Opiniao

Deus não precisa de maiúsculas

Reparei há dias que um dos festivais de música deste Verão marcou o regresso a Portugal dos dEUS. Para quem não saiba, é exactamente assim que se escreve o nome desta banda de culto de origem belga. Recordo-me da primeira vez que o vi num cartaz e de pensar num primeiro momento que se tratava de uma gralha. Excluída essa hipótese, pareceu-me uma afronta: o facto de todas as letras, excepto a inicial, serem capitulares acentuava a pequenez do “d”. A mim, que era então um jovem recém-baptizado, a forma como esse nome estava escrito fez-me pensar na cruz invertida dos satânicos, em que o braço de cima é maior do que o de baixo, como se fosse uma cruz cristã virada de pernas para o ar. 

Desde então, o assunto deu-me que pensar. Sempre assumi que o Deus da Bíblia se escrevia com “D” maiúsculo e que a palavra deus, com minúscula, se usava para designar outras divindades. Como Afrodite, deusa do Amor; Marte, o deus romano da guerra; ou até o líder de uma banda de rock, cujos fãs idolatram como um deus. Um deus, lá está - e depois havia o Deus, o que se escreve com maiúscula: omnipotente, omnipresente, “criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”. A questão estava assim resolvida na minha cabeça.

Mas há tempos comecei a reparar em livros e textos de jornais que há cada vez mais pessoas a escreverem “deus” para se referirem ao Deus dos cristãos. O facto causa-me alguma estranheza, uma vez que, dada a nossa matriz judaico-cristã, me parece evidente que o Deus da Bíblia merece um tratamento diferente dos demais, independentemente das convicções religiosas de cada um - ou até da falta delas. 

A minha maior surpresa, porém, deu-se quando me falaram de um católico convicto que alinhava ao lado dos ateus mais empedernidos e escrevia ‘deus’ com minúscula. Como explicar essa aparente contradição? «Não quero que digam que estou a ‘favorecer’ a religião que professo», justificou-se.

No fundo pouco importa se escrevemos ‘Deus’, ‘deus’ ou ‘dEUS’, com ou sem maiúscula. Isso é uma questão que só pode ter algum significado para os homens - dependendo do maior ou menor grau de respeito que queiram demonstrar. Achar-se que se se está a ser provocador ou impertinente ao escrever ‘deus’ é também uma crença bastante ingénua. Algumas pessoas poderão sentir-se atingidas (como eu, quando vi o cartaz da banda belga), mas quanto ao próprio - o omnipotente, omnipresente, ‘criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis’ - não deve estar propriamente preocupado com as nossas palavras. E muito menos se escrevemos ou não o seu nome com maiúsculas. 

jose.c.saraiva@sol.pt