Opiniao

Porque não há festa após a saída da troika

A 17 de Maio, apesar de o programa de ajustamento nem acabar nesta data, a Direita fará as suas comemorações, e o relógio do CDS lá chegará aos zeros. Ainda fará o Governo nesse dia umas promessas vãs, mesmo a meio da campanha eleitoral…

Mas no dia seguinte, a realidade dos portugueses nada mudará. Os portugueses não comerão melhor nem arranjarão mais trabalho a 18 de Maio. Por isso a Festa da Direita é tudo menos justificada. Senão vejamos:

Ao longo do ano de 2012 e 2013, foi-se detetando o efeito na Dívida Pública da queda abrupta do PIB, causada pela duplicação da austeridade nos dois orçamentos. Grande parte das medidas de consolidação acabou perdida para a recessão (por via do aumento dos subsídios de desemprego e da quebra dos impostos cobrados). Por cada quatro Euros de austeridade, três foram perdidos para a recessão. Mas a Dívida Pública em % do PIB não parava de aumentar, tendo chegado ao fim destes anos 17 p.p. do PIB acima das previsões do próprio Governo. Verificou-se, portanto, um enorme desvio na Dívida Pública, o indicador mais relevante.

Mas ao longo deste tempo fomos ouvindo falar de transformação estrutural da economia. Que o grande esforço dos portugueses seria recompensado no final em riqueza e emprego. Os indicadores a partir do 2º trimestre de 2013, depois do pior trimestre de sempre, pareciam apontar essa possibilidade. Contudo, conclui-se que não se verificou qualquer transformação da economia, antes um efeito positivo, mas temporário, da não-adoção de novas medidas de austeridade depois do chumbo do TC aos cortes de subsídios. A transformação estrutural da economia precisava de novo investimento, e os empresários repetidamente diziam-se estrangulados pelo preço do crédito e pela falta de procura, principal razão para as decisões de (não-)investimento.

Mas o Governo ia falando já em milagre económico, e anunciava as exportações como o porta-aviões da recuperação da economia.

Chegados a 2014, adotaram novo pacote de cortes (os famosos 4 mil milhões da assombração de Vítor Gaspar). Mais cortes de salários e pensões. Mais cortes de pensões a substituir cortes de pensões declarados inconstitucionais. Resultado, uma enorme travagem da economia no 1º trimestre, uma queda de 0,7% do PIB em cadeia, a terceira maior queda na Europa. No mesmo trimestre, a economia perdeu mais de 40.000 postos de trabalho, mais de 60.000 portugueses deixaram de procurar trabalho ou emigraram.

A 18 de Maio, temos, pois, uma Dívida Pública maior e mais difícil de pagar.

O Investimento arrasado, por falta de procura, sempre dinamitada pelos cortes do Governo. Uma economia na melhor das hipóteses estagnada. E o Banco de Portugal anuncia que todo o crescimento que se possa verificar em 2014, 2015 e 2016 terá um contributo nulo da procura externa líquida. Ausência de transformação estrutural a caminho dos mercados externos. Tiro no porta-aviões!

E mesmo a solidez do setor financeiro novamente ameaçada, pelo crescimento contínuo dos créditos vencidos, ao ritmo das insolvências de empresas e particulares, devido à recessão e corte de rendimentos.

A 18 de Maio, apesar deste Governo, continuará a luta de cada um de nós por um Portugal mais próximo dos nossos sonhos. Só é de lamentar que a obstinação com a duplicação da austeridade e o empobrecimento como programa político, tenha tornado tão mais distantes os sonhos de tantos milhões.