Vida

Nunca é tarde para começar

São 10h15 e o ginásio 51 está praticamente lotado. A professora Andreia Alves dá o mote. Vão ser necessários halteres, bolas e colchões e não há espaço para a preguiça. Os alunos sabem exactamente o que fazer. De frente para o espelho, seguem milimetricamente os passos da professora. Mesmo que isso signifique levantar halteres de cinco quilos (ou de um, conforme a capacidade física de cada aluno), vezes suficientes para que quem está de fora sinta os seus próprios braços a pesar. Mas ali ninguém desiste. Pormenor: os alunos desta aula de Condição Física têm idades entre os 60 e os 80, e a maioria vem religiosamente três vezes por semana (se não mais).


“Constatamos que as pessoas que fazem exercício físico são muito mais activas, quer a nível físico quer a nível intelectual. E a verdade é que recebemos alunos mais novos, bastante mais novos, que não aguentam a aula”, reconhece aquela professora do Ginásio Clube Português, de 35 anos, que anteriormente foi ali ginasta. “Estou cá há 23 anos. Digo sempre que estes alunos mais velhos são o meu exemplo. Um dia quero ser assim, chegar à idade deles e também estar activa”.

Os estudos vão todos neste sentido, de incentivar ou manter a prática de exercício físico entre a população sénior. “Quer a American College of Sports Medicine, quer a American Heart Association fizeram recentemente declarações sobre actividade física e saúde pública em adultos mais velhos. E as conclusões são de que a actividade física melhora a força, o equilíbrio, a coordenação, a flexibilidade, a resistência, a saúde mental, o controlo motor e a função cognitiva dos idosos”, afiança a professora Cristina Caetano, responsável pela direcção de Exercício e Saúde deste ginásio. Também as indicações da Direcção Geral de Saúde, já em 2007, referem que a actividade física ajuda a prevenir quedas (a maior causa de incapacidade entre os idosos), além de que sessões organizadas de exercício físico fomentam o convívio social, com impactos profundos nos sentimentos de solidão e exclusão social.

Maria, de 77 anos, aluna da aula da professora Andreia, não dispensa as idas ao ginásio. “Já cá ando há 30 anos. Quando trabalhava vinha às 7h, para depois seguir para o emprego. Posso parecer ridícula, mas não me sinto com 77 anos. Sinto-me com uns 50, no máximo”. E quem a vê levantar halteres, fazer agachamentos e abdominais sem interrupções, não lhe dá mais de 30.

“O ginásio procura fazer de nós pessoas felizes, o que é importante. O que distingue um idoso de um velho, é que os velhos não têm projectos de vida e os idosos - e esta é uma questão determinista porque a cada minuto que passa somos um bocadinho mais idosos - continuam a levar uma vida que lhes agrada”, garante José Faia, de 78 anos, que já frequenta o ginásio há mais de 40. A sua colega, Francisca, 65 anos, vem há menos tempo, mas para compensar joga golfe e faz caminhadas nos dias em que não vem às aulas. “Tento vir pelo menos três vezes por semana. O que é óptimo, já que me obriga a levantar todas as manhãs e a sair de casa”.

Mas, segundo a professora Cristina Caetano, ir ao ginásio faz muito mais do que isso. “De todos os grupos etários, as pessoas idosas são provavelmente as mais beneficiadas pela prática regular de actividade física, uma vez que o risco de muitos problemas de saúde comuns na velhice, como as doenças cardiovasculares, a hipertensão arterial, a osteoporose, as fracturas ósseas, a diabetes, a depressão e o cancro, diminuem com a prática de actividade física. Esta, contribui ainda para a melhoria da força, do equilíbrio, da flexibilidade, da resistência, da saúde mental, do controlo motor, da função cognitiva e da diminuição da gordura corporal dos idosos”.

No piso da musculação, a faixa etária mantém-se elevada. João, de 81 anos, levanta mais de 20 quilos só com as pernas e segue depois para o treino de braços. “Sinto que tenho 50 anos, venho três vezes por semana e a verdade é que não tenho problemas nenhuns: durmo bem, tenho flexibilidade, força, tudo. As pessoas ficam velhas por se fecharem em casa. Ficam na sombra, não puxam por si, no fundo, não se interessam, estão só à espera de ir”. Depois de João arrumar com a desculpa da idade, é a vez de Leston Bandeira, de 71 anos, arquivar a desculpa da doença. “Já tive montes de complicações cardíacas. Tenho um bypass triplo desde 1992, tenho uma válvula aórtica desde 2004, tenho dois stents na coronária direita e a máquina está a funcionar direitinha. Digo sempre: 'se tu consegues fazer, eu também consigo'. É por isso que estou no ginásio”.

patricia.cintra@sol.pt