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, realizou-se uma manifestação no feminino a favor da igualdade de género (irrita-me imenso esta palavra ‘género’) e contra a violência doméstica.

António Costa decidiu participar na manifestação.

É natural.

Estamos em período pré-eleitoral e o tema da violência doméstica está na agenda mediática – pelo que participar numa manifestação feminista dá sempre alguns votos.

Não percebi contudo, exatamente, o objetivo dos manifestantes.

Uma manifestação de professores ou de enfermeiros tem um objetivo concreto: pressionar o Governo, tentar forçá-lo a aceitar as respetivas reivindicações.

Mas uma manifestação contra a violência doméstica tem por objetivo pressionar quem?

A Justiça, para ter mão mais pesada?

Os deputados, para fazerem mais leis a favor da igualdade?

Os homens que a praticam?

Mas alguém acredita que os homens violentos em casa se deixem pressionar por manifestações destas?

Julgo que a manifestação do dia 8 de março, por ter objetivos muito vagos, foi sobretudo um espetáculo.

Foi folclore.

Ao qual o primeiro-ministro se associou numa lógica de angariar votos.

Afinal, a mesma razão que o levou a participar no programa de Cristina Ferreira, cozinhando uma cataplana.

Mas devemos ir um pouco mais longe e mais fundo nesta questão.

Como os factos mostram, falar muito em violência doméstica não tem contribuído para a fazer baixar, antes pelo contrário.

Há muitas mulheres a morrer às mãos dos maridos, ex-maridos, namorados ou ex-namorados, e as queixas por violência doméstica parecem aumentar todos os dias.

Nos incêndios, quanto mais se fala nos incendiários mais eles ateiam fogos.

Aqui parece estar a suceder o mesmo: quanto mais se noticiam crimes, se debate o tema, se fazem campanhas para combater o flagelo, mais casos aparecem.

Isso mostra que estamos no caminho errado.

Estamos a tentar combater as consequências, em vez de atacarmos as causas.

Estamos a combater os sintomas e não a doença.

Como já escrevi e é evidente, a raiz da violência doméstica está em boa parte nas más condições de vida de muitas famílias.

Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.

Portanto, o combate à violência doméstica tem de começar aqui: no apoio às famílias, no sentido de minorar as dificuldades que enfrentam.

Tudo o que se faça para facilitar a vida das famílias diminuirá certamente a conflitualidade no seu seio.

E o Governo pode ter aí um importante papel – valorizando a família, dando melhores condições para as mulheres terem filhos, criando creches gratuitas e obrigando as grandes empresas a fazerem o mesmo para os seus funcionários, aumentando os abonos de família, dando facilidades fiscais aos casais casados.

Não tenho dúvidas de que, se isto – e outras medidas no mesmo sentido – for feito, a violência doméstica diminuirá consideravelmente.

A manifestação do dia de 8 de março poderia ter excelentes intenções, mas o seu efeito foi o oposto.

No clima muito crispado em que estamos a viver, com declarações histéricas e gritaria contra este e aquele, as manifestações feministas não ajudam nada a serenar os ânimos.

Só os agitam ainda mais, gerando um clima de guerra dos sexos que não servirá a ninguém.

Tendem a aumentar a desconfiança entre mulheres e homens, cujo resultado só pode ser agravar ainda mais o problema.

Neste momento, o papel das pessoas responsáveis deve ser, pois, o contrário: não agitar os demónios, não atiçar os cães, mas procurar acalmá-los.

Deitar água na fervura e não gasolina no fogo.

Por isso, o primeiro-ministro fez mal em participar na manifestação.

Foi um erro.

Em vez de desfilar no Dia da Mulher, António Costa teria feito bem melhor em ficar em casa a pensar naquilo que o Governo pode fazer a favor das famílias portuguesas no sentido de prevenir a violência em casa.

Aqui, sim, valeria a pena Costa empenhar-se.

Tal como nos incêndios, a melhor estratégia é preveni-los e não concentrar todos os esforços no combate às chamas.

Mas o Governo não o faz porque o seu foco não está neste momento nos casais comuns mas nos casais alternativos.

Em lugar de pensar nos problemas dos casais em geral, o Governo – pressionado sobretudo pelo BE – está sobretudo preocupado com os casais minoritários.

E depois insurge-se contra a violência doméstica...