Internacional

Bowe Bergdahl: De herói americano a dor de cabeça para Obama

A libertação do único prisioneiro de guerra norte-americano gerou uma tempestade em Washington.


A história é dramática e fará muitos leitores recordarem a série Segurança Nacional (Homeland), em que um marine norte-americano que foi prisioneiro de islamistas radicais enfrenta a suspeita dos compatriotas após a libertação.

Bowe Bergdahl, um soldado norte-americano de 28 anos, foi libertado a 31 de Maio após quase cinco anos sob sequestro dos talibãs no Afeganistão. Mas os contornos da libertação, e também do desaparecimento do militar, tornaram Bergdahl num terreno de batalha política entre democratas (no poder) e republicanos (na oposição).

Inicialmente, o anúncio da libertação de Bergdahl chegou a ser recebido de forma entusiástica à direita, com vários dirigentes do Partido Republicano a congratularem o militar através das redes sociais. Mas, e como notou o site Mashable, todos estes tweets e posts do Facebook foram entretanto apagados.

Porquê? Em primeiro lugar, porque Bergdahl foi trocado por cinco prisioneiros talibãs de Guantánamo – sim, a prisão continua por encerrar apesar de repetidas e antigas promessas do Presidente Barack Obama. Os republicanos apontam riscos de segurança e falam em ilegalidade, já que a Casa Branca deveria ter consultado o Congresso com 30 dias de antecedência.

A administração Obama argumenta que o carácter da operação, mediada pessoalmente pelo emir do Qatar, obrigava ao secretismo, e que qualquer risco de segurança está “suficientemente mitigado”.

“Sem entrar em demasiado detalhe sobre os mecanismos de redução de risco desta transferência, existem proibições de viagem associadas, monotorização associada…”, disse o porta-voz da Casa Branca Jay Carney.

No Congresso, republicanos como o moderado John McCain ou o radical Ted Cruz acusam Obama de “colocar em perigo a vida dos norte-americanos” e exigem ouvir no Capitólio os responsáveis pela operação e o próprio Bergdahl.

Traidor?

O caso complica-se ainda mais. A imprensa norte-americana, e sobretudo a alinhada com os conservadores, lança sérias dúvidas sobre a narrativa em torno daquele que era, até há dias, o último prisioneiro de guerra dos EUA.

Antigos companheiros de unidade acusam Bergdahl de deserção, por forte suspeitas de que o militar terá saído voluntariamente da base em cujas mediações teria sido raptado.

“Ele foi-se embora. Deixou o seu posto. Ninguém sabe se desertou, se é um traidor ou se foi raptado. O que eu sei é que ele deveria estar lá para nos proteger e em vez disso decidiu… sair e fazer o que quer que tenha decidido fazer”, disse à CNN o soldado Jose Bagget.

Os veteranos responsabilizam ainda indirectamente o soldado pela morte de pelo menos seis militares envolvidos nas buscas.

A teoria da conspiração em torno de Bergdahl, de que o norte-americano ter-se-á convertido ao Islão e aderido ao movimento talibã, ganha peso para alguns conservadores que olham para a figura invulgar do pai do militar. Robert Bergdahl, de 54 anos, deixou crescer uma longa barba e decidiu aprender a língua pashtum para tentar dialogar com os raptores do filho. No momento do anúncio da libertação de Bowe, em plena Casa Branca e ao lado de Obama, Robert agradeceu a Alá.  

E, na semana passada, o pai Bergdahl afirmou no Twitter que continuava a lutar “pela libertação de todos os prisioneiros de Guantánamo” e que “Deus irá compensar a morte de cada criança afegã”. A mensagem foi posteriormente apagada.

Na cidade-natal de Bowe Bergdahl, no estado do Utah, continua-se a preparar a festa de recepção ao filho da terra. Os habitantes afirmam que o jovem está a ser alvo de “luta política” e de um “linchamento mediático”, e esperam que este possa prestar todos os esclarecimentos na primeira pessoa.

Por agora, a polémica permanece ao rubro, até porque Bergdahl, que se encontra de momento numa base norte-americana na Alemanha, só regressa aos EUA no fim do mês.